domingo, 12 de fevereiro de 2012

Vácuo on Deus!

Vácuo on Deus!
Miguel Garcia

E agora, esse abandono... 
Cadê o controle?
Onde ancorar problemas?
Onde fixar desvalia, culpa, conflitos? 
Como reter o fardo existencial num só local do “ambi-ente”?
Onde projetar inquietações? 
Como despir-me de poder e coloca-lo nas mãos do Outro(a)? 
Cadê aquele ponto de apoio organismico fundamental?
Sei que as dores que sentimos: doenças reais ou imaginárias, dão-nos algo com que nos relacionarmos, evitam que nos desprendamos do mundo, que nos atolemos no desespero de absoluta solidão e futilidade, sei que a doença é um objeto, que o corpo é um amigo em quem podemos nos apoiar em busca de forças e, também, um inimigo que nos ameaça com perigos, sei que o que nos constitue nos faz sentir reais e nos dá uma certa vantagem sobre nossa sina, mas isso que "sei" não basta: cadê o balu-arte contra a morte, cadê a Rainha, a Elizabeth, a Houston?

Vassum Crisso

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sobre o Rubem Alves

Sobre o Rubem Alves
Miguel Garcia 

Ouvi dizer que Rubem Alves fez de si o contrário do que geralmente faz o erudito de uma área exclusiva; o contrário do que rotineir-a-mente faz um operário que, ao longo da vida, trata apenas de mover determinada alavanca, ou gancho, ou manivela em determinado instrumento ou máquina, de modo a conquistar um inacreditável virtuosismo na atividade. 

 Ouvi dizer que ele parece ter seguido no caminho contrário daquele trilhado por um especialista. Especialistas, na ilustração de Schopenhauer, podem ser comparados a um homem que mora em sua casa própria, mas nunca sai dela.


“Na casa, ele conhece tudo com exatidão, cada degrau, cada canto e cada viga, como, por exemplo, o Quasímodo de Victor Hugo conhece a Catedral de Notre-Dame, mas fora desse lugar tudo lhe é estranho e desconhecido.” Schopenhauer


Ouvi dizer que Rubem Alves é dono de uma verdadeira formação para a humanidade, o que exige universalidade e uma visão geral, que é Erudito no sentido mais elevado do termo, e não apenas um portador de conhecimento enciclopédico. 

Ouvi dizer que quando ele se expressa, demonstra ser capaz de reunir as extremidades mais afastadas da vontade humana. Ouvi dizer que esse senhor revela ares de um espírito de primeira grandeza, que, para ele, a totalidade da existência é que se impõe como “problema”, e que é sobre essa totalidade que ele comunica às pessoas, “novas” soluções. 

Ouvi dizer ainda, que Rubem Alves bem merece o título de gênio, pois assume como tema de suas realizações a soma de todas as coisas - aquilo que é grandioso, as coisas essenciais e gerais, furtando-se a dedicar esforços de sua vida a esclarecer qualquer relação específica de objetos entre si.

Ouvi muita coisa sobre o Rubem Alves, ouvi relatos eufóricos e emocionados de pessoas que mais pareciam Maria depois de flertar com o anjo da anunciação.

Vassum Crisso

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Sobre o apelo de voltar à religião dos velhos tempos

Sobre o apelo de voltar à religião dos velhos tempos:


“... Entendo a atração que isso exerce. Na juventude, eu tinha estrelas fixas. O fato de estarem sempre ali era um conforto para mim. Elas deram um horizonte conhecido. E me disseram que lá fora havia um Pai bondoso e amável olhando por mim, pronto para me receber, atento aos meus interesses o tempo todo...”. Bill Moyers  (O poder do Mito)

...”Os modelos têm de ser adaptados ao tempo que você está vivendo; acontece que o nosso tempo mudou tão depressa que o que era aceitável há cinquenta anos não o é mais, hoje. As virtudes do passado são os vícios de hoje. E muito do que se julgava serem os vícios do passado são as necessidades de hoje. A ordem moral tem de se harmonizar com as necessidades morais da vida real, no tempo, aqui e agora. Eis aí o que não estamos fazendo. A religião dos velhos tempos pertence a outra era, outras pessoas, outro sistema de valores humanos, outro universo. Voltando atrás, você abre mão de sua sincronia com a história. Nossos jovens perdem a fé nas religiões que lhes foram ensinadas, e vão para dentro de si, quase sempre com a ajuda de drogas.” Joseph Campbell (O poder do Mito)

Vassum Crisso

domingo, 1 de janeiro de 2012

Como saber se estou de férias?

