terça-feira, 12 de junho de 2012

Examinemos nossas orações de petições – Parte 2 - Orar ao Deus de Jesus

Examinemos nossas orações de petições – Parte 2
Orar ao Deus de Jesus

O brilhante e sensível teólogo Andrés Torres Queiruga, a quem tive o imenso prazer de conhecer pessoalmente meses atrás, nos ‘exorta’ e ou convoca/con-vida a RECONFIGURAR A ORAÇÃO, de modo que não só respeitemos o amor infinito e infinitamente gratuito do Deus de Jesus, mas também ajudemos a cultivar sua consciência(divina) na humanidade. Consideremos a questão nas palavras do próprio pensador:
(...) Insistir na importância da oração na vida religiosa seria chover no molhado. Tampouco é preciso salientar a íntima dialética entre a: “dize-me como é tua oração, e te direi como é teu Deus; dize-me como é teu Deus, e te direi como é tua oração”.  E, contudo, dificilmente se pode negar que hoje é de extrema urgência revisar muito a fundo o modo de orar, para que seja adequado à nova imagem de Deus exigida pela sensibilidade atual.
Não se trata, evidentemente, de “acomodar-se à figura desde mundo”,  mas absolutamente o contrário: de aproveitar a chamada dos “sinais dos tempos” como uma profecia que nos chega do melhor da evolução cultural e de sua repercussão na teologia, para realizar uma autêntica conversão. Se efetivamente se realiza, não se torna difícil descobrir que aquilo que é mais novo na realidade nos remete ao mais original e genuíno da experiência evangélica.
Quando os discípulos começaram a perceber a novidade que Jesus introduzia na imagem de Deus, compreenderam a necessidade de mudar seu modo de orar: “Senhor, ensina-nos a orar, como João o ensinou a seus discípulos” (Luc 11, 1). E Jesus ensinou-lhes a dizer: Abbá (pai, a rigor papai, uma vez que se trata de idêntica onomatopeia infantil). Porém, esse ensinamento, aparentemente tão simples, é tão sério e delicado que continuamente corremos o risco de obscurecê-lo, carregando-o com nossos medos e deformando-o com nossos fantasmas: Deus nos escapa para o além, para o céu, e acabamos por vê-lo distante, dominador e justiceiro.
Por essa razão, necessitamos redescobrir constantemente esse rosto que Jesus procurou nos revelar. Nesse sentido, a mudança cultural, tanto pela contribuição positiva dos estudos bíblicos como pela dura purificação negativa a que nos obrigou a crítica da religião, constitui uma oportunidade excelente. A resistência à mudança, ao contrário, a despeito da fidelidade à letra e apesar, ainda, de toda a boa vontade, corre o risco de transforma-se em uma terrível semeadura de ateísmo.
(...) Trata-se de afirmações fortes... Entretanto, talvez algumas simples referências possam indicar a profunda verdade para a qual apontam. O fio condutor é o seguinte:
Se “Deus é amor” (1Jo 4,8.16), ou seja, se todo o seu ser consiste em amar, fica óbvio que nos criou – e continua criando-nos e sustentando-nos, pois a criação é uma ato contínuo – para nossa realização e nossa felicidade (não, portanto, “para servi-lo”, nem “para sua glória”, ao menos no sentido normal que todos atribuem a essas palavras). Como criador, sua glória é nossa vida (Ireneu); como pai/mãe, sua alegria é ver nossa alegria, e se deleita com nossos êxitos e realizações. Por isso, na história da salvação – apesar de tantos erros terríveis, e pior, erros por nós cometidos – aprendemos que toda sua ação na comunidade é dirigida única e exclusivamente a ajudar a salvar.
Em Jesus, compreendemos finalmente que nem sequer compete a nossa expectativa, mas que seu amor nos precede desde sempre: “Ninguém pode vir a mim se o meu Pai que o enviou não atrair” (Jo 6,44); e que nos precede sem condições: “sobre os maus e os bons”, “sobre os justos e injustos” (Mt 5,45). Daí o chamado de Jesus à confiança total, pois “até os vossos cabelos estão todos contados” (Lc 12,7).
É claro que a um Deus assim não necessitamos pedir nada, porque já nos está dando tudo. O que necessitamos é justamente o contrário: deixar-nos convencer, ajudar e salvar; confiar em que, apesar das aparências, ele está sempre conosco, fazendo todo o possível por nosso bem e nossa felicidade. Se algo falha, não é nunca de sua parte, porque o que se opõe a nosso bem opõe-se identicamente a seu amor por nós (e com maior força, se é possível: também os pais humanos vivem antes e com maior  intensidade os males de seus filhos). Falhará a realidade que, como finita, tem sentenças inevitáveis; e falharemos nós, que não compreendemos, resistimos ou nos negamos às coisas.
Em última instância, quando algo que pode ter solução não a recebe, é porque nós não colaboramos com Deus. Então sim cabe falar em petição; porém de Deus para nós: para que nos deixemos salvar, para que acolhamos seu chamado e seu impulso em favor dos irmãos necessitados. Não é esse o sentido mais genuíno e, no fundo, único do “mandamento” do amor?  Texto de A. Torrres Queiruga – Pelo Deus do mundo no mundo de Deus – Edições Loyola
Continua...
Vassum Crisso


