segunda-feira, 28 de junho de 2010

Ai de nós art-is-tas!

Ai de nós art-is-tas!
Miguel Garcia

E agora:
como seremos transportados às largas planuras sob a imensa cúpula do céu aberto,
ou à espessa floresta ví-vida,
sob o pálio das árvores?
Como ouviremos as vozes divinas falarem através do vento e do trovão?
Como saberemos se o espírito de Deus flutuava em todo riacho da montanha,
e se toda a terra florescia como um lugar sagrado?
Agora que limpamos o planeta de todo mistério,
faxinando crenças,
qual será o alimento de nossa imagin-ação?
Ai de nós art-is-tas!

Saga

Saga
Miguel Garcia



In-tu-indo... É o que faço. Con-fio no ser sem afronta à razão, sem bater em retirada. Eis minha jornada pela super-ação das paixões tenebrosas, pelo controle do selvagem irracional – enfebrecimento carnal, lúbrico, endêmico à natureza humana. Não se trata de um ato de coragem, e sim de uma vida vivida em termos de autodescoberta – encontrar dentro de mim as reservas de caráter necessárias para enfrentar meu “destino”.

Não espero en-grande-cimento ao fim da jor-“nada”. Não se trata de identificar-me com qualquer das figuras ou poderes experimentados, como quem lutando por se libertar e identificando-se com a Luz, jamais retornasse, isso não. Ninguém que abraça o propósito de servir aos outros se permitiria tal evasão.

O objetivo último de minha busca não será nem evasão nem êxtase, para mim mesmo, mas a conquista da sabedoria e do poder para servir outros. Já descobri que uma das distinções entre a celebridade e o herói é que um vive apenas para si mesmo, enquanto o outro age para redimir a sociedade. Melhor é dar a vida por algo maior que si mesmo. Vida... deliciosa aventura const-ante: é certo que meu retorno trará ao menos uma mensagem...

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O Sentido dá vida!

O Sentido dá vida
Miguel Garcia

Não sei sobre o sentido da vida. Não me ocupo disso. Ando a procura da experiência de estar vivo, de modo que aquilo que ocorre no plano puramente físico, tenha ressonância no interior de minha realidade mais íntima e do ser, de modo que eu realmente sinta o enlevo de estar vivo.
Estou exatamente aqui. É isso. O sentido é que estou aqui. Rejeito a proposta de viver empenhado em realizar determinados feitos (culto ao heroísmo próprio e de outrem), com o propósito de atingir objetivos de outro valor, ao ponto de esquecer-me de que o valor genuíno de estar vivo é o que conta de fato. Sou quem sou e amo, amo muito, não quero cessar nunca; canto, seduzo notas, in-Vento palavras, vou roçando as cordas da guitarra até que o clímax de um prazer musical a-con-teça, re-velo, poetizo, profetizo, alquimizo - tempero o existir, enfeito o prato, a mesa, a rotina, derramo sentimentos e afetos vários, preciso en-gra-vidar o mundo, colher a flor, comer o fruto, aspirar o aroma de tudo – o perfume de todos, de Cristo, hoje, aqui, agora mesmo, estou exatamente aqui. É isso. O sentido é que estou aqui.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Quem dera a im-perfeição virasse moda na igreja!

Quem dera a im-perfeição virasse moda na igreja!
Miguel Garcia


Minhas melhores canções são as mais dissonantes. Meus melhores poemas, os que confundem cabeças. Músicos e escritores devem ser verdadeiros para com a Verdade. A única maneira de descrever o humano verdadeiramente é através de suas imperfeições.

Aprendi isso na vida e com Joseph Campbell; que o ser "humano perfeito" é desinteressante – 'um Buda que abandona o mundo'. Rememorei peregrinando por leituras, que são apreciáveis as imperfeições da vida. Sei que palavras como essas podem ser recebidas como se fossem dardos mortais - setas inimigas de pressupostos arraigados e até sacralizados - algo que fere, no entanto, devo afirmar que se mato algumas crenças no caminho de minhas reflexões, o faço com amor, por amor abato com sentenças “cruéis” e analíticas.

Perfeição é algo tedioso – desumano. Cito como exemplo, a estrutura das canções religiosas industriais (melodia, harmonia, ritmo e poesia), enfadonhas em sua pretensão de expressar um ideal perfeito, sendo que adorável é o umbilical, a human-idade – aquilo que se faz gente e não sobrenatural e imortal.
Campbell sugere ainda que a razão de muitas pessoas terem dificuldade de amar a Deus é por não haver nele imperfeição alguma. Você pode sentir reverência, alerta Campbell, mas isso não é amor. É o Cristo crucificado que desperta nosso amor, afirma categoricamente. “Sofrimento. Sofrimento é imperfeição, não é?”, e com isso, arre-mata-a-pau.

A história do sofrimento humano, a luta diária e frenética, a vida criatural, tudo o que a condição limitada traz à tona como possibilidade, isso sim é bacana, é tudo de bom – transparente de eternidade aqui, do Belo, humanal, encarnado - crístico.

