terça-feira, 21 de outubro de 2008

Édipo, Paulo e eu:

Édipo, Paulo e eu:
Miguel Garcia

Miseráveis homens que fomos! Quem nos livrou da lógica mortal do desejo? Da autopunição e suicídio lentos, da cegueira espiritual, do exílio voluntário, da "queda" na noite sem fundo -
purg-ação contínua, da negação do conforto uterino - devaneio sagrado, da lembrança constante de uma culpa impostora, fustigando com açoite, sem carecer da intervenção divina?

Transgressores patológicos que fomos! Quem nos livrou do estigma social, e das sanções de deuses imaginários? Quem nos praguejou com a sina de sermos heróis, membros da aristocracia ou filhos de uma divindade? Nossa vontade se baterá contra qualquer "ordem suprema" que exibir nossos limites, fazendo com que o sofrimento se torne o tortuoso caminho do conhecimento.

Miseráveis vitimas que fomos! auto-poiéticos, sombra-de-sombras, condenados à liberdade maldita ecoando na cabeça, decifradores de enigmas sem prêmio ou consolo algum, obstáculos entre Deus e o resto da humanidade.

Obscuras criaturas que fomos! Quem desvendará nossa identidade?
Um dia defronte da própria consciência que será que diremos?... Digam os sabedores de tudo sem recusas ou resumos: quem somos nós?... Somos aqueles a quem procuramos? Eis o círculo trágico se fechando perfeito, inexorável. Horrorizados vazaremos nossos olhos, lacrando o acesso aos segredos proscritos. Sigam-nos olhares compassivos! enquanto deixamos reinados de clarividência, amor e poder, pois nossos "crimes" exigem "punição" - a punição de sermos nós mesmos.


segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A(b)surdez d(a) Morte

A(b)surdez d(a) morte
(ofertado aos amigos e familhares da menina Eloá)
Miguel Garcia
"É a única coisa que a morte nos ensina: que é urgente amar." (E.E.Schmitt).
Mouca!
Se ao menos um murmúrio brando... rumorejar suave, colhido antes do teu abraço...
Se ao menos um canto anunciasse tua chegada, uma mancha de umidade o teu brotar...
Se algum proveito surdisse dos teus esforços, se não maquinasses às escondidas, movendo-te em marcha silenciosa, impassível...
Se não fosses tão apática e impiedosa, se a ausência de luz não ocultasse o vazio de tua expressão, fitaríamos teus olhos corajosamente.
Se te voltasses reagindo aos gemidos de alguém, tu não serias ab-surda, tão nor-mal, não serias fatal, não serias a morte.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O buraco é mais embaixo!

O Éric Emmanuel Schimitt (autor do livro O Evangelho segundo Pilatos) manda dizer para o Willian P. Young (autor do livro A Cabana) que o buraco é mais embaixo!
Miguel Garcia

William P. Young, autor do bem sucedido livro de ficção A Cabana, falando de seu personagem Mac, que segundo ele teria atingido em um dado momento de sua história de vida, uma espécie de clímax de consciência espiritual e humana, escreveu o seguinte:

(...) de algum modo ele virou criança de novo. Ou, para explicar melhor, ele virou a criança que nunca teve permissão de ser. Uma pessoa confiante e cheia de entusiasmo. Ele consegue acolher até mesmo os tons mais escuros da vida, vendo-os como parte de uma tapeçaria incrivelmente rica e profunda, tecida magistralmente por invisíveis mãos de amor (...)

Já o personagem Yéchoa (Jesus) de Éric Emmanuel Schimitt em seu livro O Evangelho segundo Pilatos, logo de início conta a experiência de ter “sofrido” uma “queda”, o que fornece uma excelente pista sobre o significado do "mito" do “Eden Perdido”. Nas belas falas do "próprio personagem" nós temos:

(...) Crescer foi desmentir. Crescer foi uma queda. Eu só aprendi a condição de adulto pelas feridas, as violências, os compromissos e as desilusões (...).


Depois de ter sofrido um acidente que quase lhe roubou a vida, Yéchoa que até então não imaginava o que seria a morte, num desabafo faz as seguintes declarações:

(...) O universo havia se desencantado. Pois o que é um homem? É simplesmente alguém-que-não-pode... Que-não-pode-saber-tudo. Que-não-pode-fazer-tudo. Que-não-pode-não-morrer(...)

