terça-feira, 20 de julho de 2010

Para-béns aos psicólogos, sociólogos e teólogos, loucos?

Para-béns aos psicólogos, sociólogos e teólogos, loucos?
(A loucura não vos negará elogios, jamais!)
Por Miguel Garcia

(...) O apuro do homem moderno é ser um pecador sem nome para isso ou, pior ainda, que procura o nome para isso num dicionário de psicologia e destarte somente agrava o problema de seu sentimento de separação e hiperconsciência. (...) O neurótico de hoje está despojado da visão de mundo simbólica, da ideologia de Deus que daria um sentido à sua própria desvalia e a traduziria como heroísmo. A religião tradicional converteu a consciência do pecado em uma condição para a salvação; mas a sensação torturada de nada ser do neurótico qualifica-o agora, unicamente, para uma desgraçada extinção, para uma misericordiosa libertação pela morte. Está certo de ser nada perante Deus, único a poder agir certo por seus próprios caminhos desconhecidos; é outra coisa ser-se nada para si próprio, o que é nada. Becker

“Passamos de uma consciência “onipecaminosa”, no campo pessoal, para outra “apecaminosa”, que diminui a responsabilidade pessoal nas ações negativas. O fato de o ser humano se confrontar com outras negatividades, tais como a doença, o envelhecimento, a morte, a falta de sentido ou a falta de sentido ou a injustiça generalizada, não pode obscurecer nossa consciência e nossa responsabilidade a respeito do pecado. O mesmo se pode dizer em relação à ciência. A psicologia ao querer libertar as pessoas das culpabilidades exageradas, geradoras de neuroses, e as ciências sociais, ao contribuírem para nossa compreensão das estruturas sociais, podem diluir ou tornar anônimas as responsabilidades pessoas em relação ao mal e ao sofrimento. Mesmo as teologias que proliferaram no pós- guerra, ao tratarem do pecado na subjetividade e interioridade humana, correm o risco de nos fazer perder a consciência de sua objetivação histórica."  (Trecho do livro de Paulo Roberto Gomes – O Deus Im-potente. (Já o título, a adaptação, a hipocrisia, a doidice e irresponsabil-idade são de minha in-"competência").

Desvendando o que há por trás das relações e não relações soci-ais da igreja

Desvendando o que há por trás das relações e não relações soci-ais da igreja
(Dedicado a antigos e ou atu-ais funcionários de igrejas evangélicas mundo a fora)
Por Miguel Garcia

Nesse artigo trago algumas das brilhantes teses do cientista Humberto Maturana, com o fito de fertilizar novas percepções sobre as relações e não relações de trabalhos em igrejas evangélicas. Considero caro e esclarecedor compartilhar que as relações entre as pessoas que prestam serviços às igrejas evangélicas e seus respectivos patrões/pastores/bispos/apóstolos, não são relações sociais, porque elas se fundam no compromisso de cumprir uma tarefa e, nelas, apesar do que se possa (sentir) idealizar e dizer do contrário, o cumprimento da tarefa é a única coisa que importa.

Na ótica de Maturana, para adotar o compromisso de trabalho é essencial que os participantes sejam pessoas, seres multidimensionais, mas uma vez assumido o compromisso, o fato de os participantes serem pessoas e terem outras dimensões relacionais não tem nenhuma pertinência. Isso se nota quando aquele que aceita o compromisso de trabalhar num determinado ofício da igreja tem alguma dificuldade na sua realização. 


Quando isso ocorre, o patrão (pastor, bispo, apóstolo, etc..) se queixa e diz: “— Não vou lhe pagar, você não atendeu minhas expectativas: falhou, violou regras, não veio, não cumpriu, não lhe pago. — Mas, senhor — balbucia o empregado/”ovelha” (possível membro da igreja/empresa que o bispo ou pastor/chefe lidera) — minha mulher..., meu filho..., minha sogra... — Olha, — replica o pastrão ou seu capataz — as coisas pessoais não entram aqui, a única coisa que importa é a tarefa.”