Quem dera a ver-dadeira Arte recebesse um convite para ingressar no período de louvor... Quem dera a im-perfeição virasse moda na igreja!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

فاطمة

فاطمة
Miguel Garcia

Diante desses fatos, rendo-me à pulsão Ágape, pois não se pode reduzir ou con-ter um mistério divino – uma pessoa crística – uma Mulher adorável. Miguel Garcia

Você não nasceu,
Luziu, alvoreceu,
Clar-eou, Es-Clar-ceu,
Brilhou, fez-se dia,
Amanheceu, resplendeu,
Chamejou, cintilou,
Centelhou, faiscou,
Refletiu, reverberou,
Rebateu, resplan-deceu,
Deu-se de si luz, alumiou,
In-sol-ou, deslumbrou,
Aureolou, aclareou,
Rutilou, coruscou,
Tomou o sol – repontou da manhã...

Tão lúcida, dilúcida,
Luzida, brilhante,
Luz-ente, esplendida,
Lustrosa, cintil-ante,
Deslumbr-ante, gloriosa,
Aureolada, luminosa,
Es-Clar-ecida, à luz de Deus,
Aos raios Seus, sem nuvens – trevas,
Rútila, iluminada,
Fosforesc-ente, luc-ida,
Esplendida, donzela:
Fāţimah, Clara,
do Jorro de luz, e do Garcia?

Feliz Aniversário!

sábado, 19 de junho de 2010

O PAÍS DA COPA TEM 'CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO' PARA OS EXCLUÍDOS

VÍDEO EXCLUSIVO MOSTRA QUE O PAÍS DA COPA TEM 'CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO' PARA OS EXCLUÍDOS (por ESPN.com.br)

Em virtude da Copa do Mundo, a Cidade do Cabo implantou uma política de 'limpeza social' para deixar pessoas 'indesejadas' – como moradores de rua, pobres e aidéticos – longe dos olhos dos turistas.

Blikkiesdorp, ou cidade de lata, tem moradias de caráter provisório para onde essas pessoas foram levadas, até que fossem construídas casas de verdade. Anos depois, porém, elas permanecem cercadas e esquecidas.

Assista o vídeo:

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A-Deus Sara-mago! Morre um grande mestre da suspeita.

A-Deus Sara-mago! Morre um grande mestre da suspeita.
Miguel Garcia

O que é "dado" primeir-a-mente é a consciência falsa, o preconceito, a ilusão, a pretensão ao conhecimento de si e de outros (não cesso de ter con-tato com esse tipo de ocorrência). Miguel Garcia


Acredito pi-a-mente que escritores como José Saramago sejam funda-mentais ao cristianismo, ajudando-o a permanecer consciente de abundantes anomalias, como as que Nietzsche, Marx, Feuerbach, Freud e tantos outros trouxeram à tona: as máscaras tão amadas pela coisa religiosa, explorações secretas que o soci-ALL e a igreja vivem ocultando, as projeções de nós mesmos em Deus e aquilo que considero mais freqüente e palpável, os mecanismos e pulsões inconscientes por trás do que a maioria dos que se consideram cristãos escondem desesperadamente ou procuram disfarçar.

Faço questão de aplaudir o gênio de Sara-mago, apesar dele não ter sido capaz de dar ampla expressão ao lado místico, ao menos não do modo convencional, eu diria. De certo maneira lamento que sua recusa de "abandonar o projeto causa sui" o tenha privado de uma visão menos ácida do significado real e mais profundo da religião. Mas sei que uma visão assim é o campo de cultura da fé diretamente como uma realidade experencial e não uma ilusão, conforme o autor imaginava. O Mago não abandonou seu daimon, a totalidade de sua única paixão como gênio, a própria dádiva que ele forjou para a humanidade, de qualquer modo, louvado seja!

Deixo aqui as merecidas reverências ao talento e valor desse autor e junto a elas o meu a-Deus, a-Deus Sara-mago-das-idéias-novas-e-brilhantes-percepções-do-real, regresse ao princípio e ao fim de tudo: a-Deus!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A força motriz do mundo

A força motriz do mundo
Miguel Garcia

Observei tudo e compreendi que o que move o mundo, tanto no social como no pensamento, é a inveja – admiração infeliz, como bem disse o gênio de Kierkegaard.

Por mais que eu tente, queira e até necessite, não cesso de ouvir as vozes, o ronco que dá movimento, que impulsiona tudo e todos, em toda parte, o Sistema que transforma em energia outras formas de energia.

Por mais que eu faça força para esquecer, negar, transcender, a carga induz e instiga constantemente, essa força motriz impele o mundo, espreita, seduz, devora, esse desgosto pelo bem alheio - palpável ou não, esse apetite voraz, esse ódio velado pelo possuidor de qualquer coisa concreta ou imaterial.