Segundo Yéchoa, o conhecimento de suas limitações havia rachado o ovo da sua infância, a lucidez o havia feito crescer, quer dizer, diminuir. Aos sete anos, ele deixara definitivamente de ser Deus.

Posteriormente quando já aparece adulto no romance de Schimitt, com cerca de 30 anos, Yéchoa, desejando escapar dos falatórios, das influências, percebendo que após tantos anos todo mundo tinha uma opinião sobre seu destino, menos ele, esmagado pelos conselhos, perdido em meio a cem pistas, diagnosticado como muito piedoso por uns ou como ímpio por outros, como diz a narrativa:

“reconhecido, ignorado, pressionado, parado, chamado, retido, adorado, insultado, caçoado, venerado, ouvido, desprezado, interpelado... Eu não era mais um homem, mas um albergue vazio no cruzamento das estradas onde cada um chegava com seu caráter, suas bagagens e suas convicções, só repercutia o barulho dos outros... foi então que resolvi fugir...”

Eis a narrativa do próprio autor, não que não se possa encontrar partes da mesma misturadas às minhas, não me culpo por isso pois a beleza e encanto dos textos de Eric E. S. são absolutamente irresistíveis, veja finalmente porque segundo minha interpretação, em se tratando de Éric E. S. o “buraco” é bem mais embaixo:

(...) eu me embrenhei em terras incultas, lá onde não há mais homens, onde a vegetação é natural, selvagem, pobre, onde os pontos de águas são raros, lá onde não se corre mais o risco de encontros.

No deserto eu só desejava encontrar uma pessoa: eu. Esperava me descobrir no fim daquela solidão. Se eu era mesmo alguém ou alguma coisa, eu mesmo devia aprender.
No inicio, não achei nada. Só experimentava sentimentos impessoais; a irritação, o cansaço, a fome, o medo do dia seguinte...
Então, após alguns dias, as sujeiras das últimas semanas se afastaram, os hábitos frugais se instalaram, voltei a ser o menino de Nazaré, aquela espera pura da vida, aquele amor de cada instante, aquela adoração por tudo que existe. Eu me sentia melhor, mas estava muito decepcionado. Então, um homem, isso não existia verdadeiramente? Raspando os ouropéis do adulto só se recuperava um menino? Então os anos só acrescentaram pêlos, a barba, as preocupações, as brigas, as tentações, as cicatrizes, a fadiga, a concupiscência e nada mais?
Foi então que tive minha queda.
A queda que mudou minha vida. Que me fez balançar.
Foi uma queda imóvel.
Eu estava sentado no alto de um promontório sem vegetação.
Não havia nada para ver ao meu redor, a não ser o espaço. Não havia nada para experimentar além do puro tempo. Eu me entediava pacificamente. Eu segurava meus joelhos nas palmas das mãos e ali, subtamente, sem me mexer, comecei a cair...
Eu caia...
Eu caia...
Eu caia...
Eu me precipitava em mim mesmo. Como eu suspeitaria que havia essas falésias, um precipício tão vertiginoso, centenas e centenas de passos no interior do simples corpo de um homem? Eu me precipitava no vazio.
Quanto mais a queda se acelerava, mas eu gritava. Mas a velocidade abafava meu grito.
Depois tive a sensação de ficar mais lento. Eu mudava de consistência. Ficava menos pesado. Eu deixava de ficar diferente do ar. Eu me tornava o ar.
A aceleração me diminuía. A queda me tornou mais leve. Acabei flutuando.
E, lentamente, a transformação se realizou.
Era eu e não era eu. Eu tinha um corpo e não o tinha mais. Eu continuava a pensar, mas não dizia mais eu.
Cheguei a um oceano de luz.
Ali fazia calor.
Ali eu compreendia tudo.
Ali tinha uma confiança absoluta.
Havia descido até as forjas da vida, ao centro, ao foco, ali onde tudo se funde, se funda, se decide. No interior de mim eu não me encontrava, porém mais do que eu, bem mais do que eu, um mar de lava em fusão, um infinito móvel e mutante onde eu não percebia nenhuma palavra, nenhuma voz, nenhum discurso, onde eu experimentava uma sensação nova, terrível, gigantesca, única, inesgotável: o sentimento de que tudo é justificado... (...) eu estava bem. Eu não tinha mais sede nem fome. Nenhuma tensão me torturava. Eu experimentava uma saciedade essencial.
Eu não havia encontrado a mim mesmo no fundo do deserto. Não. Eu tinha encontrado Deus.
Desde então, a cada dia eu refiz a viagem imóvel. Eu escalava o montículo e mergulhava no interior de mim. Eu ia verificar o segredo.
Eu me unia sempre à insustentável claridade, eu me jogava em seus braços, onde passava um tempo que não se pode contar.
Aquela claridade, eu a tinha percebido algumas vezes, de modo fugidio, por trás de uma prece de infância, no brilho de um olhar, eu sabia que ela sustentava e impulsionava o mundo, mas eu não havia imaginado que ela fosse acessível. Há em mim mais do que eu. Há em mim um eu que não sou eu, mas que não me é estranho. Há em mim um todo que me ultrapassa e me constitui, um todo desconhecido de onde parte todo conhecimento, um todo incompreensível que torna possível toda compreensão, uma unidade da qual eu derivo, um Pai do qual eu sou filho (...)