Ao mesmo tempo o empregado, ainda que tenha sido negado em suas outras dimensões, sabe que num certo sentido o que o patrão/pastor(a) disse é legítimo frente ao acordo de realizar uma tarefa, mas se queixa e se sente injuriado. Maturana desvenda o “mistério” que se instaura aí explicando que nosso problema é que confundimos domínios, porque funcionamos como se todas as relações humanas fossem do mesmo tipo, e não são (confusão que se dá, por vezes, tanto na cabeça do patrão/pastor-homem-de-Deus, como na da ovelha/funcionária-“amado[a]-irmão[a]”. Para Humberto Maturana, as relações humanas que não se baseiam na aceitação do outro como um legítimo outro na convivência não são relações sociais. As relações de trabalho não são relações sociais. O mesmo ocorre com as relações hierárquicas, pois estas se fundam na negação mútua implícita, na exigência de obediência e de concessão de poder que trazem consigo. O poder surge com a obediência, e a obediência constitui o poder como relação de negação mútua. As relações hierárquicas são relações fundadas na supervalorização e na desvalorização que constituem o poder e a obediência e, portanto, não são relações sociais.

Comumente falamos como se o outro detivesse o poder (ex: o anjo da igreja, ungido do Senhor, etc...), mas, na verdade, isso não é assim. Para Maturana o poder não é algo que um ou outro tem, mas sim uma relação na qual se concede algo a alguém através da obediência (transferência?), e a obediência se constitui quando alguém faz algo que não quer fazer cumprindo uma ordem. O que obedece (empregado) nega a si mesmo porque, para evitar ou obter algo, faz o que não quer a pedido do outro (chefe). O que obedece age com raiva, e na raiva nega o outro porque o rejeita e não o aceita como um legítimo outro na convivência. Ao mesmo tempo, o que obedece nega a si mesmo ao obedecer e pensar: “Não quero fazer isto, mas se não obedeço me expulsam ou me castigam, e não quero que me expulsem ou castiguem.” Mas o que manda também nega o outro e nega a si mesmo ao não se encontrar com o outro como um legítimo outro na convivência. Ele nega a si mesmo porque justifica a legitimidade da obediência do outro com sua supervalorização, e nega o outro porque justifica a legitimidade da obediência com a inferioridade do outro.

Para Maturana nós seres humanos não somos o tempo todo seres sociais; somente o somos na dinâmica das relações de aceitação mútua. Sem ações de aceitação mútua não somos sociais. Entretanto, na biologia humana, o social é tão fundamental que aparece o tempo todo e por toda parte.

No instante em que o patrão/pastor (pastrão) escuta um operário ou um empregado eclesial sobre a doença de sua mulher aceitando sua legitimidade, aparece a pessoa que realiza o operário ou empregado e surge uma relação social. Mas o pastrão que escuta não é um bom-pastor-patrão, porque confunde uma relação que devia ser exclusivamente de trabalho com uma relação social. O bom-pastor-patrão é o que cumpre seus compromissos com seus empregados e com as leis ou acordos “comunitários” que regulam os acordos de trabalho. Conforme o pensamento de Maturana: é justamente porque as relações de trabalho não são relações sociais que são necessárias leis que as regulem. No marco das relações sociais não cabem os sistemas legais, porque as relações humanas se dão na aceitação mútua e, portanto, no respeito mútuo.

Os sistemas legais se constituem como mecanismos de coordenação de conduta entre pessoas que não constituem sistemas sociais. Dentro do sistema social opera-se numa congruência de conduta que se vive como espontânea, porque é o resultado da convivência na aceitação mútua. H.M. afirma que se olharmos a história, iremos compreender que os sistemas legais surgem quando as populações humanas se tornam tão grandes que deixam de ser sistemas sociais e se fragmentam em comunidades sociais menores mas independentes, ou dão origem, em seu interior, a comunidades não-sociais que abrem novos espaços de interações fundadas em outras emoções diferentes do amor.