Recentemente ouvi o relato de uma dona de casa, casada, mãe de três crianças pequenas, natural do sul de Minas, Nepomuceno. Ela contou que num dado momento de sua vida, sentindo-se carente do Maravilhoso, do Amor Supremo, de render-se ao Ágape pulsante, procurou uma comunidade evangélica próxima de sua residência e, sem demora, converteu-se - entregou-se a Jesus Cristo e logo após foi seguida na decisão pelo marido e os filhos.

Não demorou muito e já estavam sendo submetidos a um minucioso processo de "des-mundificação" que exigiu uma investigação detalhada do estilo de vida que levavam e hábitos que por ventura contrariassem o estatuto e a ordem de coisas da comunidade.

A senhora contou-me também que na época, seu marido era bem empregado, que eles possuíam casa própria e gozavam de certa tranqüilidade econômica.

Logo vieram as cobranças de dízimos e ofertas especiais dirigidas especificamente a ela e seu marido, junto com ameaças indiretas de castigo e maldição, caso não suprissem as necessidades da "casa do Senhor".

Vencido o estágio de adaptação, ou melhor, sobrevivido à prova de fogo do “discipulado” a que foram submetidos, foram convencidos a tornarem-se meio para o expansionismo e conquistas da comunidade. Foram enviados a um campo missionário, num lugar distante.

Para que tal processo transcorresse a contento dos ideais da instituição o anjo da igreja (pastor) os induziu  a abrir mão de todo o pouco que conseguiram ajuntar à duras penas, ao longo de muitos anos de trabalho. Por fim, obedeceram  ao 'chamado divino': o marido largou o emprego estável, venderam a casa às pressas e por qualquer tostão, confiantes na promessa do pastor de que seriam respaldados com recursos especialmente reservados para esse fim, ou seja, missões. Resultado; foram mais que abandonados e deixados à mercê do próprio azar. Faliram radicalmente e tiveram que voltar para terra natal com recursos próprios e como se não bastasse, acusados de serem incompetentes e pecadores (perdedores), para que o Deus não os tivesse salvo da situação calamitosa em que se encontravam. Lembro-me dessa senhora voltando um olhar desencantado para mim, suspirando e enternando o seguinte desabafo em palavras:

.. "sabe irmão, continuo apaixonada por Jesus, Dele não abro mão jamais (quem sou eu), mas quero distância daquele povo. Foi inveja, irmão, foi tudo inveja daquela gente mesquinha. Eles nem queriam as coisas da gente (queriam melhores), só não suportavam ver que a gente tinha alguma coisa, foi tudo inveja deles".

Esse tipo de história emudece e faz concluir que tudo é inveja de invejosos, que a inveja é o motor dessa estufa de angustias - o mundo dos homens.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O que é pior: religião ou psicologia, guru "evangélico" ou psico"lógico"? 2

O que é pior: religião ou psicologia, guru "evangélico" ou psico"lógico"  2? (Resposta in-útil)

Por incrível que pareça o sujeito que compartilha esse texto e parece hostilizar a religião e a psicanálise é mais que apaixonado por Jesus, não perde um só culto de domingo, participa de louvorzão de olhos fechados e marejando ao sabor de cadências previsíveis. 'Pregador' desde garoto, inquieto, vocacionado ao "pastorado" – ao serviço a outrem, caiu de cabeça e coração nas Ruben Alvices, Queiruguices, Delubaquices, Moltmannices, Sobrinices, Adornices, Kierkegardices, Otto Ranckices, Tillichices e afins. ora com desenvoltura de um pentéca, com contudo, vaga abso-luta-mente acordado, aberto - atento aos novos significados, leituras e re-leituras do "real", pulsa na delicadeza e poesia – transparência de Eternidade em tudo, todos. Um sujeito que vive gritando: "abaixo a mental-idade canina", eu no caso, mais que extasiado por 'psicologia'. Acredito no potencial de 'cura com palavras'. No texto em questão fui um tanto radical, “exagerado".. eu sou mesmo exagerado”...

Esse assunto dá pano pra manga, como diria a dona Edite (minha re-finada mãe). A última coisa que desejo é ser hostil com religião e psicanálise, por mais incrível e paradoxal que isso possa parecer. Acredito mesmo que a hostilidade à Psicanálise (com maiúscula) no passado, hoje e no futuro, será sempre uma hostilidade contra a necessidade de admitir que o homem vive mentindo para si mesmo sobre si mesmo e seu mundo, e que o caráter é uma mentira 'vital'.

