quinta-feira, 15 de julho de 2010

Em que nível de ilusão você vive?

Em que nível de ilusão você vive?
Miguel Garcia

Com a verdade ninguém pode viver. A vida carece de ilusões: internas, externas, tudo o que o auto-engano-intrapsíquico, a arte, a religião, a filosofia, a ciência e o “amor” puderem prover. O sentimento de que estão no comando de si mesmas e que são comandadas por poderes confiáveis, nutre as pessoas. Quanto mais um homem pode aceitar a “realidade” como verdadeira, a aparência como essência, tanto mais “sadio”, mais “bem” ajustado, mais “feliz” ele será... este processo constantemente eficaz de auto-tapeação, fingimento e tropeções é chamado de discernimento paradoxal, pelo genial Otto Ranck. Para Ranck, normalidade e saúde é inteiramente um problema de valor relativo. O neurótico opta por sair da vida por estar tendo dificuldade para manter suas ilusões atinentes a esta, o que prova exatamente que a vida só é possível com ilusões. O projeto cultural pesa de falsidade e auto-embromação, contudo, o mesmo se faz vital assim como é, faz-se o segundo mundo da humanidade – um mundo de significado humanamente criado, faz-se uma nova realidade em que as pessoas possam viver, dramatizar e nutrir-se dela. Ilusão cultural é o mesmo que ideologia indispensável de auto-justificativa - a vida do animal simbólico (que representa a si para si de alguma maneira complexa). Becker sustenta que perder a segurança da ilusão cultural heróica é morrer. É como desaculturar primitivos habitantes de uma terra recém descoberta por exploradores: a “vida” que sobra para esses “cananitas” desaculturados só se torna viável em um contínuo estupor alcoólico. É como um eclipse de sistemas heróicos tradicionais, liquida, mata e ponto final. Em que nível de ilusão você vive?

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