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Examinemos nossas orações de petições:

(...)Examinemos nossas orações de petições:

 Prescindamos, para tanto, das intenções subjetivas, examinando-as no que elas dizem em e por si mesmas. Partamos de um exemplo entre os milhões que se ouvem em qualquer domingo em nossas igrejas:

- Para que as crianças da África não morram de fome, roguemos ao Senhor.

- Senhor, escuta e tem piedade.

O que estamos implicando objetivamente aí e, portanto, gravando em nosso inconsciente individual e propagando no imaginário coletivo?

Procedendo com objetividade e falando cruamente (sempre com a ressalva de que não nos referimos às intenções subjetivas e conscientes), não há porque negar implicações gravíssimas. De um lado, o teor dessas petições implica: 1) que nós percebemos a necessidade e tomamos a iniciativa: somos bons e procuramos convencer a Deus para que também ele o seja; 2) que em troca, Deus se mantém passivo, ou pelo menos não suficientemente ativo e generoso até que nós o convençamos, se formos capazes. Por outro lado, e isto é muito mais grave: 3) que se no domingo que seguinte as crianças africanas continuam a morrer de fome, a lógica mais elementar impõe a consequência: Deus “não ouviu nem teve piedade”. Finalmente, e muitíssimo mais grave ainda: 4) que Deus poderia, se quisesse, solucionar o problema da fome e por conseguinte, também o das enfermidades e o dos acidentes, e o dos assassinatos e o das guerras...; porém, ao que parece, não quer fazê-lo.

Tomamos consciência do que significa tudo isso? Sem pretendê-lo em nossa intenção consciente, certamente porém implicando-o de modo necessário na objetividade do que decidimos, estamos projetando uma imagem monstruosa de Deus. Não apenas ferimos a ternura infinita de um amor que não pensa mais do que em ajudar e salvar, mas acabamos por dizer implicitamente algo que não nos atreveríamos a dizer nem do mais infame dos humanos. Porque quem, se estivesse a seu alcance, duvidaria em eliminar do mundo tanto mal e tanto mal e tanto horror? Será Deus o único capaz de tão inconcebível monstruosidade?...