Minhas questões vão por aí..., na pulsão de gritar sobre o excesso de fetichização em torno de gurus psicológicos e pressupostos daninhos arraigados – fundamentalismo “científico”, se é que posso chamar assim, sendo que nem todas as escolas encaixam-se no que poderíamos chamar de confiáveis ou perto disso.
Pois bem, as pessoas buscam encontrar a imortalidade de uma maneira nova e garantida. Querem a apoteose heroica como o quiseram todas as gentes da história passada – mas agora não existe ninguém para dar-lhes isso, exceto seu guru psicológico. As pessoas vão criando assim um impasse que torna os psicoterapeutas, o produto do neurótico devido a sua doença. Pelo que andei pesquisando, posto que também sou vidrado em psico..., a coisa funciona mais ou menos assim:

O homem moderno necessita de um tu para quem se voltar em busca de dependência espiritual e moral, e como Deus se acha em eclipse, o terapeuta O 'tem substituído' – tal como o ente amado e os pais o fizeram. Se isso for verdade, o tu do terapeuta é o novo Deus que tem de substituir as velhas ideologias de redenção. Como o indivíduo (terapeuta) não pode servir como Deus, ele tem de dar origem a um problema verdadeiramente “diabólico” (transferências e afins).

Daí o homem moderno estaria condenado a buscar o sentido de sua vida na introspecção psicológica e, por isso, seu novo confessor tem de ser a autoridade suprema em introspecção - o psicanalista. Sem falar que o além do paciente fica limitado ao divã analítico e à visão de mundo ali revelada. A psicologia representaria a decomposição, a dissipação analítica do eu, e em geral limitando o mundo à ideologia cientifica do terapeuta.

Minhas idéias e críticas (no sentido de uma busca por um aumento da percepção do real) caminham no sentido de apontar um tipo de empobrecimento emocional da psicanálise e divinização da atividade terapêutica – religiosização da atividade, etc...

Descobri que, o triunfo da psicologia científica teve mais efeitos equívocos do que apenas deixar intacta a alma que se propusera abolir. Quando se restringe a alma ao eu e o eu ao condicionamento inicial da criança, o que sobra? Tem-se o homem individual e fica-se atrapalhado com ele.

Ao que me consta, a promessa da Psicologia, como de toda a ciência moderna, era que inauguraria uma era de felicidade para o homem, mostrando-lhe como tudo funcionava, como uma coisa provocava outra. Aí, quando o homem conhecesse as causas de tudo, só lhe restaria apossar-se do domínio da natureza, inclusive da sua própria, e sua felicidade estaria assim assegurada (sobre esse tipo de “presunção”, ou sei lá o que, é bacana ler A ABOLIÇÃO DO HOMEM – C.S.Lewis).

Quanto à promessa de redenção científica do homem psicológico, encontrei questionamentos importantes em Otto Ranck, Norman Brown etc. Pois bem, sem negar aqui que a terapia pode representar uma grande libertação do que os especialistas chamam de falsa maldade – conflitos artificialmente provocados pelo ambiente primitivo da pessoa e pelos acidentes de nascimento e local, quis por em foco o quanto, ao meu modo de ver, a Psicologia restringe a causa da infelicidade pessoal à própria pessoa, quando muitos estudiosos dessa disciplina acreditam que a causa universal e geral para a maldade, culpa e inferioridade pessoal é o mundo natural e o relacionamento da pessoa com ele como um animal simbólico, que precisa encontrar nele um lugar seguro.

Toda a análise do mundo não permite à pessoa descobrir quem ela é e porque está na terra, porque tem de morrer e como pode fazer de sua vida um triunfo. É quando a psicologia simula fazer isso, quando ela se oferece como uma explicação total da infelicidade humana, que ela se torna uma fraude e faz da situação do homem moderno um impasse do qual ele não pode escapar.
Resumindo pra terminar:

A psicologia restringiu sua compreensão da infelicidade humana à história de vida pessoal do individuo e não entendeu quanto a infelicidade individual é, por si mesma, um problema histórico na acepção mais lata, um problema de eclipse das ideologias comunitárias seguras de redenção.

Estaríamos falando de uma nova forma de religião (a psicanálise) em que o psicólogo ocuparia o lugar de Guru cienti-ficado?

terça-feira, 15 de junho de 2010

Friedenreich (E ainda tem gente que não acredita no “diabo”..)

Friedenreich
(E ainda tem gente que não acredita no “diabo”..)

Em 1919, o Brasil venceu o Uruguai por 1 a 0 e se sagrou campeão sul-americano. O povo se lançou às ruas do Rio de Janeiro. Presidia os festejos, levantada como um estandarte, uma barrenta chuteira, com um cartazinho que proclamava: O glorioso pé de Friedenreich. No dia seguinte, aquela chuteira que tinha feito o gol da vitória foi parar na vitrina de uma joalheria, no centro da cidade.
Artur Friedenreich, filho de um alemão e de uma lavadeira negra, jogou na primeira divisão durante vinte e seis anos, e nunca recebeu um centavo. Ninguém fez mais gols que ele na história do futebol. Fez mais gols que o outro grande artilheiro, Pelé, também brasileiro, que foi o maior goleador do futebol profissional. Friedenreich somou 1.329 gols. Pelé, 1.279.
Este mulato de olhos verdes fundou o modo brasileiro de jogar. Rompeu com os manuais ingleses: ele, ou o diabo que se metia pela planta de seu pé. Friedenreich levou ao solene estádio dos brancos a irreverência dos rapazes cor de café que se divertiam disputando uma bola de trapos nos subúrbios. Assim nasceu seu estilo, aberto à fantasia, que prefere o prazer ao resultado. De Friedenreich em diante, o futebol brasileiro que é brasileiro de verdade não tem ângulos retos, do mesmo jeito que as montanhas do Rio de Janeiro e seus edifícios de Oscar Niemeyer. (Eduardo Galeano)

