sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Já que não durmo a algum tempo...

Já que não durmo a algum tempo...
Já que as dádivas de Hipnos não me têm alcançado, já que a tranquilidade, a paz e silêncio não visitam minhas moradas a algum tempo, nem rio de esquecimento algum, ou murmúrio de águas límpidas que ajudam os homens a adormecer - nem bela cama, cercada por cortinas pretas, onde feito uma divindade grega eu possa sucumbir ao cansaço, sem que alguma angústia ou incômodo corporal me devolva ao cerne de tudo...
Há muito não me vejo trajando peças douradas, ou tons prateados. Há muito não sou surpreendido pelo jovem nu dotado de asas, tocando flauta e acenando para mim do espelho. Nada de um eu adormecido em leito de penas com cortinas negras à volta, nada de chifres contendo ópio, um talo de papoula, um ramo gotejando água do rio Lete ("Esquecimento"), nada de tocha invertida, repouso ou me perder de mim, nada. É aí que cesso de fugir e sigo ao encontro de Heidegger, Montaigne, Spinoza, Freud, Nietzsche, André Comte-Sponville e outras grandes almas... Vassum Crisso! Miguel Garcia

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Diga como é seu Deus, eu digo em quem você vota.
Se seu Deus é um Pai proibitivo, que cria tudo e oferece imensa quantidade de possibilidades à disposição do desejo humano para depois proibir; o todo-poderoso vigilante como juiz castigador, invocado para justificar guerras e negação da legitimidade humana e liberdade religiosa,
Se seu Deus é aquele que não cessa de exigir sofrimentos para expiar maus-entendidos e indolência humana, mais do que duplicidade e maldade, propriamente ditas, vulgo: “nossos erros”,
Se seu Deus é aquele que, para auto-satisfazer-se, vitimou um justo e inocente (o próprio filho), o que se desdobrou na perdurada expiação ritual da celebração eucarística e numa “vida cristã” se desenrolando sob o signo de uma dívida jamais extinta,
Se seu Deus é implacável e perigoso, cuja força religiosa se une à política para manter seu intento,
Se seu Deus inspira e mantém a religião do medo, vivida no âmbito da utilidade (pagou levou), o que na prática funciona com base num contrato de troca subentendida por uma crença no valor mágico dos ritos - rito por rito, sacerdote como um ser sagrado ou mágico,
Se seu Deus é um meio para um determinado fim e, se Jesus é visto pela ótica da dor e não pela da instauração da justiça, da misericórdia e da solidariedade entre as pessoas,
Se de seu ponto de “vista”, o sofrimento do Cristo na cruz serve para justificar o sofrimento imposto, a submissão às autoridades, a legitimação dos sacrifícios humanos e, no caso de desobediência, protesto ou rebeldia, a culpabilização (das vítimas, no caso),
Se seu Deus é um ser que você deve agradar para que não seja terrível ou lhe abandone, um ser poderoso que ajeita sua vida, desde de que você seja capaz e merecedor de receber auxílio por conta se suas atitudes “moralistas e perfeccionistas”,
Se seu Deus é seu eu idealizado, um refúgio narcisista, um subterfúgio para não colidir com a “realidade”, se seu Deus é um tipo de reação diante da natureza, da relação difícil com a natureza (catástrofes, doenças, envelhecimento e morte), com os outros, com causas constantes de frustrações, com a sociedade na luta entre liberdade e prazer e os grandes sofrimentos psíquicos, se seu culto é a esse Pai providente e mais poderoso do que nossos pais da infância, se sua busca é por segurança e proteção diante dos terrores da natureza para contrabalançar as dores e privações, fatalidade do destino e da morte com o “futuro paraíso do além”,
Se você ainda não conseguiu vivenciar uma espiritualidade adulta por meio da fé, se sua relação com a divindade acontece entre um filho com um Pai que sabe e pode tudo, um complemento de suas carências e necessidades, verdadeiro obstáculo ao crescimento ao encontro autêntico com o Deus de Jesus,
Se seu Deus é seu eu onipotente e narcísico, que devora a divindade e suprime a alteridade - Deus deglutido e confundido com o eu fanático,
Se você confunde a divindade com seus próprios desejos e a imagina indo e vindo em sua direção a fim de lhe dar ânimo, para guiar seus passos e iluminar nas situações difíceis, perplexas e desalentadoras,
Se seu Deus é um mago da onipotência infantil (Gênio da lâmpada) de quem você pretende arrancar favores à força de rogos, súplicas e promessas, se seu Deus é implacável e perigoso (misógino, racista, homofônico e machista), cuja potência religiosa se une à política para manter intentos soberanos, acho cabível crer que seu voto seja do Bolsonaro.
Vassum Crisso - MG - Referências: P. R, Gomes, Queiruga, Moltmann, Sobrino

segunda-feira, 26 de março de 2018

GREG NEWS com Gregório Duvivier | A VERDADE SOBRE DIREITOS HUMANOS

Vida e-Terna



Vida e-terna é quando se vive no poder do amor, do serviço, do sacrifício e da verdade. O que é o algoz frente ao imortal? MG - Vassum Crisso

Cala-te!

