terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O dia da mãe

O dia da mãe!
Miguel Garcia

Ai mãe! Virá o dia em que montarei o cavalo branco de meus desejos e irei pra bem longe de ti. Não serei mais teu projeto, extensão, reflexo, consolo, esperança, conforto, tábua, teu muro, teu deus, teu herói, mesmo sabendo que ferirei de morte teu coração.

Mesmo que o odor de teu "sangue, suor e lágrimas" venha até mim nas asas do vento, saltando as noites, perpassando meu cérebro num sonho de amor; mesmo que o ruído e o volume do teu choro se agigantem em grandes ondas e ameacem perseguir-me, ensurdecer e afogar; mesmo tendo de negá-la três vezes, mãe: fugirei de ti - da tua órbita imantadora, do teu domínio, do teu grilhão...

Como um escravo fugitivo que se afasta dos algozes, dos chicotes, troncos, algemas - almas-gêmeas, dos "iguais", de absurdos vários... da fome, do medo, da vergonha, e, até mesmo da mulher de um "Potifar" qualquer, penetrando a escuridão da noite infinita, lançando seu corpo débil em des-caminhos, açoitado por ramagens impiedosas, beijado por ferrões e apetites vorazes, lambido por cardos vampiros... Ai mãe! Fugirei de ti, mesmo que nu, descalço, acorrentado e faminto. Das cavernas mais dist-antes farei minha habitação.

Ai mãe! Não queiras deter-me, não me importunes cobrando lealdade, não me atormentes com gemidos: não farei como a mulher de Ló!

Sinto-me exausto e o-fendido demais... não me peças um último folego...

Talvez ainda haja um tempo pra nós no futuro... quando minha jornada revelar o que sou e quando tu finalmente aprenderes a ser mais do que apenas Mãe.

Vassum Crisso

Um comentário:

Edú Martins disse...

Admiro tua ousadia,

Mas teu texto é tão rico de beleza literária que fica difícil ‘ver’ o que pretende significar.

Lembrou-me um Nietsche, alguém que tem tanto talento literário e é tão poeta que o filósofo acaba ficando obnubilado.

Um dia, e é por isso que te compreendo, tive, aos vinte e poucos, de decretar uma sentença parecida com essa, claro que sem sua riqueza. Doeu... Muito.

Mas libertou.

Segundo nascimento. Se alguém me perguntasse se acredito eu responderia um sonoro sim. Se ainda insistisse para que eu definisse essa insólita experiência eu diria: A diferença entre o primeiro nascimento e o segundo, é que no segundo a maturidade e as cicatrizes nos faz sentir a incisão do bisturi ao cortar o cordão...

Abraços,

Saudades,

Edú Martins

OS à No segundo semestre, se eu for capaz, e creio que serei, lançaremos nosso livro CD. Claro, se você ainda estiver aqui ‘na terra’ dos mortais.