Os Negros (uma breve história de Copas)

Os Negros



Em 1916, no primeiro campeonato sul-americano, o Uruguai goleou o Chile por 4 a 0. No dia seguinte, a delegação chilena exigiu a anulação da partida, “porque o Uruguai escalou dois africanos”. Eram os jogadores Isabelino Gradín e Juan Delgado. Gradín havia feito dois dos quatro gols.
Bisneto de escravos, Gradín tinha nascido em Montevidéu. As pessoas se levantavam quando ele se lançava numa velocidade espantosa, dominando a pelota como quem caminha, e sem se deter evitava os adversários e arrematava na corrida. Tinha cara de santo e quando fazia cara de mau, ninguém acreditava.
Juan Delgado, também bisneto de escravos, havia nascido em Florida, no interior do Uruguai. Delgado brilhava dançando nos carnavais e fazendo a bola dançar nos gramados. Enquanto jogava, conversava, e gozava os adversários.
- Larga esse cacho – dizia, levantando a bola. E lançando-a dizia:
- Sai fora, que lá vai areia.
O Uruguai era, naquela época, o único país do mundo que tinha jogadores negros na seleção nacional. (Eduardo Galeano)

sábado, 12 de junho de 2010

O que é pior: religião ou psicologia, guru "evangélico" ou psico"lógico"?

O que é pior: religião ou psicologia, guru "evangélico" ou psico"lógico"?
Miguel Garcia


Simulando substituir a religião, a psicologia foi e continua sendo péssima. Seus gurus são tão alienados e ridículos quanto aqueles que se ufanam e bravateiam em nome do deus, no picadeiro de mega catedrais ou em esdrúxulos programas de rádio e tele”visão”.

Já a religião, tendo chegado às causas reais da culpa universal, conseguiu ser um tanto "melhor" que a psicologia, digo, um tanto melhor, pois geralmente a religião reforça as autoridades pátrias e sociais e torna ainda mais forte e inibi-dor o peso da culpa circunstancial, além de ser verdadeiramente causadora da maioria dos males apontados pelos grandes mestres da suspeita ao longo dos séculos. Você decide! O que é pior: religião (no sentido maquinal e deteriorado da palavra) ou psicologia (no sentido romântico e alienado), guru "evangélico" ou psico"lógico"? 

quinta-feira, 3 de junho de 2010

In-substanci-ALL

In-substanci-ALL
Miguel Garcia


Não se pode viver com a verdade. É por isso que as ilusões da arte, religião, filosofia, ciência e amor são tão bem-vindas.
A auto-tapeação de dentro (intrapsíquica) condiciona a de fora e faz brilhar um firme sentimento de poder ativo no cerne da pessoa. É quando a intuição apoia-se na "potência" alheia.
Não há saída: a vida só é possível com ilusões. Não há cinismo ao fazer tais afirmações.
Nossos projetos são carentes de uma grande dose de auto-engano e embromação. Eis a matéria prima de um sonho "imprescindível", do que muitos de nós chamam de um mundo “novo” - “realidade nova” – estilo de vida, do drama do existir, eis a nutrição de tudo (auto-tapeação nossa de cada dia).
O incrível é que aquilo que ilude é ao mesmo tempo algum tipo de representação criativa no mais auto nível –  algum tipo de ideologia indispensável de auto-justificativa – dimensão heroica do animal desprogramado e simbólico: nisso que deu a "evolução".
A ilusão respira/oxigena, salva da ameaça de sermos reduzidos ao puramente bestial (sem querer ofender nossos irmão da floresta), eis o que nos "redime" da mera luta frenética e fornicação crônica/"maquinal".
Há uma voz gritando que a vida só se torna viável em algum tipo continuo de estupor alcoólico, artístico, religioso, filosófico, científico, "amoroso" e outros tantos e infindáveis...
Não se pode viver com a verdade. Eis a essência in-substanci-all!

sexta-feira, 28 de maio de 2010

RECEBO!

RECEBO!
Miguel Garcia
Meu coment sobre o Post: Lady Gaga se sente mais espiritual e ligada à Deus - Blog - Apologética com humor - Genizah


Po cara, RECEBO! A unção dessa dona aí!