As teses de Maturana nos dizem que os fenômenos sociais têm a ver com a biologia, e que a aceitação do outro não é um fenômeno cultural. Além disso, afirma que o cultural, no social, tem a ver com a delimitação ou restrição da aceitação do outro. É na justificativa racional dos modos de convivência que inventamos discursos ou desenvolvemos argumentos que justificam a negação do outro. Nas palavras do cientista:

“Ensinamos às crianças, desde pequenas, a rejeitar certos tipos de pessoas e animais. Assim, se a mãe vê que seu filho quer brincar com um outro de quem ela não gosta, ela diz: “— Não brinque com esse menino, ele é um maltrapilho.” Isto acontece conosco sem nos darmos conta, porque vivemos numa cultura que faz isso, e temos que refletir para evitá-lo. Os cães dos ricos rosnam para os pobres. Para quem eles rosnam? Para a negação do outro que faz o rico. Estou usando a palavra rico para falar de uma pessoa que nega o outro com medo de perder o que possui. Meu cachorro sabe exatamente quem são meus inimigos. Como sabe? Porque eu os nego na minha dinâmica emocional, ao mover-me nos domínios de ação que ela traz. Se minha emoção é a rejeição, minha conduta é não aceitar o outro como um ser humano legítimo na convivência e, se pertencemos à mesma cultura, ele percebe, ainda que eu queira ocultar-lhe, porque pertencemos ao mesmo domínio de congruência estrutural. Não podemos evitar nossa biologia. E, além disso, para que evitá-la se ela nos constitui? O melhor é conhecê-la.”

E imaginar que a loucura dessas atividades todas é exatamente a da condição humana... Que a loucura diária dos empregos igrejeiros ou não, serve como vacinação repetida contra a loucura do hospício... Imaginar a alegria e expectativa ansiosa com que os funcionários retornam das férias para suas atividades compulsivas – aqueles autorizados a gozar de tais prazeres terrenos... Imaginar tanta gente protegida do real, tanta gente se atirando ao trabalho com serenidade e despreocupação porque ele abafa algo mais ominoso... Imaginar as relações sociais imaginárias nas igrejas... O cômico existencial nas palavras - sermões, atitudes e sobretudo nas omissões constantes, nos gestos e ausência deles... Imaginar tantas promessas vãs, tantos cultos ao heroísmo da pessoa central, tanto fetiche, transferência... Imaginar o tempo desperdiçado, a vida que se esvaiu... Os Cristos negados... Imaginar.. Imaginar... faz emudecer...

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Dia-gnóstico de l-ou-cura

Dia-gnóstico de l-ou-cura
Miguel Garcia

Nosso mundo não é um mundo de amor, mas sim de poder. A igreja como fatia do ambi-ente e amante do poder, não ama pessoas, mas sim ser poderosa. Não faz muito tempo fui chamado de louco por ter comunicado meu amor a uma chefia eclesial. Por certo que essa chefia não queria o meu amor. Por certo preferia escolher quem lhe daria amor e a quem ela daria amor quando quisesse e se quisesse. Por certo que para tal pessoa amor é domínio reservado. Por certo que essa tal liderança teve ter tido razão ao diagnosticar meu caso como loucura: o que nos tornaríamos se nos amássemos todos? O que seria de nós num mundo de amor? O que se tornariam as chefias-avassaladoras da igreja - aqueles que devem suas posições à conquista, ao ódio e ao desprezo dos outros? O que se tornariam os que rondam tais chefias (corte de lambe botas) - os que compraram cargos à custa de presentes e baseiam sua autoridade no temor que ele inspira? Haveria casa-grande-e-senzala, sinhô e sinhá, nhonhô e nhanhá, moleques de brinquedo, mu-camas, amas de infantes e adultos, estupros da inocência e da ingenuidade alheia, capatazes e capitães do mato per-seguindo e infringindo maus tratos e castigos, mimetismo-violento-eclesial, eugenia “sacro-santa”, bodes expiatórios das tensões religiosas cotidianas, pretos e brancos, clérigos e leigos, jovens de idéias virgens usadas para depuração de ideologias importadas e contaminadas,  escravos e livres, aceitos e nega-dos pela igreja? A rejeição e diagnóstico de loucura que vi lançados sobre mim fazem sentido. As chefias eclesiásticas têm motivo de sobra para sentirem medo: o amor seria a destruição do perfil de igreja atu-all e dos privilégios que o mesmo garante. Os patrões da igreja só verão o Reino do amor sobre as cinzas dos seus.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Em que nível de ilusão você vive?