Sei que é covardia comparar Mac com o sanduíche do Dudu-Lanches aqui de Minas, Jesus com o melhor dentre os comuns dos mortais, etc. Brincadeira! rsrsrssr

Falando sério agora: o buraco é mais em baixo ou não é? Bem mais em baixo... pro-fuuudo....

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

So-mente para os curiosos:

So-mente para os curiosos:
Por que as mulheres permanecem “C-ALADAS” na igreja, reuniões de pastores, de-bate-s e re-tiros teo-lógicos?por Miguel Garcia


Recentemente tive o privilégio de ser convidado para participar de um encontro de lideres (pastores) realizado em um lugar paradisíaco - um jardim de delícias: vale rodeado de matas virgens, cachoeira, passáros muito diversos e abundantes - hora parados exibindo suas cores inebriantes, hora fazendo aclobacias em pleno ar ou simplesmente dispersando a melodia dos seus cantos por toda a extensão daquele ambiente mágico com boas instalações, ar límpido e revigorante, comida saborosa, campos gramados, quadras poli-esportivas, cabanas, chalés, piscinas e muito mais. Segundo o que entendi, além de outros, o encontro serviria ao propósito de promover reflexões sobre assuntos teológicos. Lembro-me, já no primeiro ou segundo dia do retiro, o mediador das sessões reflexivas insistiu em que a proposta não incluiria necessariamente em chegar a sínteses ou tomada de decisões. Segundo esse último, a idéia central das conversas residiria em exercitar novos modos de ver e criar significados em conjunto, nada parecido com as meras interações verbais – discussão/debate, onde os participantes defendem posições, argumentam, negociam e, eventualmente, chegam a conclusões e acordos. Em resumo, a proposta idealizada pelos organizadores da junta de representantes dos grupos religiosos alí seria a de uma atividade cooperativa de reflexão e observação da experiência compartilhada. Vale ressaltar que havia mais homens do que mulheres no agrupamento. As poucas representantes do sexo feminino dividiam-se entre esposas dos ministros convidados, e mais três pastoras, dentre as três últimas, apenas uma dirige uma congregação (Pra Fátima Nascimento), as demais auxiliam seus maridos pastores. Lembro-me que uma das três pastoras (a que me estendeu o convite para participar do encontro), estava escalada para discorrer sobre um tema que estimulasse a reflexão conjunta na órbita das polemicas geradas pelo Teísmo Aberto - leitura teológica que parece exigir todo um realinhamento dos conceitos bíblicos mais tradicionais e ortodoxos.

Pergunta: Embora o assunto que pretendo trazer à tona possa parecer paradoxal, uma vez que eu mesmo testemunhei algumas particip-ações femininas no encontro do qual participei, por que que é que dados os primeiros passos na direção daquilo que se desejava produzir naquele local, de repente, e o que constituiu todo o restante das tentativas de interação dialógica, eu só percebia a presença viva daquilo que Charles Melmam chamou de dissimetria irredutível dos lugares?