Ao contrário da maioria "evangélica", penso que quanto mais humano se é, mas espiritu-ALL a pessoa se torna. Penso tb que o entretenimento que essa senhora propõe, é bem mais honesto do que o que observo na proposta "religiosa" que está aí (ao menos não se justifica num livro sagrado e em nome de Deus)... Penso ainda que a unção do animal que caga, ou Gaga, seja muito mais real, humana, verdadeira e proveitosa que aquela propagandeada e vendida pelos gurus da igreja "protestante", "católica" e outras (sejam estes últimos "pensadores"/masturbadores livrescos ou analfas-de-Jès-uso - experimentalistas enfatigáveis)...
Enfim, por vezes penso que o melhor seja comer chocolates, apesar do que hoje sei, apesar do papel de prata - que é de folha de estanho, apesar de tudo..:

"(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
vida.)" Pessoa - Álvaro de Campos

Visite o Blog Apologética com humor - Genizah:
http://www.genizahvirtual.com/2010/05/lady-gaga-se-sente-mais-espiritual-e.html

quarta-feira, 26 de maio de 2010

É a-coberta-dor falar mal de sim mesmo, quando se sabe como - edredônico!

É a-coberta-dor falar mal de sim mesmo, quando se sabe como - edredônico!
Miguel Garcia

A vida - a realidade a respeito do universo e das criaturas é tão ab-surda e insuportável que se alguém der o mínimo motivo a outrem, cairá sobre esse infeliz, como que uma "mal-dição", em psicologia chamada de transferência odienta - é quando a pessoa/objeto-transferencial passa a simbolizar para quem fetichiza, tudo aquilo que ameaça o "bom" andamento da vida e do bem no universo. A essa altura é bem possível que eu já esteja con-fu(n)di(n)do com a causa única de todos os terrores dispersos pelo planeta – salão de condenação. Ilhado aqui e sem possibilidade de exorcizar de mim esse essa maldição... Só me resta gemer e ranger os dentes em pa-Lavras - torcer para não virar alvo de algum mimetismo violento – ser transformado em bode expiatório de tudo que frustra as pessoas ao meu redor.. Isso sim é angu-s-ti-ante..
Pensando nisso lembrei-me de Jesus: nem Ele próprio escapou... A coisa evolui rapidamente de Hosanas nas alturas (honras e glórias ao herói da cultura), à crucifica-o no lugar de ladrões e estupra-dores-alheias, pois afinal de contas, ladrões podem milagrar dinheiro e assim, serem benção na vida de alguém e estupradores, na pior das hipoteses, além de exibirem potência e virilidade em seus ofí-cios - o que heroi-fica-os às pulsões das bestas feras, concretizam fantasias secretas de mas-turba-dores.

"Não" dá pra ser feliz!

"Não": dá pra ser feliz!
Miguel Garcia

...” Um homem se humilha/Se castram seu sonho/Seu sonho é sua vida/E vida é trabalho.../E sem o seu trabalho/O homem não tem honra/E sem a sua honra/Se morre, se mata.../Não dá prá ser feliz/Não dá prá ser feliz...” Gonzaguinha

Em Becker compreendi que dom criativo é meramente a permissão social para ser obcecado. Compreendi também que o que chamamos de rotina cultural é uma licença parecida: o proletariado exige a obsessão do trabalho afim de evitar enlouquecer. É realmente admirável as pessoas serem capazes de agüentar as atividades demoníacas de trabalhar por trás de infernais fogões das cozinhas de hotéis, os frenéticos rodopios de quem tem que atender uma dúzia de mesas ao mesmo tempo em bares e restaurantes, a loucura de uma agência de viagens no auge da temporada de turismo ou a tortura de operar uma perfuratriz pneumática o dia inteiro no calor do verão. Admirável poder incluir nessa lista a agitação febril e na maioria das vezes estéril das atividades igrejeiras - escritórios catacumbicos assombrados por criaturas que se auto-tapeiam imaginando-se desprovidas de função excretora - animalidade. E concluir que a loucura dessas atividades é exatamente a da condição humana, que a loucura diária desses empregos é uma vacinação repetida contra a loucura do hospício. E pensar na alegria e expectativa ansiosa com que os trabalhadores retornam das férias para suas rotinas compulsivas, isso quando tiram férias. Considerar que os tais se atiram ao trabalho com serenidade e despreocupação porque ele (o trabalho) abafa algo mais ominoso: que os homens tenham de ser protegidos da realidade. Em Becker deparei-me com um problema gigantesco para um requintado marxismo:

“Qual é a natureza das obsessivas negações da realidade que uma sociedade utópica fornecerá para impedir que os homens enlouqueçam?”


Vassum Crisso!

Divina fonte!


Ave Dona Edite! Bendita sois vós dentre as mulheres! Foi uma longa jornada: você teve de abandonar a "segurança" conhecida.. convencional de sua vida e assumir o risco. Teve de se transformar de filha em mãe. É uma grande mudança, que envolveu muitos riscos. E quando retornou da jornada, trouxe crianças, trouxe alguma coisa ao mundo. Não apenas isso - você arranjou trabalho para o resto da vida, sou gratoooo!!!! Saudade(s)... Reverências

domingo, 16 de maio de 2010

Artísta manqué!