Em que nível de ilusão você vive?
Miguel Garcia

Com a verdade ninguém pode viver. A vida carece de ilusões: internas, externas, tudo o que o auto-engano-intrapsíquico, a arte, a religião, a filosofia, a ciência e o “amor” puderem prover. O sentimento de que estão no comando de si mesmas e que são comandadas por poderes confiáveis, nutre as pessoas. Quanto mais um homem pode aceitar a “realidade” como verdadeira, a aparência como essência, tanto mais “sadio”, mais “bem” ajustado, mais “feliz” ele será... este processo constantemente eficaz de auto-tapeação, fingimento e tropeções é chamado de discernimento paradoxal, pelo genial Otto Ranck. Para Ranck, normalidade e saúde é inteiramente um problema de valor relativo. O neurótico opta por sair da vida por estar tendo dificuldade para manter suas ilusões atinentes a esta, o que prova exatamente que a vida só é possível com ilusões. O projeto cultural pesa de falsidade e auto-embromação, contudo, o mesmo se faz vital assim como é, faz-se o segundo mundo da humanidade – um mundo de significado humanamente criado, faz-se uma nova realidade em que as pessoas possam viver, dramatizar e nutrir-se dela. Ilusão cultural é o mesmo que ideologia indispensável de auto-justificativa - a vida do animal simbólico (que representa a si para si de alguma maneira complexa). Becker sustenta que perder a segurança da ilusão cultural heróica é morrer. É como desaculturar primitivos habitantes de uma terra recém descoberta por exploradores: a “vida” que sobra para esses “cananitas” desaculturados só se torna viável em um contínuo estupor alcoólico. É como um eclipse de sistemas heróicos tradicionais, liquida, mata e ponto final. Em que nível de ilusão você vive?

terça-feira, 13 de julho de 2010

Ainda sobre emoções, inter-ações humanas: sobre amor.

Ainda sobre emoções, inter-ações humanas: sobre amor.
Miguel Garcia

"Com isso todos saberão que vocês são Meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros" (João 13:35).

Eis algumas das desafiadoras percepções de Humberto Maturana sobre emoções, interações humanas e amor:

... “Para que haja história de interações recorrentes, tem que haver uma emoção que constitua as condutas que resultam em interações recorrentes. Se esta emoção não se dá, não há história de interações recorrentes, mas somente encontros casuais e separações. Existem duas emoções pré-verbais que tornam isto possível. São elas: a rejeição e o amor. A rejeição constitui o espaço de condutas que negam o outro como legítimo outro na convivência; o amor constitui o espaço de condutas que aceitam o outro como um legítimo outro na convivência. A rejeição e o amor, no entanto, não são opostos, porque a ausência de um não leva ao outro, e ambos têm como seu oposto a indiferença. Rejeição e amor, no entanto, são opostos em suas conseqüências no âmbito da convivência: a rejeição a nega e o amor a constitui. A rejeição constitui um espaço de interações recorrentes que culmina com a separação. O amor constitui um espaço de interações recorrentes que se amplia e pode estabilizar-se como tal. É por isto que o amor constitui um espaço de interações recorrentes, no qual se abre um espaço de convivência onde podem dar-se as coordenações de conduta de coordenações consensuais de conduta que constituem a linguagem, que funda o humano. E é por isto que o amor é a emoção fundamental na história da linhagem hominídea a que pertencemos.”