Percebi que pelo simples uso da fala não se chegou à realização do ideal que habitava os corações dos presentes, e que é o da fraternidade, da igualdade, da transitividade. O simples endereçamento da fala do mediador e ideólogo das questões teologais aos presentes, ao contrário, criava, instalava – unicamente por tomar a palavra entre os hipotéticos interlocutores, uma assimetria que fazia com que ele, o mediador, se encontrasse em posição de autoridade e os demais na posição de buscar fazerem-se reconhecer nas proposições deste. Estávamos como em dois lugares diferentes, heterogêneos entre si.

Mas essa não é minha questão central aqui. O dilema que se agigantava dentro de mim à medida que os debates transcorriam era o seguinte: Por que as mulheres permanecem tão caladas? Porque elas não dão passo algum na direção de ultrapassar os limites que lhes foram impostos, por que as mulheres aceitam passarem por seres inferiores aos homens na capacidade de articular idéias e conduzir reflexões?

Eis alguns textos que selecionei com o objetivo de tentar trazer alguma luz aos curiosos (as), aos que se interessam em saber por que as mulheres permanecem “C-ALADAS” na igreja e ou reunião de pastores e teólogos. (Miguel Garcia)

Para os homens, fazer cristianismo é fazer teologia.
Paulo Brabo

Não importa o que pensem Olson ou os revisionistas que ele procura refutar: o fato é que não foi por mera falta de oportunidade que as mulheres não se ocuparam de teologia. Num sentido muito essencial, o que as manteve longe das especulações teológicas foi a consciência profunda de que tinham (como mulheres e como cristãs) coisa mais importante para fazer.

A teologia é um exercício intelectual, uma manobra de idéias, um jogo expansionista cujo objetivo é anular a posição do antagonista. A proposta da teologia não é apenas fixar, tabular e estabelecer limites para a imponderável verdade espiritual; seu objetivo declarado é vencer, derrubar, eliminar a oposição pela manobra rasteira do convencimento. Essa sua qualidade de “jogo de quem é mais forte” (ou, no caso, “quem está mais certo”) mantem-na, irremediavelmente, no terreno dos interesses masculinos.

Não é caminho que as mulheres tenham prazer em trilhar. O jogo masculino, qualquer que seja, não as interessa.

Além disso é preciso reconhecer que escrever teologia é tradicionalmente a atividade de homens que não estão fazendo sexo (naturalmente há outros homens, além de teólogos, que não estão fazendo sexo, mas esses estão amortizando essa carência compondo poemas candentes, escrevendo romances vigorosos ou buscando uma solução ainda mais eficaz para remediar a sua situação). Historicamente, portanto – e disso dão evidência tanto as linhas quanto as entrelinhas – a teologia foi escrita por homens obcecados por sexo, e pelos motivos errados. A teologia é o esforço masculino de demonstrar que a verdadeira espiritualidade implica em afastamento do mundo real; daí a abstinência, daí a assepsia das idéias, daí o caráter infantilmente selado das discussões, das quais só podem efetivamente participar os iniciados na adequada gnose.

Escrever teologia é tradicionalmente a atividade de homens que não estão fazendo sexo.
Falando claramente, as mulheres não têm esse problema sexual. Não acham necessário constrastar a vida cristã com o que quer que seja, muito menos com algo tão desejável e natural quanto o sexo ou os demais embaraços e delícias da realidade física. Nesse sentido as mulheres rendem-se imediatamente aos charmes de Jesus de Nazaré, o curador e contador de histórias, que por um lado recusava-se a rebaixar-se à especulação teológica, por outro abraçava o mundo dos sentidos com mais avidez e candura do que o mundo das idéias.

Intuitivamente, portanto, as mulheres sabem que a espiritualidade não é coisa a ser cultivada na cabeça, mas no coração; não é atividade que se desenrole no palco das idéias, mas nos bastidores das atitudes. Ao longo da história, enquanto os homens se ocupavam de teologia, as mulheres cristãs viviam (e, como homem, minha tentação é escrever “meramente viviam”, como se viver fosse coisa de somenos).

Elas apostaram consistentemente na idéia de que, se havia algo de relevante na herança de Jesus, isso se manifestava em pés empoeirados, em abraços, em unhas sujas, em panelas de comida, em manchas difíceis de sair, em cafunés, em consolos, em longas conversas na madrugada, na cabeceira dos doentes, na limpeza das secreções, em lágrimas, na confecção de presentes, na sustentação de relacionamentos, na cura de doentes, nas visitas aos esquecidos, no repartir do pão, no sorriso dividido, no dilema de consciência, na intimidade da cama, na companhia silenciosa, na ausência impensável.

