
Miguel Garcia
Ainda ontem assisti ao filme Ligados Pelo Crime (The Air I Breathe)
Elenco: Kevin Bacon, Julie Delpy, Brendan Fraser, Sarah Michelle Gellar, Andy Garcia, Forest Whitaker, Emile Hirsch.
Sinopse: Baseado em antigo provérbio chinês que divide a vida em quatro estágios: felicidade, prazer, tristeza e amor. A felicidade está na história do banqueiro que perde tudo e decide roubar, justamente, um banco; o prazer aparece no personagem de um gângster que pode ver o futuro; a tristeza surge numa impulsiva estrela pop que enfrenta problemas na carreira; e o amor está na vida de um médico que tenta desesperadamente salvar a vida de seu paciente.
Eis aí algumas das falas perturbadoras desse filme surpreendente, falas essas, que a meu ver, lembram e muito as reflexões do poeta Goethe sobre o tema (Felicidade, Prisão do Espírito Humano) em seu maravilhoso livro Os Sofrimentos do Jovem Werther:
- Sempre quis saber: quando uma borboleta deixa a segurança de seu casulo, será que ela percebe o quanto se tornou bela, ou continua enxergando a si mesma apenas como uma lagarta?
Felicidade
- Quando eu era criança conhecia o segredo de uma vida feliz: jogue pelas regras, de duro na escola, e, se você der duro na escola, então sua recompensa será mais escola, e, depois de mais escola você recebe o melhor que a vida tem a oferecer: um emprego, dinheiro e um futuro preenchido pela busca interminável e soberana de mais e mais.
- Era isso que eu estava vivendo: Minha vida feliz.
- Eu invejo os que jamais questionam isso, agora eu, eu precisava escapar.
- Às vezes arriscar tudo é a única opção que você tem...
- Às vezes estar totalmente ferrado pode ser uma experiência de libertação...
(...) As crianças não sabem a razão daquilo que desejam – nisto todos os pedagogos estão de acordo. Mas também os adultos, tal qual as crianças, caminham vacilantes e ao acaso sobre a terra, sem saber de onde vêm nem para onde vão! Agem sem objetivos determinados e deixam-se governar, como as crianças, por meio de biscoitos e vara de marmelo....
(...) Os mais felizes são aqueles que vivem sem pensar no futuro, como crianças, passeando, despindo e vestindo suas bonecas... eis as criaturas felizes! Felizes também as pessoas que dão nomes pomposos às suas fúteis ocupações, e, até mesmo às suas obsessões, fazendo-se passar por proezas colossais destinadas à salvação e prosperidade da humanidade. Tanto melhor para os que podem ser assim!... Mas aquele que humildemente reconhece o resultado de todas as coisas, vendo, de um lado, como o pequeno-burguês sabe cuidar do seu jardim e dele faz um paraíso, e, de outro, como o miserável, levando ofegante o seu fardo, segue o seu caminho sem se revoltar, aspirando ambos, igualmente, a ver por um momento mais a luz do sol... Sim, esse é tranqüilo, forma o seu universo a partir de si mesmo, e é feliz por ser um homem. Assim, por mais limitado que seja, guarda sempre no coração o doce sentimento de que ele é livre e poderá sair da sua prisão enfeitada de figuras multicoloridas e luminosas perspectivas, de sua resignação sonhadora quando quiser. (Goethe - Os Sofrimentos do Jovem Werther).
Ainda sobre felicidade:
A qualidade da vida emocional depende da satisfação com que se vive. Se preferir, a qualidade de vida depende da felicidade, e esta, depende de nosso destino coincidir com nossa vontade, ou seja, estamos felizes se esta acontecendo agora aquilo que eu queria que estivesse mesmo acontecendo. Mas esse evento não é tão simples como parece. A coincidência vontade-destino é mais abrangente do que a simples sucessão dos acontecimentos. Para ser completa a idéia de felicidade, os sentimentos devem ser, nesse momento, justamente aqueles que eu mais queria estar sentindo(agora).
Juntando essa idéia com a natural aptidão humana para o desejo, para a expectativa, para a pretensão, e sabendo que nos frustramos na proporção em que pretendemos, fica mais clara a idéia de John Stuart Mill ao dizer que “aprendeu a procurar a felicidade limitando os desejos, ao invés de satisfazê-los”.
(Esse último material foi extraído do artigo Crise de Valores e violência – PsicoWeb).
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