Se você também faz o tipo neurótico, vá atrás do custo humano dos trabalhos religiosos, faça a conta ao contrário: some o número de mortos, feridos e abandonados pelo caminho, dos usados e descartados no gélido processo expansionista e conquistador, das pessoas que embora bem intencionadas, foram imoladas no mimetismo violento das igrejas, dos que foram negados e rejeitados simplesmente por não terem o perfil exigido para uma determinada tarefa, , some o número de invejados, separados, demonizados, difamados, apedrejados. Isso tudo emudece, sufoca as emoções, impede in-ter-ações e asfixia o amor.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Reflexões Kunta-Kinte-scas - 1

Reflexões Kunta-Kinte-scas - 1
(Ao César, vitima de grande opressão em BH)
Miguel Garcia

Algumas igrejas mentem. Precisam metamorfosear todas as coisas em mistérios insondáveis – tão so-mente decifráveis através dos chefes mistagogos que “elas produzem” em série, manobra que lhes vem garantindo domínio sobre fracos de espírito em todo o mundo. É isso que algumas igrejas fazem ao significado de "todas as coisas".
Num esforço de romper com esse enquadramento-escravização, ofereço uma reflexão do importante cientista Humberto Maturana, sobre os significados da linguagem, comunicação e sobre o que nos distingue como humanos, para analizarmos se de fato vivemos e agimos como humanos, para além de férteis imaginações, palavras vazias e neg-ações mort-ais:

O peculiar do humano não está na manipulação, mas na linguagem e no seu entrelaçamento com o emocionar. Mas se a hominização do cérebro primata está relacionada com a linguagem, com que está relacionada a origem da linguagem? Comumente dizemos que a linguagem é um sistema simbólico de comunicação. Eu sustento que tal afirmação nos impede de ver que os símbolos são secundários à linguagem. Se vocês estivessem olhando duas pessoas pela janela, sem ouvir os sons que emitem, o que vocês teriam de observar para dizer que elas estão conversando? Quando se pode dizer que uma pessoa está na linguagem? A resposta é simples, e todos nós a sabemos: dizemos que duas pessoas estão conversando quando vemos que o curso de suas interações se constitui num fluir de coordenações de ações. Se vocês não vêem coordenações de ações ou, segundo o jargão moderno, não vêem comunicação, nunca falarão de linguagem. A linguagem está relacionada com coordenações de ação, mas não com qualquer coordenação de ação, apenas com coordenação de ações consensuais. Mais ainda, a linguagem é um operar em coordenações consensuais de coordenações consensuais de ações.”

sábado, 10 de julho de 2010

O que é o amor?

O que é o amor?

O amor é a emoção que constitui as ações de aceitar o outro como um legítimo outro na convivência. Portanto, amar é abrir um espaço de interações recorrentes com o outro, no qual sua presença é legítima, sem exigências.
O amor não é um fenômeno biológico eventual nem especial, é um fenômeno biológico cotidiano. Mais do que isto, o amor é um fenômeno biológico tão básico e cotidiano no humano, que freqüentemente o negamos culturalmente criando limites na legitimidade da convivência, em função de outras emoções. Assim, por exemplo, toda a dinâmica de criar consciência de guerra, como ocorre quando há uma luta com outro, consiste na negação do amor que dá lugar à indiferença, e, logo, no cultivo da rejeição e do ódio que negam o outro e permitem sua destruição ou levam a ela. Se não se faz isto, a biologia do amor desfaz o inimigo.
Nós os seres humanos inventamos discursos racionais que negam o amor, e assim tornamos possível a negação do outro. Não como algo circunstancial, mas como algo culturalmente legítimo, porque na espontaneidade de nossa biologia estamos basicamente abertos à aceitação do outro como um legítimo outro na convivência. Esta disposição biológica básica é básica em nós, porque é o fundamento de nossa história hominídea.
... Não digo como o Papa “O amor é mais forte”. Digo que a biologia é mais forte. O amor não é uma coisa especial, é cotidiano, e vocês notarão que em todas as situações de crise humana, de crise nas comunidades, de terremotos, de incêndios, de situações extremas, as pessoas se encontram num nível básico humano onde a solidariedade está presente e nem sequer é preciso recomendá-la, ela aparece sozinha. Por quê? Porque o amor nos pertence como característica biológica que constitui o humano.
Notem que a maior parte das enfermidades humanas surgem na negação do amor. Adoecemos se não nos querem, se nos rejeitam, se nos negam ou se nos criticam de uma maneira que nos parece injusta. Podemos até mesmo adoecer de câncer, porque a dinâmica fisiológica tem a ver com a dinâmica emocional. Humberto Maturana