Em primeiro de abril de 1933, aos 91 anos de idade, Julie Bonhoeffer (avó do teólogo Dietrich) atravessou desafiadoramente o cordão de isolamento que os soldados das tropas de assalto nazistas haviam estendido no centro de Berlim para promover o boicote aos estabelecimentos judeus. Caminhando além da linha divisória e dos soldados perplexos, Julie foi fazer suas compras na Kaufhaus des Westens, a loja de proprietários judeus que costumava freqüentar.

Se resta na terra evidência que honre a herança de Jesus, isso não se deve aos meandros da teologia; não se deve, em grande parte, a homens.

Pós Traumatismo
por Miguel Garcia:

Bem, isso é só o começo. Muitos outros textos selecionados por mim, a respeito desse importante tema, estarão publicados aqui em breve.
Agora permitam-me retornar ao aconchego da feminilidade encarnada, antes que o ardor de imaginar e “fazer” “teolo®gias” me embriague de prazeres e gozos "celestes" em dem-asia, bláaa... deu arrepio só de imaginar! kkkkkkk...


PS - Observando a-tenta-mente essa foto que antecede meus comentários iniciais e o texto do Brabo, fico imaginando que a última coisa que qualquer homem desejaria da parte de uma beldade negra como essa que incandesce na fotografia, é que ela discorresse sobre questões teo-logais e edificantes.
Sendo assim: que as Mulheres estejam FALANTES na igreja!

Quanto às personificações da divindade feminina, como a negra dama de vermelho que arrebatou meus sentidos: carece dizer nada não... rsrsrsrsr...

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O Cabelo ruim

O Cabelo ruim
Eduardo Galeano

A revista norte americana Ebony, de luxuosa impressão e ampla circulação, propõe-se a celebrar os triunfos da raça negra nos negócios, na política, na carreira militar, nos espetáculos, na moda e nos esportes. Segundo palavras de seu fundador, Ebony “quer promover os símbolos do sucesso na comunidade negra dos Estados Unidos, com o lema: Eu também posso vencer”.

A revista publica poucas fotografias de homens. Em troca, há inúmeras fotos de mulheres: lendo a edição de abril deste ano, contei 182. Dessas 182 mulheres negras, apenas doze tinham o pixaim africano, e 170 exibiam cabelo liso. A derrota do cabelo crespo – “o cabelo ruim”, como tantas vezes ouvi dizer – era obra do cabeleireiro ou milagre das poções.

Os produtos alisadores ocupavam a maior parte do espaço publicitário dessa edição. Havia anúncios de pagina inteira de cremes e líquidos oferecidos por Optimum Care, Soft and Beautiful, Dark and Lovely, Alternatives, Frizz Free, TCB Health-Sense, New Age Beauty, Isoplus, CPR Motions e Raveen. Imprecionou-me ver que um dos remédios contra o cabelo africano se chama, precisamente, African Pride (Orgulho africano) e, segundo promete, “estica e suaviza como nenhum”.

A pele ruim


A pele ruim
Eduardo Galeano

Ao início do século dezesseis, nos primeiros anos da conquista européia, o racismo se impôs nas ilhas do Mar do Caribe. Pretexto e salvo-conduto da aventura colonial, o desprezo racista se realiza plenamente quando se convertia em autodesprezo dos desprezados. Para escapar do trabalho escravo, muitos indígenas se rebelaram e muitos se suicidaram, enforcando-se ou tomando veneno; mas outros se resignaram a outra forma de suicídio, o suicídio da alma, e aceitaram olhar pra si mesmos com os olhos do amo. Para se transformar em brancas damas de Castela, algumas mulheres índias e negras untavam o corpo com um ungüento feito de raízes de um arbusto chamado guao.
A pasta de guao queimava a pele e, segundo se dizia, limpava-a da cor ruim. Um sacrifício vão: depois dos alaridos de dor e das chagas e das bolhas, as índias e as negras continuavam sendo índias e negras.
Séculos depois, em nossos dias, a indústria de cosméticos oferece melhores produtos. Na cidade de Freetown, na costa ocidental da África, um jornalista explica: “Clareando a pele, as mulheres tem mais chance de pescar marido rico”. Freetown é a capital de Serra Leoa: segundo dados oficiais do Serra Leoa Pharmaceutical Board, o país importa legalmente 26 variedades de cremes branqueadores. Outras 150 entram de contrabando.