Cala-te!
Se a noite cai e não te acalma,
Se as últimas luzes desaparecem no horizonte sem levar tuas preocupações,
Se o silêncio te mortifica; soterra e repousa sobre teus segredos, cala-te. 
Não penses mais, espera. 
Recusa a escolha entre uma palavra sábia e uma palavra louca. 
Espera que a razão retorne. 
Espera que o bom senso reorganize os fatos: cala-te. Vassum Crisso

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Seita ou religião? Sectário ou religioso? Entenda como distinguir!
Uma seita é esse algo que nossas democracias e nossas organizações políticas não podem mais propor, mas do que conservam a nostalgia: um mestre. O “buscador na seita está ávido por um mestre, um guru mistagogo e ou psicológico, um senhor/patrão, guia - seu Führer, em alemão. O adepto da seita procura alguém com o poder de livrá-lo da dúvida, da escolha, responsabilidade - que o alivie da existência - de ter de ocupar o lugar do adulto. O adepto sectário tem apenas que seguir o doutrinador e obedecê-lo. Terminado o livre arbítrio ele tem apenas que se referir inteiramente e plenamente aos mandamentos prescritores. O seguidor da seita deve, tão somente, percorrer os diferentes programas propostos: visitar grandes e suntuosos templos, mergulhar em rituais, cerimoniais e tradições. Feito isto, sentir-se-á imerso no caráter imperioso, imperativo, obrigatório, sem falha possível do que é, absorto na trama fundamentalista que lhe servirá como vacina contra o enlouquecimento do hospício - como tantas outras formas de negação do inevitável da condição animal humana. 

Sintetizando: seita é uma organização não fundada em na crença ou em fé. Seitas apelam a uma dimensão psíquica, a da convicção, que é algo totalmente diferente da crença. A crença supõe um engajamento num ato de fé, ao passo que na seita se trata de certeza. Na seita a pessoa está ali antecipadamente garantida de seu ganho, levando em conta sua aposta, será máximo, perfeito. Promete-se um gordo ganho em todas as jogadas. Uma seita é algo de modo algum identificável a uma verdadeira religião. O Charles Melman explica essa gritante diferença em seita e religião de um modo incrível:

”As religiões oriundas do monoteísmo são organizadas em torno de uma figura paterna que, de cara, concede a remissão dos pecados, de cara sabe que você está em infração com a Lei, de cara reconhece em você essa divisão, esse lado imperfeito próprio a todo crente, a todo fiel, inclusive àquele que se acreditava o mais puro: É então, evidentemente, uma religião de amor que acolhe essa imperfeição. Na seita, geralmente, não é esse o caso. As seitas realizam a religião “Plus”, poderíamos dizer, há um bônus que faz toda a diferença”.
Diz o Melman que outro traço que distingue as organizações sectárias das organizações religiosas, em geral, é que o fundador de uma seita é eminentemente encarnado, eminentemente presente no campo da realidade. A vida do grupo funciona através do que são o saber e a autoridade dele, o que segundo Melman, retoma uma distinção muito sutil feita por Lacan a propósito dos mecanismos da psicose, crê-se nesse fundador. Não é que se creia ali, crê-se nele como tal. Vassum Crisso - MG

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

In-tuição

In-tuição

Ardia com chama intensa. Qual Nêmesis, deflagrava vingança ao exibir linhas corporais torturantes e um cegante raio de sol no sorriso. Já não reprimia o complexo de castração. Vassum Crisso - MG

Face é caixa de Pandora!

Face é caixa de Pandora!
Aberto, deixa escapar malefícios e sortilégios que se instalam nas almas humanas. Remexido, tende a revelar uma "esperança": nenhuma soma de invejas, despeitos, vinganças, obsessões e vícios pode nos fazer inteiramente desgraçados. MG

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Se Deus fosse "religioso fundamentalista"...