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Ante o olhar do profeta

Ante o olhar do profeta
Miguel Garcia

Por que é que aquilo que faz a felicidade do homem acaba sendo também a fonte de suas desgraças? Goethe

Exibiam um sonho, um propósito, uma utilidade para todas as coisas e pessoas, pessoas que, por essa dinâmica, eram também coisificadas e de certo modo negadas em sua singularidade e existência. Qual fantasmas torturados, pairavam atravessando realidades sem relação concreta com as mesmas, de tanto que eram a-traídos para a "luz" do que avidamente desejavam. Vendo mais longe do que todos, eram sufi-ciente-mente astutos e poderosos para dirigir as faculdades e paixões alheias no sentido da realização dos seus planos. Assim que conquistaram condição mais elevada, tornaram patente uma fria reserva para com os "comuns", só pelo temor de se diminuírem com alguma forma de aproximação. Além disso, agiram imprudentemente fingindo condescendência para melhor ferirem com arrogância, àqueles que espelhavam o perfil que outrora haviam experenciado amarga-mente. Julgavam necessário manter distância dos pobres e incultos, para se fazerem respeitar.
Eles ansiavam por fama, antecipavam-na, esperavam, graças a ela, poderem criar imortalidade própria: imortal-idade significaria serem amados por muitas pessoas anônimas. Eles suspiravam por multidões e apenas por elas, jamais por indivíduos, esses últimos eram sempre um constrangimento a ser evitado. Eles desejavam viver na estima de turbas anônimas e de homens não nascidos, em obras pelas quais tivessem contribuído para a vida e seu aperfeiçoamento, segundo o que imaginavam ser importante. Enamoravam-se de uma imortalidade inteira-mente desde mundo, o que podia ser confirmado em suas produções comerciais e pronunciamentos públicos. Havia certa oscilação entre o desejo que nutriam por imortalidade e o escárnio por ela, o que se fazia notar em constantes ataques à idéia de um mundo finito perfeito - sonho da razão mítica inicial do paraíso - mito final da sociedade magistral (fé que passo longe de abrigar), era como um ato falho e refletor de hábitos infelizes e arraigados neles, ou ainda uma forma mágica de brincar com a realidade: já que temiam que a vida aqui não tivesse qualquer importância, que não tivesse qualquer sentido real, procuravam aliviar a ansiedade zombando especialmente daquilo que mais desejavam, ao mesmo passo que, por baixo de suas escrivaninhas, conservavam os dedos fazendo figas, era assim que agiam ante o olhar do profeta.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sobre significados da vida e de ab-surdos não abso-lutos

Sobre significados da vida e de ab-surdos não abso-lutos
Por Miguel Garcia

Observando o incrível número de catástrofes ocorridas recentemente ao redor do mundo e mesmo no Brasil (Nordeste, Sudeste), torna-se fácil perceber que a natureza aparenta ser despreocupada, ou até mesmo “maldosamente” contrária aos significados humanos. Queremos saber se a vida faz sentido ou se vivemos em meio a um completo absurdo, daí a luta de procurar trazer significados próprios e dignos de confiança para o mundo, entretanto, nossos significados dão ares de serem muito frágeis - efêmeros: estão constantemente sendo desacreditados pelos acontecimentos históricos e calamidades naturais. Um Hitler pode obliterar séculos de significados científicos e religiosos; até mesmo uns Fernandos (Collor e Henrique), quando ins-pirados..., podem protagonizar proezas colossais, desfigurando significados e agravando muito o incômodo social. De qualquer modo, se não ocorrer pelo viés de governos despóticos e opressores, ainda temos terremotos como o que irrompeu sob o Haiti, negando um milhão de vezes o sentido de uma vida pessoal e, é aí que a humanidade esboça reação, procurando no além as garantias para significados humanos. É certo que a comunidade humanal carece de algo superior para justificá-la - de apoio numa qualquer dimensão transcendental e que essa crença deve estar arraigada nas emoções, em um sentimento interior, apoiada em algo Maior, mais Forte, mais Im-port-Ante do que o próprio vigor e a vida criatural. Os melhores esforços que se possa empreender em sentido contrário ao da fé afigurar-se-ão absolutamente falíveis na busca de significado. A pessoa terá de admitir – confessar: “O pulsar de minha vida declina, eu desapareço no esquecimento, mas Deus (ou Ele, ou Isso) permanece, torna-se mesmo mais glorioso com meu sacrifício.”
Eis uma crença - uma das mais eficazes crenças para o indivíduo.