Sobre Teísmo aberto e transparência infinita

Sobre Teísmo aberto e transparência infinita
por Miguel Garcia
Até que ponto se pode "re-significar" uma crença sem que a mesma seja abolida num dado momento do processo exaustivo?

“O tipo de explicação que abole o objeto explicado pode até nos trazer algum resultado, ainda que a um preço demasiado alto. Mas não se pode fazer isso para sempre: cedo ou tarde chega-se a abolir a própria explicação. Não se pode ver o que está por trás das coisas para sempre. Todo o propósito que existe em ver o que está por trás de alguma coisa reside justamente nisso: em ver, através dessa coisa, um objeto real. É bom que a janela seja translúcida, justamente porque a rua ou o jardim além dela são opacos. E se também fosse possível ver através do jardim? Não há nenhuma utilidade em tentar "enxergar o que está por trás" dos primeiros princípios. Se você "enxergar o que está por trás" de todas as coisas sem exceção, então tudo se tornará transparente para você. Mas um mundo completamente transparente é um mundo invisível. "Ver o que está por trás" de todas as coisas é o mesmo que não ver nada.” C.S.Lewis – A abolição do Homem

O que tudo isso tem a ver com o Teísmo Aberto?
Ainda estou tentando enxergar!...

Bíblia mito-lógica! por Miguel Garcia

“As criancinhas se revoltaram e expulsaram o professor... Inquietude, dúvida e infelicidade: eis o quinhão dos homens depois que tanto sofreste para dar-lhes a liberdade.” Dostoiévski


Sócrates: Quer dizer que você concorda com a Bíblia quando ela concorda com você, mas do contrário não.
B: Eu não discordo da Bíblia, apenas interpreto algumas partes como mito.
Sócrates: As partes com as quais você não concorda.
- Eu apenas interpreto à luz das minhas convicções honestas.
Sócrates: Mas você não poderia interpretar qualquer livro e quaisquer palavras de outro à luz das convicções deles em vez das suas? Quando está interpretando, você tem interesse em saber no que eles acreditam, não tem? Então decide se acredita nisso ou não. Mas, se você não sabe o que é isso, nem no que a outra pessoa acredita, como saber se concorda ou discorda dela?
B: Você quer dizer que nós não devemos interpretar um livro à luz de nossas crenças?
Sócrates: É claro que não! Isso mistura duas coisas: interpretação e crença.

Extraído do livro: Sócrates e Jesus o Debate – Peter Kreeft

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Vibr-ações amorosas

Vibr-ações amorosas
Miguel Garcia


Vibra sineta de metal, campainhas de um poema fomentando transe e o pai-de-santas-letras sorrindo extasiado profetizará: adjarin, ààjà!

Candidato a um amor que nascerá com o sol da manhã e sofrerá sua luz como a pele de um adufe.

Quem sabe iabás das alturas - divindades femininas flutuando ao redor, embaladas ao som de atabaques e agogôs, juntem-se à glória de um ser apaixonado, Oxalá!

Cor da noz-de-cola branca se fará esse dia!

Sem sacrifício ver-se-á curado da pura solidão, bebericando beijos medicinais, banhando-se em abraços feito cabaça envolta numa malha de fios de contas – agè, agogo percutindo gemidos em corpos colados....

Aiyé! Esquecerá a terra e o mundo, o tempo, a vida, a mentira da morte, povoará belos sonhos e nada mais. Negará ajogún – infortúnios, a dor intolerável e a sujeição.

Mordiscará a carne quente e oculta-la-á sob si, como acaçá em folha de bananeira.

O chefe da orquestra entoará um cântico distinto: arrebates, tambores, elementos da natureza viva, Rum, Rumpi e Lé, tudo... será o amor repercutindo em todas as direções.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Aba!Paz alguma!

Aba!Paz alguma!
Miguel Garcia


Aba! aba no templo, terreiro, na tenda, Aba na pele, pixaim, dentro do peito.

Aba! meu espírito submerso na paz, esperança para dias melhores, Aba na fenda da memória angustiante.

Abacê! culinária no coração, talento consagrado aos santos: negrinhos, irmãos de leite, crias, malungos e moleques de brinquedo, migalhas aos senhores da Casa Grande!