Como saber se estou de férias?
Por Miguel Garcia

Não se consegue saber, a menos que seja possível ingressar – mimetizar as multidões de pessoas que usufruem o mesmo prazer, ao mesmo tempo, no mesmo lugar e, se contemplam na imagem de outrem. Pois, se pratico qualquer atividade sozinho na cidade, como saber se tiro prazer disso? Não é garantido! Mas, se somos mil ou mais a circular por aí como clones: mesma roupa, mesmos hábitos, mesmas falas, aí, sei qual o prazer, qual o gozo da coisa – qual “rumo” estou tomando no negócio, duvida? Então pegue esses fenômenos migratórios que observamos nas estradas, aeroportos e afins, por conta do que chamamos de férias. É de certo modo espantoso, conforme analisou C. Melman:

“Para estar seguro de que se trata de férias, é preciso que você faça como todo mundo, sofrer, passar por engarrafamentos - pela dor, queimar uma grana federal. Quando você ouve o rádio anunciar um domingo infernal nas estradas, ele diz que seu comportamento é perfeitamente inscrito e previsto. Antes mesmo que você aja, sabe-se o que você vai fazer. O grande irmão, Big Brother, está lá, nesse discurso benevolente; ele diz: atenção, domingo, vocês vão todos cair na estrada. Você vive sem surpresa, você não vai voltar três dias mais cedo, nem um dia depois“.

Eis aí: estamos diante de um novo regime de subjetividade (bípedes humanos flu-tu-ando sem gravidade, ávidos por gozar a qualquer preço. Como saber se estou de férias? Simplesmente não se pode mais saber esse tipo de coisas, a menos que se esteja embu-tido no que a cole-ti-vida-de pensa que sabe e ou pratica.

Vassum Crisso

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Aos “a-dor-a-dores” – experimentalistas infatigáveis:

Aos “a-dor-a-dores” – experimentalistas infatigáveis:


A humanidade sofre menos por maldade e duplicidade do que por indolência e maus-entendidos. Goethe

Deus é Abbá, Pai/Mãe de ternura infinita e de perdão incondicional; um Deus que se preocupa com o ser humano e com o nosso bem e não com sua glória; um Deus absolutamente empenhado em nossa realização plena.

A glória de Deus somos nós - a humanidade inteira. A glória de Deus não tem nada a ver com bajulação. Deus não sofre com crise de identidade. Quem quiser deixar Deus feliz deve estender a mão aos necessitados.

Vassum Crisso

Ouse questionar!

Ouse questionar!
Por Miguel Garcia


Se todos possuem o pleno direito de pensar livremente, mesmo em matéria religiosa, não podendo sequer conceber-se alguém que renuncie a esse direito, então todos são igualmente possuidores do pleno direito e da plena autoridade de julgar em matéria religiosa e, consequentemente, de a explicarem e interpretarem para si próprios. (ESPINOSA, 2003).

Acontece que a verdade é, às vezes, para todos nós seres humanos, o que menos queremos ouvir, principalmente com relação aos nossos princípios religiosos, pois o nosso ego aflora... ninguém quer ser humilde o bastante para reconhecer os seus erros. (CHAVES, 2001).