Se Deus fosse "religioso fundamentalista"...
Certamente Seu "amar" não seria condição básica e cotidiana, o que define uma rela-ação amorosa propriamente dita, talvez fosse mais como um fenômeno eventual - coisa rara e restrita e eu prefiro amor presente (Emanuel) - a primeira vista - amor arroz de festa. Se Deus fosse "religioso fundamentalista", a sublime essência não seria necessariamente semelhante nem aproximada da aceitação incondicional do outro, haveriam exigências, expectativas e recompensas proporcionais. Se a Causa Primordi-All do universo fosse "religiosa fundamentalista" não veria Graça em ocupar-se do bem estar da criatura e do meio ambiente, seria mais como um oráculo impessoal que oferece instruções de como e quais tarefas realizar, e não de como respeitar espaços e legitimidades, culminando na plenitude dos seres. Se Deus fosse religioso fundamentalista é óbvio que eu seria um ateu, mas não para mer-a-mente afrontar ou blasfemar do "todo-poderoso ente sagrado", mas porque crer seria triste, e descrer mais bonito. Vassum Crisso - MG

"Peno", logo, existo.

"Peno", logo, existo.
É "fácil" ter um nome, uma aparência, tornar-se um meio de produção qualquer, sucumbir a uma ordem imaginada, ter um perfil nas redes sociais, bens de consumo e socializar com "iguais", existir não. Existir exige consciência, a consciência o duvidar, o duvidar lidar com a dor, e essa dor impavidez. Só o consciente e destemido exerce vontade, um escravo, não. Só o consciente aceita "penar" à margem do rebanho - ser si mesmo - exist-ir... Sorry, Kierkegaard! Vassum Crisso - MG

Os gênios, psicanalítico e o religioso, sabem de velho, o que fizemos nos verões passados e presentes.

Os gênios, psicanalítico e o religioso, sabem de velho, o que fizemos nos verões passados e presentes.
(Por que tanto se perambula por aqui?)
Num resumo, tudo de doloroso e sensato a cerca de nós animais humanos, gira em torno do pavor de admitirmos o que estamos fazendo para conquistar nossa própria estima. Por conta disso, segundo Becker, o heroísmo humano é um impulso cego que nos consome a todos (sente-se de saco cheio, por vezes?); Becker revela que, heroísmo em pessoas exaltadas (supostamente dotadas com dons característicos), opera como que num grito invocando glória, tão pouco exigente e reflexivo quanto o uivo de um cão e, que nas massas mais passivas de homens "medíocres", esse mesmo impulso se disfarça, enquanto essas pessoas "humildes" lamuriosamente seguem nos papéis programados - funções pré-determinadas que a sociedade fornece, tentando alcançar promoções dentro do sistema: usando uniformes padronizados - mas permitindo-se sobressair, sempre muito pouco e com muita segurança, com uma fitinha ou botton vermelho de condecoração, mas não de cara e peito abertos.
Os gênios, psicanalítico e o religioso, sabem de velho, o que fizemos nos verões passados e presentes.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Poema Dermato-lógico

Poema Dermato-lógico Miguel Garcia
É tudo questão de pele - membrana - superfícies tangíveis ou não.
Tudo questão de epiderme ou camada externa das coisas - do couro.
É questão de película ou casca do que se produz - coriácea de todos, de tudo.
Tudo questão de cortar na pele de alguém, dizer mal desse alguém - despir sua pele.
É tudo questão de rejuvenescer se for capaz; regenerar-se.
Tudo questão de mudar a pele, despir da pele, não caber na pele - ser gordo demais.
Tudo questão de envaidecer-se, de arrepiar a pele por medo da frieza alheia - ser da pele de Judas.
Tudo questão de ser travesso, ruim, traquinas; ser da raça diabólica, questão de ter mau gênio - questões dermáticas.
Tudo questão de livra-se da pele, desvestir a pele.
Tudo questão de passar de mão em mão - viver em pelo.
Questão de gostar demais, de ver pelada e transdérmica.
Questão do que envolve vertebrados ou não, questão de auto-proteção, de estímulos dolorosos, táteis, tudo questão da epiderme de tudo - face de tudo; cútis de tudo, tez da vez, tudo questão de flacidez, pelanca.
Tudo questão de agasalho ou guarnição do vestuário.
Tudo questão de porções nervosas e carnes comestíveis.
Tudo questão do que cobre e recobre.
Tudo questão de cédula; pelega, membrana. Tudo questão de ser alvo do escárnio ou mofa de outros - questão do nervo exposto e acordar em pele Crística. Vassum Crisso -