Nossa conden-ação

Nossa conden-ação
Miguel Garcia

Ninguém segura nossos pensamentos.
Ninguém amarra nossas emoções;
elas nos levam longe no uni-verso.
Rompemos tudo, ninguém nos aprisiona.
Cadeia alguma, ou laço, impedirá nossa marcha,
nosso ímpeto - anseio por viver...
Nossa essência está na liberdade:
rompemos barreiras,
superamos interditos,
vertemos para além dos limites.
recusamos o real sufoc-ante.
Somos mais e maiores do que tudo que nos cerca.
Desdobramos todos os esquemas.
Nada nos en-caixa!
Não há repressão eclesiástica
por mais dogmática, que nos possa enquadrar,
sempre sobra alguma coisa.
Não há sistema social,
por mais fechado,
que não revele brechas por onde possamos entrar.
Somos seres de protest-ação.
Somos nós mesmos e amamos,
amamos muito,
‘mais do que o amor pode amar’ e esse amor:

Tem feito coisas
Que até mesmo Deus duvida,
Já curou desenganados,
Já fechou tanta ferida
Fica tão cicatrizado
Que ninguém diz que é colado
Foi assim que fez em mim
Foi assim que fez em nós
Esse amor iluminado (Vitor e Ivan)

Por mais aprisionados que estejamos,
mesmo assim, transcendemos tudo.
Nosso pensamento habita as estrelas,
rompe todos os espaços.
Nossa conden-ação é abrir caminhos
sempre novos e surpreendentes.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Qual o valor de sua presença no mundo?

Qual o valor de sua presença no mundo?
(ins-pirado em Charles Melman)
por Miguel Garcia

No nível do eu, é evidentemente, a validade da presença de cada pessoa no mundo encontra-se discutida, discutível, já que ela só poderia ser verificada enquanto se é capaz de altas performances, quer dizer, enquanto a participação no jogo social ou na atividade econômica se encontra efetivamente reconhecida. Na falta de referência, do referente – seja ele ancestral ou não (amado irmão ou não), pouco importa – que permite afirmar sua validade e sua continuidade no bando, seu tônus, a despeito dos avatares de seu destino social, esse reconhecimento vem, evidentemente, a faltar. Simultaneamente, o sujeito, ou melhor, o eu se vê exposto, frágil, deprimido, porque seu tônus não está agora organizado, garantido por uma espécie de referência fixa, estável, segura, por um nome próprio, tendo necessidade de ser confirmado incessantemente. Os acasos inevitáveis desses percursos fazem com que, muito facilmente, o eu possa ver-se murcho, em queda livre e, portanto, exposto àquilo com o que “todos” lidamos, em maior ou menor grau de intensidade, a freqüência de estados depressivos diversos, ou frustrações perturbadoras.
Qual o valor de sua presença no mundo? Bem, isso irá depender de onde estiver o corpo de suas riquezas, 'aí se ajuntarão as águias'... 

 Oh! Hércules:
conclua seus trabalhos,
vem livrar-nos desse sofrimento!
Soltem "Bar Abbas"!
Quíron:
tome meu lugar no Cáucaso do existir.
L-ou-cura de L-ou-curas,
o número de loucos é infinito. Miguel Garcia

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Bem-vindo ao inferno!