Artísta manqué!
Miguel Garcia

Hipersensível e, por conseguinte, particularmente sujeito a abocanhar mais do que pode mastigar e digerir, arcando com as inevitáveis conseqüências. Falta-lhe a capacidade compartilhada pelos indivíduos “bem ajustados”, de “parcialização” da experiência. Você habita “nos domínios do demasiado”, nutre uma “visão hiperbólica” da realidade: seu artísta, seu manco - manqué!

terça-feira, 11 de maio de 2010

Razões que difi-cult-am con-vivências

Razões que difi-cult-am con-vivências
Miguel Garcia

Sofri silen-cio-s-a-mente durante anos, por não entender bulhufas do que a-con-tecia por trás das pulsões e atitudes do ani-mal humano (de mim mesmo e dos demais). Minha angustia atual é a do bicho que ergueu demais o focinho, enxergou fora de seu quadrado e atrapalhou-se complet-a-mente.
O histórico evolutivo das criaturas não abre espaço para ilusões e fantasias. Li em algum lugar que a sociedade moderna é só um pontinho na tela da evolução do bicho homem. Centenas de milhares de anos deram aos homens e mulheres de hoje uma estrutura cerebral que é a causa de quase todos os desentendimentos e problemas relacionais. Homens se definem de acordo com seu trabalho e realizações, mulheres pela qualidade de seus relacionamentos e, para complicar ainda mais esse jogo por vezes ab-surdo, uma grande parcela das criaturas possuem um cérebro estruturado ou para um pensamento predominantemente masculino, ou para um pensamento eminentemente feminino, sendo que só uma minoria usufrui de um pensar compatível com ambos os sexos, demonstrando uma flexibilidade vantajosa para a solução de problemas. E para que o dilema não cesse por aí:

“não foram só os homens que aceitaram a versão patriarcal da realidade. As mulheres também foram ensinadas a identificar os valores masculinos em detrimento do lado feminino da vida, daí porque muitas delas passam a vida com constante sentimento de inferioridade por achar que o feminino é a segunda melhor opção. As mulheres foram educadas para considerar que apenas as atividades masculinas, raciocínio, poder e sucesso, têm valor real; e assim, a mulher ocidental acaba vendo-se no dilema psicológico do homem: desenvolve um domínio unilateral e competitivo das características masculinas, em detrimento do seu lado feminino.” R. A.Johnson

O macho da espécie humana por vezes sente-se fraco e atemorizado, aterrorizado nas expressões de Otto Ranck, mas sua estrutura geralmente o impede de demonstrar medo, ou seja, a evolução deixou marcas profundas, fez bem seu trabalho, por exemplo: os machos não se desculpam, por que para a maioria deles (homens), se desculpar seria reconhecer um erro e estar errado é fracassar, coisa que sua programação estrutural muito rar-a-mente permite. Deve-se pisar em ovos ao interagir com machos da espécie humana - zelar por falar-lhes, se for esse o caso, valendo-se de uma estrutura de linguagem adequad-a-mente masculina (a maioria pensa que "ser homem" basta), ter  o cuidado de não dar a impressão de que estão errados quanto a algum assunto ou questão, jamais, sob pena de sofrer consequencias desastrosas - falar-lhes algo estruturado em linguagem feminina fará com que ponham em ação suas defesas. Homens detestam críticas e facilmente con-fundirão diálogo (reflexão conjunta, observação cooperativa da experiência, fertilização de idéias), com discussão/debate  - em que os participantes defendem posições, argumentam, para chegarem a conclusões e acordos. Com essas feras testosteronizadas nem lida gentil garantirá bons resultados. Tendem a levar tudo para o lado pessoal e não são capazes de entender que o objetivo de uma interação verbal não é provar que alguém está errado, mas simplesmente oferecer novos pontos de vista para aumento da percepção conjunta.
Não há solução fácil. Os caras ("machões" ou mesmo "mulheres" em cargos de lid-erança) raramente dão ouvidos, raramente saem de trás do automatismo maquinal. Sentem-se mais propensos a fragmentar que integrar. Não ouvem e pronto. Quando alguém lhes fala, em vez de escutarem até o fim o que a pessoa tem a dizer, logo começam a comparar o que está sendo dito com suas idéias e referências prévias. Vivem submersos num quase total automatismo concordo-discordo – um tipo complexo de negação da morte – protegidos do real, escudados pela mentira vital: caráter, funciona assim:
Se você for inocente ou suicida demais para expressar pontos de vista (vista de um ponto) a uma dessas "divindades potentes", verá que a maioria das lideranças assume basic-a-mente duas atitudes: a) “já sei o que esse aí vai dizer e concordo; portanto, não vou perder tempo continuando a ouvi-lo”; b) “já sei o que ele vai dizer e discordo; assim não tenho porque ouvi-lo até o fim”. Em ambos os casos o resultado será o mesmo: será negada a você a capacidade o a possibilidade de dizer algo de “novo” – o que na prática pode corresponder à negação de sua própria pessoa, o que é muito complicado uma vez que, segundo Einstein, um problema não pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou. Daí para frente tudo será rodopio insano e mimetismo violento: sacrifício de vítimas inocentes para aplacar terrores inconfessos. Oxalá “minha tese” seja apenas fruto de má digestão: castigo para quem tem “olho" maior que a "barriga”!

sábado, 8 de maio de 2010

Êxodo em perspectiva: alguma coisa não cheirava bem nessa história...