De resto, que espécie de Deus seria esse que se revelasse apenas a um povinho minúsculo, que, nesse tempo, não representava sequer 1% da humanidade, deixando na ignorância cerca de 99% do gênero humano? Como podiam essas centenas de milhões de homens, fora e longe de Israel – de cuja existência nem sabem até hoje -, como podiam eles chegar a conhecer Deus através da Bíblia?... E que fez Deus antes do início da Bíblia? - e depois do encerramento da mesma? A Bíblia, como livro escrito, começa uns 15 séculos antes de Cristo, e termina pelo ano 100 depois dele. Ora, poderíamos admitir que, no longuíssimo período anterior ao tempo de Abrão, Isaac e Jacó, Deus nada tenha tido a dizer à humanidade? E que, pelo ano 100 da era cristã, tenha “fechado o expediente”, à guisa de um funcionário público ou outro burocrata do século XX?... Quem admite semelhante Deus é ateu, porque um Deus tão imperfeito e limitado não é Deus nenhum. (ROHDEN, 1995, p. 189)

Bart D. Ehrman, à respeito da inspiração divina em relação ao Novo Testamento:

De que nos vale dizer que a Bíblia é a palavra infalível de Deus se, de fato, não temos as palavras que Deus inspirou de modo infalível, mas apenas as palavras copiadas pelos copistas – algumas vezes corretamente, mas outra (muitas outras!) incorretamente? De que vale dizer que os autógrafos (isto é, os originais) foram inspirados? Nós não temos os originais! O que temos são cópias eivadas de erros, e a vasta maioria delas são centúrias retiradas dos originais e diferentes deles, evidentemente, em milhares de modos. [...]

Vassum Crisso

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O "inferno" está vazio...

O "inferno" está vazio e os "demônios" se revesam apresentando programas "religiosos" na TV!

domingo, 20 de novembro de 2011

Antes do “louvor e a-dor-ação”:

Antes do “louvor e a-dor-ação”: 
(Por Miguel Garcia) 

Pergunte se Deus é amor - se todo o seu ser consiste em amar. Pergunte se a criação é um ato contínuo para a nossa realização e felicidade. Pergunte se como Criador a glória de Deus é a nossa vida; se como Pai/Mãe, a alegria de Deus é ver a nossa. Pergunte se Deus se deleita com nossos êxitos, se é apoiador ou adversário do humano.


(...) Ao Nosso Senhor
Pergunte se Ele produziu nas trevas o esplendor
Se tudo foi criado - o macho, a fêmea, o bicho, a flor
Criado pra adorar o Criador

E se o Criador
Inventou a criatura, por favor,
Se do barro fez alguém com tanto amor
Para amar Nosso Senhor

Não, Nosso Senhor
Não há de ter lançado em movimento terra e céu
Estrelas percorrendo o firmamento em carrossel
Pra circular em torno ao Criador

Ou será que o Deus
Que criou nosso desejo é tão cruel
Mostra os vales onde jorra o leite e o mel
E esses vales são de Deus - Sobre todas as coisas
(De: Chico Buarque & Edu Lobo) 

Antes do “louvor e a-dor-ação”, pergunte à santo Irineu se 
o esplendor de Deus é o homem vivente; se a realização humana é a contemplação Divinal, pergunte... pergunte... 


Vassum Crisso

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

“A voz do povo é a voz de Deus”

 “A voz do povo é a voz de Deus”
(Bem que a intuição clamava... insistia... Miguel Garcia)

... “O povo é depositário da revelação divina... Tem uma espécie de sexto sentido, pelo qual reconhece se as coisas que recebe dos outros são suas ou não. A intuição de fé faz com que ele aceite ou recuse certas doutrinas ou novidades que se propagam; faz com que aceite aquilo em que reconhece uma verbalização ou até uma correção da fé que possui... Ao povo nada se ensina, mas a ele se devolve explicitado e purificado, o que do povo se recebeu.  A vida do povo de Deus é a matriz de todo o conhecimento em torno da fé, e dele também é o juiz. “É duro suportar a demora de Deus”, diz o Eclesiástico. O povo pode ser enganado, facilmente, e levado ao erro, mas nunca é o povo todo nem é por prazo indefinido. A fé e o bom senso reconduzem-no sempre para o bem caminho. O povo não se engana, conforme o ditado “A voz do povo é a voz de Deus”.”  Fonte: Por trás das Palavras – Carlos Mestres  

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Sobre o que “não deveria ser”...

