segunda-feira, 19 de maio de 2008

Metamorfismo Feliz – Refletindo sobre o Salmo 1:3


Metamorfismo Feliz – Refletindo sobre o Salmo 1:3
Miguel Garcia


São felizes as criaturas arboreáveis cravadas na terra à margem de um riacho com um declive suave até a altura das águas, que contemplam ao longe, um terreno superior recoberto de mirtos – as cercas vivas.

São felizes os que colhem flores na beira dos lagos, todavia, não para compor guirlandas que enfeitem altares das divindades fabulosas dos rios, dos bosques, das matas de um sonho ou desejo qualquer.

Felizes os filhos de Deus que ao fugirem da perseguição cruel de viverem pra si mesmos, vêem-se subitamente transformados em vegetal lenhoso, os que têm pés enraizados no solo, os que não podem mover seus membros nem suas pulsões inferiores, pois o aspecto de madeira incorruptível avança sobre eles gradativamente.

Felizes os que se angustiam durante a alteração de sua forma e, ao tentarem arrancar os próprios cabelos vêem suas mãos repletas de folhas de esperança e consolo, felizes os que endurecem ao ponto de sentirem secar seus fluidos venenosos.

Felizes os que não recebem ajuda que possa impedir o desenvolvimento da madeira empírea, os que não se vêem subitamente abraçados por suicida exaltado que se deixaria envolver pela casca da árvore em formação. Felizes os que não recebem socorro de Andrêmon, Íole, pai, mãe, tampouco as cordas dos arroubos sentimentais deles - afetos de toque que abraçam caules quentes e beijam folhas de melindres patológicos por toda parte.

Felizes os(as) Dríopes, os que assim perdem tudo, nada restando além de seus rostos umedecidos por derradeiras lágrimas fluindo e caindo sobre folhas tenras e, enquanto podem, por conta da transfiguração galopante, sussurram odes de gratidão até quando tudo for silente como na eternidade... quando o único ruído de uma agitação febril qualquer se fizer benfazejo e balsâmico.

Felizes os que vivem ocultos sob o córtex de uma planta sem folhagens secas ou caules feridos. Felizes os arborescentes que ofertam seus ramos e geram sombra fomentando as folganças de meninos.

Felizes os que almejam arborescer, mesmo que num arboreto sob os olhos do Arborista apaixonado por modificar paisagens tristes.

Felizes os que arvorecem protegidos dos machados que golpeiam a sensibilidade e dos rebanhos que mordem e rasgam ramos de delicadeza e afetos brandos.

Felizes os que se vêm em estado avançado da metamorfose sublime, os que já não podem se inclinar a desejos banais ou roçar com os lábios apetites desastrosos, nem tampouco murmurar de sua sina, pois o processo cortical em progresso sobre as gargantas, em breve também sonegará dos olhos de um ardoroso expectador cada fronte penitente.

A madeira por si só fechará cada um dos olhos sem o auxílio de ninguém, então os mesmos cessarão de movimentar-se, e a vida morta se extinguirá até nos ramos que retiverem por mais algum tempo o calor vital que estava morto e bem sabia.

“Feliz a pessoa que é como árvore plantada junto à corrente de águas, que, no devido tempo dá seu fruto, e cuja folhagem não murcha, e tudo quanto ela faz é bem sucedido”. Sl 1:3.

Felizes os que arvoram em metamorfose feliz. Felizes árvores-da-preguiça, de rede, árvores-da-vida, árvores-de-bálsamo, de cuia, as ornamentais – porque Deus é beleza!

Felizes árvores-dos-viajantes – as que hospedam estrangeiros em sua silhueta, árvores-mães – portadoras de sementes... Felizes árvores-frutíferas, sombríferas, floríferas, porque toda árvore que não produz sustento será cortada e lançada no fogo, exceto as que produzem lenha, sombra, folhas, flores e beleza, portanto, que árvore alguma seja colhida e incinerada jamais.

Felizes os vegetais lenhosos-arbústeos – murtas pequenas-notáveis, barreiras-vivas para proteção de todo um pomar, felizes os modificados, os vivos, os transformados, felizes os alvos de um metamorfismo feliz.

2 comentários:

René disse...

Lindo, lí, descansei. Obrigado. René

Paulo Cruz disse...

"Em marcha, humilhados do sopro, deles é o Reino do céus!" (Matyah 5:3, André Chouraqui)

Bendita seja a hora que, depois de um filme terrivelmente Hollywoodiano (Beowulf), resolvi eu entrar rapidinho aqui, movido por um sentimento de falta, para responder alguns e-mails seus.

Bendito sejas tu entre os homens, bendito seja o fruto de teu ventre, a melopéia que emana de tuas entranhas.
Bendita seja a amenidade de tua pena, a delicadeza de tua grandeza.

Te vejo poeta! E não suma de minha vista!

Abração,
PC