quinta-feira, 10 de julho de 2008

Lamento e Profecia

Lamento e Profecia
Miguel Garcia

- São Paulo, São Paulo!
Que mata profetas
e apredeja poetas portadores da beleza e inocência dos deuses!

Quantas vezes desejei abraçar seu sentimento assim como a galinha ajunta filhotes debaixo das asas, mas você não quis!

Agora sua casa ficará abandonada.
Eu afirmo que não me verá mais, até chegar o tempo em que diga:
“Façamos feliz um poeta entre nós!”.
Forçado a deixar seu “templo”,
circunstâncias e oposições sobrevindo...
Expulso de um monte coberto de neve...
Logradouro... tristeza profunda,
afastei-me dali!
- Pedras de mármore brilhando ao sol
tão brancas-esverdiadas que à distância
afiguravam-se à superfície calma do oceano.
À distância...
estive perto demais!

Frontais do templo humano recobertos de ouro,
portais imensos,
quase tão altos como o próprio edifício, cerrados.

Fuga do memorial,
das memórias,
monumento,
habit-ação de ímpiedades...
escapei??

Afastei-me lentamente,
pens-ativo..
Fermentou a mensagem rejeitada,
a poesia vã,
a canção sufocada eclodiu:
Icabode!

Mergulhei em sombras, melancolia,
antevi escombros, pesadelo, decadência,
desertos infernais, erosão de alma...
boca seca.

Turba matizada que em meus pensamentos,
visões.. assombros... ravinas..
Agonia das gentes,
violência, sangue derramado...
Sobreveio a destruição!

Não vejo o futuro.
Não. Vejo.
Quantas vezes, à talhe de foice,
provi recolher meu povo em fantasia viva,
agitada, caprichosa, vagabunda, solta,
exaltada, desvario de poeta
– de doido, de ébrio, conto-de-fadas,
de mil e uma noites,
feitiço, canções, poemas,
castelos no ar, adivinh-ação!..
Desolada São Paulo cidade!
Quão patentes evidências de presságio cumprido:
Seu sinédrio outrora “grandioso e augusto”,
hoje delibera sobre os próprios crimes.

Sangue e suor umedecem paredes nos templos caiados
- manchas de bolor,
flores tétricas em relevo,
mudas de pecado,
feridas agudas purulentas
atestando a fome de luz,
fealdade desdoirando os olhos.
Gemidos de dor nas estruturas,
ambição e morte cimentando pedra sobre pedra,
cemitérios clan-destinos...
sinagogas jazendo em ruínas.

Eu vi no espelho mágico,
no espaço cibernético:
veredas entulhadas,
lamento, perplexidade e miséria.
Pois dificilmente família houve
que não perdeu ente querido.
Linhagens extintas,
soledade que outrora celebração e vida..

Lavoura Arcaica...
um oráculo rasgando o silencio:
Eis que a vossa casa ficará deserta,
sem encanto ou chama que desperte!

- São Paulo, São Paulo! Que mata profetas e apredeja poetas portadores da beleza e inocência dos deuses!

Quantas vezes desejei abraçar seu sentimento
assim como a galinha ajunta filhotes debaixo das asas,
mas você não quis!
Agora sua casa ficará abandonada.

Eu afirmo que não me verá mais,
até chegar o tempo em que dirá:
“Façamos feliz um poeta entre nós!”.

3 comentários:

Paulo Cruz (PC) disse...

Hum...começaram as ressonâncias (rs)!

"Uma voz clama: no deserto, abri um caminho para Iahweh; na estepe, aplainai uma vereda para o nosso Deus." (Is 40:3, Bíblia de Jerusalém)

Fala, poeta!

Abraço,
PC

Edu Martins disse...

Sua profecia/lamento é uma evocação coletiva, eu entre eles...
Profeta é assim: percebe o sonho coletivo e se pronuncia; sua mensagem, sempre necessária, e por vezes bela (como sempre são as tuas), é a real representação de um imenso grupo que desejava ter aquelas mãos a expressar-lhes a alma.
Com o meu-bem-querer...
Edu Martins.

Paulo Cruz (PC) disse...

Bom, finalmente chegamos em um ponto crucial: ICABODE!

MARANATA!

Os poderes pululam ativos e altivos nos corredores, tribunas, salas pastorais, nos ditos mi(ni)stérios, grupos disso-e-daquilo, reuniões de leões vorazes, etc.; e todos, devidamente fantasiados, julgam seus próprios labores como dignos que honras e glórias. Tudo isso na mais indisfarçada falsa modéstia.
Escorregando pelo que escorre do nariz dos desvalidos, escarram memórias ridículas, recapitulam teologias nunca aprendidas, inauguram movimentos retardatários, evocam a simplicidade roubada das periferias, lucubram em suas brancas lembranças, refletem em frente ao espelho, que lhes diz: "A beleza não está em ti"! Mas recusam ouvir.
Ao final de seus conluios dizem: "Matamos mais um”!
Pisam na cabeça do inimigo, triunfantes pelo restabelecimento da ordem; pela supressão da Crise Mimética.
Vestem-se de linho e acusam os poderosos. Piada!
Alimentam-se do mesmo sistema que acusam. Piada!
Correm, correm, mas tropeçam sentados em seus tronos, acima dos normais, para quem olham e de quem exigem admiração. Comercializam idéias alheias, sustentados pela fé indecente dos sedentos por sofismas.
Reclamam humanidade, mas sois deuses!

Mas Prometeu roubou-lhes o fogo e nos deu, aos verdadeiros homens! E agora diz pela boca do poeta:

“Encobre o teu Céu ó Zeus
com nebuloso véu e,
semelhante ao jovem que gosta
de recolher cardos
retira-te para os altos do carvalho ereto
Mas deixa que eu desfrute a Terra,
que é minha, tanto quanto esta cabana
que habito e que não é obra tua
e também minha lareira que,
quando arde, sua labareda me doura.
Tu me invejas!”

(J.W. Goethe - Prometheus)

Assemos nossos pães...no deserto!

Abraço,
PC