Sobre o que “não deveria ser”...
(Reflexões sobre o mal, ins-pirado no livro: REPENSAR O MAL – A.T. Queiruga)
Por Miguel Garcia

Lendo um dos títulos do genial teólogo Andrés Torres Queiruga (REPENSAR O MAL) – Paulinas Ed., refleti sobre alguns conceitos que agora compartilho com os amigos (as):

Existe o mal padecido e o mal infringido, o da enfermidade e o do crime, o individual e o coletivo, o da catástrofe natural e o da traição do ou ao amigo; o mal de algum modo tolerável, o que parece ter um sentido e o que se mostra irremediavelmente absurdo... Há o mal visto à altura humana e o que intuímos no sofrimento animal ou mesmo nas catástrofes naturais... Tomado em seu sentido mais óbvio e fundamental, o mal é um ‘fenômeno’ antropológico ‘original’. É aquilo que em um dado momento percebemos como o que não deveria ser; é, como dizia Santo Agostinho, “o que causa dano”, acrescentemos: a si mesmo e aos demais. Não necessita ter um conceito preciso para se fazer sentir: “ é antes um nome para o que nos é ameaçador”. Como escreve Ingolf Dalferth: “O caleidoscópio do mal conhece inúmeras variações na vida humana, porém sempre causa dano e destrói vidas de modo insensato e absurdo”. Alias, para ser percebido como problema real, o que é considerado mal nem sequer precisa ser real em si mesmo: no limite, também um mal imaginário pode atormentar e se apresentar como o que não deveria ser. Experiência elementar , fenômeno primário, duro desafio para a humanidade, o mal. “Pode-se negar o mal, porém não o sofrimento” (Georg Buchner). Ainda que o sofrimento não seja o único mal, o realismo da frase corta pela raiz a tentação de evasão teórica.
Para compreender a real seriedade do que está em jogo, basta simplesmente pensarmos que se trate disso ao qual remetem igualmente o choro ainda “sem palavras” – do recém nascido e a busca de remédio para uma ferida ou uma enfermidade; “isso que comove a humanidade diante das grandes catástrofes naturais; “isso” que torna repugnante uma traição ou suscita horror perante a escravidão , o holocausto ou a fome do mundo. O “mal” é, em seu significado mais elementar e em sua mais inegável realidade, aquilo que experimentamos como o que subjetivamente “não queremos” e do que objetivamente pensamos que “não deveria ser”, e que, bem por isso, rejeitamos e procuramos eliminar ou, pelo menos suavizar. ()... Basta uma visita - com olhos, os ouvidos e o coração abertos - a qualquer hospital, sem falar nos horrores de uma guerra, para compreender a terrível seriedade que paira por sobre e penetra tudo o que "não deveria ser": o mal... 

Vassum Crisso

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Sur-presa!

Sur-presa!
Miguel Garcia

Alguns imprevistos podem provocar dores galopantes num ser apaixonado, sobretudo, se tal criatura cultivou a idéia de que, para ser surpreendente, um evento ou circunstancia deva ser breve. Mas como nomear uma surpresa sem fim? Qual o nome de algo que nos impede de voltar ao normal? O que nos faz querer viajar no tempo, testemunhar acontecimentos indesejáveis - revisitar em pensamento?  Como escapar de uma flecha que ameaça nos congelar definitivamente na perplexidade?

Vassum Crisso

Efeito contrário

Efeito contrário
Miguel Garcia

O corpo apertado numa calça jeans de cintura baixa, o rosto salpicado de pó. Ao querer negar demais o tempo, ela o havia precipitado. Maquiagem pesada e alisamentos químicos substituíram o belo rosto de uma mulher de 40 anos de idade por uma máscara sem tempo.

Vassum Crisso

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Se os Tubarões Fossem Homens

Se os Tubarões Fossem Homens
Parábola de Bertold Brecht e algo mais...

O bicharada humanal permanece aquém dos seus pares 'menos evoluídos', posto que não existe competição (no sentido predatório do termo) entre os seres vivos não-humanos. Miguel Garcia.

