quinta-feira, 22 de maio de 2008

Inútil


Inútil
Miguel Garcia

Esta manhã acordei com nítida impressão de que estaria “errado” mesmo que permanecendo de boca calada, ou então de ser eu o “engano” em pessoa a falta encarnada. Acordei com a sensação de que se dirigisse a palavra a uma outra pessoa, por mínima que fosse correria o risco de ser jogado pela janela...

Acordei com a sensação de ser inútil feito uma Isabela!

Que minhas atividades - de um reles fazedor de experiências e ladrão do fogo roubado do ladrão do céu (Prometeu) sejam absolutamente inúteis, já não duvidava mais, contudo, especialmente nessa manhã do feriado de Corpus-Christi-Arremessado-Pela-Janela-do-Mundo (é.. o mundo também o rejeitou...), essa realidade pareceu-me mais intensa, não pude negá-la, o sentimento que se apoderou de mim já não dizia respeito apenas à indigência de minhas “produções” (mera vaidade ou frustração comigo mesmo), ele formava um todo por dentro e ao redor, um todo de nada penúrico... e o futuro tão improvável quanto um regresso ao passado... algo de despresível estava por toda parte... e eu bolsão de esterilidade... ausência cristalina de uma transparência-espectral, desnecessário feito muda de repolho, escusado, baldado, oco, com a diferença de que repolho vira flor...

E o temor de que alguém me visse naquela condição!... o pavor de que calculassem meu valor... terror de que notassem o ruído de minha tímida e pausada respiração, considerado-a uma apropriação indevida, daí resolvessem fazer justiça com as próprias mãos, que estrangulassem meu grito antes mesmo dele brotar... que apavorassem meus olhos enunciando pensamentos por meio de gestos cruéis e expressões rancorosas... e aquela viva inquietação de que meu destino seria voar para morte se agigantava lentamente...

Esta manhã acordei com nítida sensação de que estaria “errado” mesmo que permanecendo de boca calada, ou então de ser eu o “engano” em pessoa a falta encarnada. Acordei com a sensação de que se dirigisse a palavra a uma outra pessoa, por mínima que fosse correria o risco de ser jogado pela janela...

Acordei com a sensação de ser inútil feito uma Isabela!

Um comentário:

Paulo Cruz disse...

Que Deus é esse, que até às "mudas de repolho" enche de poesia, de sofisticação e beleza?

É o Deus-Isabela, que é inútil para aqueles cujas mãos ávidas arrancam as flores dos jardins, ao invés de tão somente regá-las, para que cresçam e nos tragam paz em seu pólen.


Abraço,
PC