Serei a-penas um adorno por aqui? Aba ou guerra? E o sabor da liberdade quem provará?

Feições doces e estampa agradável garantem teto sem goteiras, mas não livram dos toques de gilete, sadismos e estupros noturnos.

Aba! aba no presente e bloqueio sentimental. Quem dera eu tivesse olhos pra chorar o negro do eito, queimado aos milhões como um carvão humano, primeiro nas fornalhas do engenho e plantações de cana, depois nas minas e nos cafezais. Lógica mortal que viaja no tempo e espaço feito tempestade ígnea - horrores onipresentes.

Aba! Brasil-Massa, não família, anti-família, mãe pobre, parideira, Aba-Dona-Edite senhora muca-mãe- minha!

Abu! e esse povo tão calado?

Aba-Paz-alguma!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Afro-Dia

Afro-Dia
Miguel Garcia


Acordei abaçaí. Meu espírito tateava sem luz, agitado e causador de obsessões. Aba fugidia escapava de mim.

Abará no desejo e coisa de preto africano, sentimento e intuição. Abati, vinho de milho e embriagues nos terreiros da alma aturdida.

Abarem doce escondida em folhas de bananeira, salgava num choro.

Ameixa, caju e gostar de mim. Pra longe a má sorte da infelicidade, a menos que eu abra meus poros, que eu corra demais e sem rumo, achi dos meus irmãos será açoite merecido.

Afonjá e resistência ao fogo do desespero. Bem vinda espuma do mar!

Quem sabe manhãs livres de agueré – brasa viva na cabeça e coração de um preto fugitivo.

Adolá, adeus afro-dia!

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Contempl-ação

Contempl-ação
Miguel Garcia

Olha este dia! Como está claro! as nuvens poucas... a aragem benfazeja...
O pé de manga carregado, a jabuticabeira em trabalho de parto, a folhagem da ameixeira flertando com a brisa sedutora, beijando a avidez do meu olhar ardoroso, o cromatismo de todo este verde ao redor... a prosa incessante dos pássaros, seus bailados no ar, como será que flutuam? Simples vista da janela ou assombro ante o quadro magnífico que exibe a obra do grande gênio Artista?
Olha a paz deste lugar!...
Palmeiras esbeltas, elegantes, sempre de braços abertos... Bambuzais com formato de bouquet ofertados aos passantes...
Olha a diversidade de cores inebriantes, tanta vida, tanto pra se viver aqui e agora...
Olha o coração da Silvia aberto e iluminado, tão disposto a pertencer...
Olha esse convite, essa armadilha de amor, esse Blog-ambiente de ternura, delicado... isto que vejo e que me vê, que leio e que me lê - carrega no colo, conduz à lugares dist-antes... todo o sentimento que escapa... isto que agasalha a alma, um momento sagrado, toda essa paixão que arde, humanidade em flor, em versos de amor...

Olha este dia! Como está claro! as nuvens poucas... a aragem benfazeja sussurrando versos aos meus ouvidos...

Olha!...

Felicidade é pra quem pode!

Felicidade é pra quem pode!

“... os mais felizes são exatamente aqueles que vivem sem pensar no futuro, como as crianças; aqueles que rondam respeitosamente em torno da gaveta onde a mãe guardou os doces e, quando conseguem agarrar, enfim, as cobiçadas guloseimas, devoram-nas avidamente e gritam: “Quero mais!”, eis as criaturas felizes! Felizes também as pessoas que dão nomes pomposos às suas fúteis ocupações, e até mesmo às suas obsessões, fazendo-as passar por proezas colossais destinadas à salvação e prosperidade da humanidade.
Tanto melhor para os que podem ser assim!... Mas aquele que humildemente reconhece o resultado de todas as coisas, vendo, de um lado, como o pequeno-burguês sabe cuidar do seu pequeno jardim e dele faz um paraíso, e, de outro, como o miserável, levando ofegante o seu fardo, segue o seu caminho sem se revoltar, aspirando ambos, igualmente, a ver por um momento mais a luz do sol...
Sim, esse é tranqüilo, forma o seu universo a partir de si mesmo, e é feliz por ser um homem. Assim, por mais limitado que seja, guarda sempre no coração o doce sentimento de que é livre e poderá sair da sua prisão quando quiser.” (Goethe)