“Quando o homem chama determinados animais de predadores está antropomorfizando-os, ou seja, projetando neles uma condição que lhe é peculiar. Como não competem entre si, os sistemas vivos não-humanos não "ditam" uns aos outros normas de conduta. Mantidas as condições naturais, entre eles não há comandos autoritários nem obediência irrestrita. Os seres vivos são sistemas autônomos, que determinam o seu comportamento a partir de seus próprios referenciais, isto é, a partir de como interpretam as influências que recebem do meio. Se tal não acontecesse, seriam sistemas sujeitados, obedientes a determinações vindas de fora.  
No caso das sociedades humanas, em que as condições não são apenas as da natureza, é isso que o marketing e outros meios de condicionamento de massa tentam (e em boa parte dos casos conseguem) fazer com populações inteiras. É, portanto, possível a produção em grande escala de indivíduos sujeitados, embora para isso os estímulos condicionadores precisem ser amplos e ininterruptos.  
É o que o psicanalista Félix Guattari chama de produção de subjetividade. Com essa noção ele introduz a idéia de uma subjetividade industrial, fabricada, moldada pelo capitalismo. Trata-se da introdução de gigantescos sistemas de formatação e condicionamento, por meio dos quais o capital (hoje em sua fase de triunfalismo) constrói e mantém o seu imenso mercado de poder. É disso mesmo que se trata: transformar em sujeitado um sujeito natural. Ou seja, implantar e levar adiante a violência sobre a característica mais básica dos sistemas vivos — a autopoiese."  Humberto Mariotti                  


Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentis com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não morressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.
Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.
Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.
Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões. A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali.
Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A E-terna-idade no momento

A E-terna-idade no momento
Miguel Garcia 

A vida não deve ser desprezada.
Ninguém será redimido no além. 
Não haverá recompensas celestes.
Eternidade não é uma série ininterrupta de instantes, 
nem medida arbitrária da duração das coisas. 
Eternidade não tem nada a ver com o tempo: 
eternidade é dimensão do aqui e agora; 
eliminada, se pensarmos em categorias temporais. 
Viva agora, ou em tempo algum, a e-terna-idade no momento.

Vassum Crisso

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Fugitiv-idades!

Fugitiv-idades!
Por Miguel Garcia

O que seria neutro e funda-mental na existência humana, senão a miséria imposta a todas as gentes e o pesado jugo que carregam os filhos de ‘Adão’, desde o dia em que saem do ventre das origens fontes, até o regresso ao seio da mãe de todos: os seus cuidados, sobressaltos do coração, a apreensão de esperar, o dia em que tudo se finda; desde o que está sentado sobre um trono de glória até aquele que jaz abatido na terra e na cinza; desde aquele que veste púrpura e cinge a coroa ao que está vestido de estopa, tudo é furor, inveja, inquietação, perplexidade, terror de morte, ressentimentos e contendas? E até na hora de repousar no leito, o sono da noite irá  perturbar o espírito... Por pouco tempo - um instante, goza a paz e, logo, em sombras se afadiga como de dia, como um fugitivo tentando escapar aos seus perseguidores. No momento de se por a salvo, acorda e todo se maravilha por ser vão o seu temor. 

Adaptado do texto do Eclesiastes - Bíblia Sagrada.

Vassum Crisso

sábado, 24 de setembro de 2011

O Bicho

 O Bicho
(Adaptado do poema de Manuel Bandeira)

Vi ontem um bicho
Na imundície do ‘pátio’
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era uma pastora negra e missionária.

Vassum Crisso

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Melo dos nega-dos

Melo dos Nega-dos
Adaptado da letra: Mil Perdões - Chico Buarque

Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz
Te perdôo
Por pedires perdão (não reconhecer-me como legítimo outro em convivência, por imaginar-te deveras piedoso ao pedires perdão, fazendo-te superior a mim, tu: “a mais humilde das criaturas terrestres”. Por ufanar-te e bravatear de forma camuflada, polida e tor-tu-r-ante).
Por me amares demais: ‘projetares tuas expectativas descabidas por sobre mim – fazer-me tua tela vazia;  por essa forma de egoísmo disfarçado que insistes em chamar de amor, por super-inflacionar minha pessoa, negando-me no processo, perdendo a ti e a mim no afã de empreender teu projeto em causa própria - “heroísmo cósmico”.