Êxodo em perspectiva: alguma coisa não cheirava bem nessa história...
Por Miguel Garcia

A crescente consciência de que a Bíblia tenha si tornado, nas diversas interpretações e traduções, um dos pilares na construção a na interpretação da história, deixa um sujeito como eu, maravilhado e devastado como um sobrevivente de tsunami.
Assim se faz quando pensamos em Êxodo no contexto latino-americano, quase que automaticamente o associamos a projetos de libertação, a utopias que se descortinam no horizonte da caminhada dos povos.
Infelizmente o Êxodo não representa só libertação de um povo, como sempre foi conveniente aos exploradores fundamentalistas e outros afirmarem, Êxodo também significou e ainda significa o domínio de outros – escravização e violência. Se israelitas se libertam, cananitas tem suas terras invadidas. Imprescindível pensar em como os transfundos históricos de uma “verdadeira” e “correta” interpretação dos textos foram recebidos e traduzidos para a realidade social e para o imaginário religioso das pessoas, assinala o Antonio Magalhães, autor do livro: Deus no espelho das palavras.
O sentido da história na América Latina tem uma experiência, no mínimo ambígua com o texto do Êxodo. Conforme diz Magalhães, se a segunda experiência foi marcada por uma associação do evento e do texto do Êxodo com idéias libertárias, a primeira foi determinada pela idéia de expansão e conquista. Como explicar a expansão dos povos ibéricos nos séculos XV e XVI, sua criminosa exploração do ser humano e da natureza, sem que se considere subjacente mesmo aos fatores econômicos, a consciência messiânica de envio e expansão presente no imaginário ocidental por meio do paradigma do êxodo?
Eis o poder das tradições religiosas, poder de contribuir direta ou indiretamente para a formação de um imaginário que tem na expansão e na conquista uma de suas mais importantes bases.
Poder afirmar que tanto a idéia do monoteísmo judaico quanto a do cristão têm no êxodo um paradigma incontornável, independente de seu estágio, se isso se refere ao vulcânico e ciumento Javé, se ao Deus tribal atento ou ainda ao misericordioso e universal Pai de Jesus Cristo, independente se a idéia brota de adeptos de igrejas históricas mais antigas ou das mais recentes como pentec-os-tais, neo-pentec-os-tais e ou os que se apóiam numa mais leitura existencialista da Escritura é ação que faz a cabeça rodopiar. Em todos os estágios da fé que se consolida em torno do pensamento cartesiano sobre o Êxodo, há uma forma de pensar que se cristaliza pelo ir, conquistar e expandir. A essa categoria de pensamento subjaz a ocupação da terra por parte dos “israelitas” de ontem e de hoje em dia.

Paulo, Paulo: por que tu me persegues?

Não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só..." Será?... “Vocês são de fato a descendência de Abraão e herdeiros conforme a promessa”, será?!

De acordo com o Magalhães, vê-se um êxodo espiritual que vai sendo construído dentro do Novo Testamento, aguçado pelo afã de Paulo.
Logo eu que cri de pronto na mensagem “libertadora”, por vezes me pego um típico cananita: meus espaços conquistados, meu ser con-vertido, minhas memórias apagadas, minhas histórias trans-de-formadas...
Eis que um novo êxodo a-con-teceu nas Américas, para tanto “foi preciso”: anunciar uma fé, propagar o “evangélio”, ocupar terras, desapropriar famílias, concreta e subjetivamente, apagar memórias, e mortificar experiências (na nova economia não há espaço ou interesse para nenhuma outra).
E quanto a mim, e quanto a nós “índios”, lá do nosso lado do “rio”, com nossa cabana modesta, nossa horta pequena e a plantação de tulipas, “vimos” maravilhados a chegada da Igreja Ibérica e afins assumindo o papel de povo messiânico, mensageiro exclusivo de Deus e arauto do vaticínio divino para a história dos povos... Pobre de mim, de nós: convertemos-nos em não nós mesmos (alienígenas). A outra opção seria nos amontoarmos aos escombros da história fazendo crescer o contingente de existências desapropriadas do próprio fôlego de vida e ocupados por vermes que comem defuntos, de resto ofertamos absolutamente tudo...
Quem diria: “uma idéia aparentemente tão pequena, no meio de um povo, como Israel, aparentemente tão insignificante, tomou corpo, construiu um paradigma de toda uma civilização, passando primeiramente pelo povo de Israel e sendo assumido como um novo sentido pela Igreja. O Êxodo, uma construção literária, ser um dos pilares da compreensão de história no Ocidente...” vir me atingir aqui, atingir-nos como uma onda de "catástrofes" ecoando até os dias atu-ais.