sábado, 16 de junho de 2012

Como seria “simples”...


Como seria “simples”...
Miguel Garcia

Como seria “simples” se pudéssemos satisfazer os anelos de toda a condição humana, em segurança, no nosso quarto de dormir (casadinhos e afins)! Se o parceiro (a) fosse como Deus, onipotente para nos apoiar em nossas carências, abarcando tudo para podermos fundir nele (a) nossos desejos. Becker

Como seria “simples” ancorar e delimitar nossas vidas com ‘aléns’ que estivessem logo à mão, pouco adiante, ou forjados por nós mesmos;

Como seria “simples” que a intuição não con-vida-sse a ingressar no além (afora; a outra vida) da religião;

Como seria “simples” se fossemos capazes de fechar os olhos à nossa necessidade profunda - à ideologia realmente religiosa inerente à natureza humana: única capaz de satisfazer a carência básica de qualquer gênero de vida social;

Como seria “simples” se pudéssemos crer que a entrega a Deus é masoquismo, que esvaziar-se de si mesmo é degradante, que o ponto mais distante que o eu pode alcançar, que a máxima idealização acessível ao homem encontra-se exatamente  em “abandonar a ideia de Deus – na não expansão amorosa do Ágape; em não realizar-se criativamente;

Como seria “simples” não render-se à grandeza da natureza no mais elevado e menos fetichizado nível: não ‘conquistar’ a morte;

Como seria “simples” se a confirmação heroica da vida de cada um pudesse ser obtida no sexo, no outro, em formas de religião particular; se toda essa lista de coisas atraísse o bicho/humano para cima, ou o libertasse , deixando-o pleno/integral, satisfeito e confiante;

Como seria “simples” se pudéssemos prescindir dos “verdadeiros valores interiores na personalidade”, se pudéssemos ser mais do que meramente um reflexo de algo vizinho desses valores e não meras sombras de sombras; se portássemos um giroscópio firme em nosso íntimo;

Como seria “simples” se houvesse em nós um centro: não ter que olhar para além do eu, além dos consolos dos outros e das coisas deste mundo;

Como seria “simples” se não fossemos teológicos, mas sim biológicos;

Como seria “simples” se nossa cultura pública e privada, sobretudo a das elites, não se dissolvesse em corrupção, cocaína, apatia politica, consumo e filosofias-de-retoques-e-maquiagens;

Como seria “simples” se uma cervejinha no sábado à tarde, um grito de gol a cada dois anos, três dias de desfiles nas avenidas, ou ainda o culto ao próprio umbigo, às lágrimas e suspiros românticos; se a obsessiva pergunta: “quem pode ter orgasmos com o quê e com quem”, ou, finalmente, o sonho da semana de compras em Miami, desse cabo da doença mortal - desespero da criatura bipartida... Como seria “simples”... Mas isso é impossível.

Vassum Crisso

Um comentário:

Samira Pereira disse...

Simplesmente espetacular, me rendo as suas palavras.

Samira Silva