Te perdôo
Te perdôo por ligares
Pra todos os lugares
De onde eu vim
Te perdôo
Por ergueres a mão (de tua tácita indiferença)

Por bateres em mim (das trincheiras - lugares altos - púlpito)
Te perdôo
Quando anseio pelo instante de sair
E rodar exuberante
E me perder de ti (da farsa esdrúxula e maquinal – ri-tu-ais, cerimoniais e lit-urgias vazias e causticantes)
Te perdôo
Por quereres me ver
Aprendendo a mentir (te mentir, te mentir)
Te perdôo
Por contares minhas horas
Nas minhas demoras por aí
Te perdôo
Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair


Adapt-ação: Miguel Garcia - Vassum Crisso

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Quer ser "conhecido" ("a")?


Quer ser "conhecido" ("a")?
Miguel Garcia

Segundo o que pude assimilar de Moltmann e Kant, no pensamento do mundo moderno, conhecer alguma coisa significa dominar essa coisa - ter poder sobre a mesma – apoderar-se dela. Compreendi que pelo conhecimento científico, adquirimos poder sobre os objetos e, deles nos apropriamos. Compreendi que o pensamento moderno operacionalizou a razão e, que esta última, só conhece “o que considera 'fruto' de seus projetos particulares” - o que ela mesma produz; que ela (a razão), tornou-se um órgão produtivo, deixando de ser um órgão perceptivo que constrói seu próprio mundo e, só se reconhece a si mesma em seus produtos. 
Cabe considerar que, conhecer em algumas línguas europeias, equivale a capturar: compreendemos algo quando o “temos em nossa captura”. Tendo capturado algo, fazemos disso nossa propriedade. De posse desse algo, dele 'podemos fazer o que bem entendemos'. O interesse que orienta o conhecimento da razão moderna deve ser designado como conquista e dominação.
As idéias dos pensadores acima citados, por fim, levaram-me a perceber que: conhecer para os filósofos gregos e para os antigos padres da igreja católica, significava outra coisa: significava conhecer pela admiração, desse modo, pelo conhecimento poder-se-ia participar da vida de outra pessoa. O ato de conhecer um ‘objeto’ que se apresenta, não o transforma em propriedade do conhecedor, mas ao contrário: por força da simpatia, transforma o conhecedor em elemento participativo do conhecido.  O conhecimento funda comunhão. Por isso, o conhecimento tem o mesmo alcance que o amor, a simpatia e a participação. Posto isto, fica claro que necessitamos ingressar num processo de profunda transformação do conceito moderno da razão: do domínio para a comunhão; da conquista para a participação; do produzir para o perceber. Nosso desafio é o de ver liberada a razão que hoje mofa encarcerada em automatismos desumanizantes, o que resulta em seríssimas distorções do real e abandono de qualquer suavidade e delicadeza possíveis.
Quer ser "conhecido" ("a")?

Vassum Crisso

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Porque não uso mais Play Backs


Porque não uso mais Play Backs
Miguel garcia

É amigos... o mundo moderno tornou-se pragmático: o que não pode converter-se em fato não tem valor. So-mente a prática confirma uma teoria, pois a realidade passou a ser o mundo histórico da humanidade. O próprio homem entende a si mesmo como um ser histórico. Unicamente na práxis da histórica é que ele encontra a correspondência possível entre ser a consciência. Para ele, a verdade ocorre apenas no fato verificável. Por isso, para o homem moderno, a verdade deve ser sempre concreta. E isso para ele significa: ela deve ser feita. É a moderna passagem da teoria da verdade para a verdade prática. Mas a ‘verdade’ que em determinadas circunstancias não pode ser tornada ‘real’ deverá ser por isso menosprezada e rejeitada, tal como minhas tentativas de utilizar Plays Backs?


Vassum Crisso

domingo, 14 de agosto de 2011

DI-VERSOS - MIGUEL GARCIA

DI-VERSOS 
Miguel Garcia
(Crônicas, prosa poética, poemas e disson-âncias)

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