Bem-vindo ao inferno!
Miguel Garcia

O homem moderno é um pecador sem nome para isso ou, ainda pior, que procura um nome para isso num dicionário de Psicologia e destarte somente agrava o problema de seu sentimento de separação e hiperconsciência. Bem-vindo homem psicológico – entregue aos próprios recursos, isolado das ideologias coletivas protetoras: bem vindo ao inferno!
 
Ins-pirado em Beckices e Rankices

sábado, 3 de julho de 2010

Sobre amoros-idade do mundo

Sobre amoros-idade do mundo
(en-saio de um romance)
Miguel Garcia

Não lhe recolheram senão olhares de desprezo. Todos experimentaram essa indiferença insultante que, à semelhança das geadas da primavera, destrói os germes das mais belas esperanças. Todos ao pé dela empalideceram. Algumas mulheres vaidosas são capazes de forjar e seguir um plano macabro durante anos, só para mais tarde satisfazerem delírios e fantasias perversas.
À semelhança das estátuas de aleijadinho, ele permanece “imóvel”, inteira-mente absorvido pelo trabalho de raciocinar. Dentro dele mora um tempo fechado; sem luz demasiadamente viva, nem obscuridade - certa descrença quanto a amoros-idade do mundo.

Retrato falado

Retrato falado
Miguel Garcia


Ele se parece com um vidente dotado de poderes para prever o futuro, sem muito que dizer sobre o aqui e agora. Jamais se dedicou com paixão, a ver, compreender, anunciar e denunciar o que ocorre em seu presente. Jamais se manifestou como se estivesse produzindo editoriais políticos de jornais. Suas preocupações giram em torno ao circulo do sagrado: o cultivo de experiências místicas, das atitudes piedosas e celebrações cerimoniais. Quando simula ataques às práticas religiosas dominantes, o faz estrategicamente, preocupado que está com ameaça imposta pela concorrência. Parece vedado à compreensão de que o sagrado (a vontade de Deus) tem a ver fundamentalmente com justiça e misericórdia, e em sua boca, tais palavras, jamais tiveram um sentido político e social que todos pudessem entender. Assimilar suas falas e textos exige formação filosófica ou teológica. Sua pregação não está colada à situação dos homens e mulheres comuns. Não se faz porta voz dos desgraçados da terra, não exige o fim das práticas de opressão, nem que a vida e a alegria sejam devolvidas aos pobres, aos sofredores, aos fracos, aos estrangeiros, aos órfãos e viúvas, aos que se encontram fora dos círculos de riqueza e poder. Desdenha o fato de que as relações dos homens com Deus têm de passar pelas relações dos homens, uns com os outros. As autoridades, com certeza chegam a amá-lo, uma vez que seus discursos não são contrários aos interesses nacionais. Jamais foi proibido de expressar-se, jamais perseguido ou ameaçado de morte. Jamais lutou contra o poder estatal ou contra representantes da religião oficial. Jamais denunciou os que efetivamente oprimem os fracos, tampouco os que sacralizam e justificam a opressão envolvendo-a na aura da aprovação divina. Em falas e posturas de vida, manteve inaudível a memória do Deus das vítimas.
Tateia na prática de atos soberbos e absurdos. Automático e hipócrita, nega suas quedas constantemente, além de ufanar-se e bravatear que é guia de outros. Vive com terror à reflexos.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Gérmen

Gérmen
Miguel Garcia


Histórias mudam como o vento.
A vida impõe seus mistérios.
Fomos caçadores,
plantadores
e hoje somos sementes –
simbólicas magias do ciclo da vida.
Somos sementes e o viço cessa,
sumimos de esperançar e ressurgir de abismos.
Somos sementes –
revel-ações da Vida e-terna.
Somos sementes
e o existir provém da morte,
beatitudes, de sacrifícios.
Somos sementes,
inertes e abandonadas –
prenhas de promessas.
Vagamos nas asas do tempo,
caímos de alturas,
sobre pedras de aflições,
guardamos um voto lindo...
Calamos de espera...
Somos sementes:
por certo O Jardineiro soprar-nos-á nos lábios, 
um pouco de Sua vida:
somos sementes!