Um texto de Andrés Torres Queiruga - teólogo e escritor galego. Realizou estudos no seminário de Santiago de Compostela e na Universidade de Comillas, passou dois anos em Roma realizando a sua tese. Foi professor de Teologia no Instituto Teolóxico compostelá e de Filosofia da Religião na Universidade de Santiago de Compostela. É membro da Real Academia Galega e do Consello da Cultura Galega; foi um dos fundadores e diretor da revista Encrucillada - PELO DEUS DO MUNDO NO MUNDO DE DEUS. Edições Loyola -

Continua...
Vassum Crisso











sábado, 9 de junho de 2012

Quadrado redondo:

Quadrado redondo
Miguel Garcia

"Como seria simples se pudéssemos satisfazer os anelos de toda a condição humana, em segurança, no nosso quarto de dormir! Nas palavras de Rank, queremos que o parceiro seja como Deus, onipotente para apoiar nossos desejos e abarcando tudo para podermos fundir nossos desejos nele - mas isso é impossível." Backer

Vassum Crisso

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Quando meu olhar encontra o Teu


Quando meu olhar encontra o Teu 
(Oração da tarde)
Miguel Garcia


Pai bondoso (graça minha),
Quando meu olhar encontra o Teu, sinto-me tão seguro e calmo...
É quando a penumbra reinante se dissipa e posso enxergar um mundo cheio das Tuas possibilidades.

Mãe misericordiosa (esperança minha),
Quando meu olhar encontra o Teu,
Jorra luz nas horas, nos dias... É quando a vida me parece mais bela e suportável; é quando prazer e gratidão já não cabem em palavras... É quando enterneço ante o milagre do Criador fitando a criatura, amor-osamente...

Pai maternal (amparo),
Quando meu olhar encontra o Teu,
É quando desejo pausa urgente, pois, sinto-me acanhado;
É quando careço de uma distensão da emoção, pois é vida demais, conforto demais, alegria demais pra mim!... É quando Tua paz me alcança, acaricia e convida a pertencer...

Mãe paternal (meu abrigo),
Quando meu olhar encontra o Teu,
É quando almejo descanso – ancorar nos Teus braços...

Pai e Mãe de ternura infinita,
Vejo um brilho de emoções e afetos raros...
É como quando a luz solar fita  um riacho - atravessando... É como quando o meu olhar encontra o Teu e sou perpassado por claridade benfazeja, Beleza, meiguice e suavidade Tuas: quando o meu olhar encontra o Teu... Amém. 

Vassum Crisso

terça-feira, 29 de maio de 2012

Sens-ação in-evitável - texto do Livro DI-VERSOS


Sens-ação in-evitável - 
Texto do Livro DI-VERSOS
 Miguel Garcia

Ai mãe, cadê teu rosto sereno, sombra de nuvens em teus olhos cinzentos como o mar?
Cadê tuas idéias singulares?
Por que fugistes de mim por alameda de eventos tão súbitos e dolorosos?

Fitei a vida inteira nos pontos do existir que abrigam memórias tuas. Cadê o conforto que nutria minha alma - santa delícia de tua presença benfazeja e revigorante?

Serei capaz de alijar em palavras isso que sufoca, tal consolo me alcançaria?
Ai mãe... Tenho considerado a vida totalmente inútil e sem sentido. Que solidão torturante!

Cadê a mulher que compartilhava meus segredos – sonhos, desejos, que me alojava em si?

Tédio doloroso - vazio interior é tua ausência aqui - tudo vira um deserto, um deserto horrendo, assolado por tempestades de melancolia e tristeza a-brasa-doras.

A vida parece girar tão rápido agora que você partiu... Chego ao ponto de nada mais desejar, a não ser, precipitar-me direta-mente no insondável, pois, quem se abandona não se prende à vida.

Ondas de um mar invisível rasgando o tempo... Oh! Lembranças entaladas na garganta: agarro-me a vós como alguém que sente o abismo sob os pés: cadê a mulher que me amava – minha Deusa - heroína, minha fonte, eu mesmo?

Que horror ser lançado ao caos como que por um alçapão aberto no caminho plano da existência, que horror! O coração bate em falso, o real despenca como pedra que cai do peitoril: cadê aquele olhar maternal, a claridade daquelas emoções? Cadê meu mar calmo, brilhando magnífico e azul, as paisagens delir-antes, as mil flores, o brilho de emoção que emudecia meu olhar?

Sei que toda dor é covarde. O sangue congelou em minhas veias, não nego. Sinto-me exaurido, esmagado, chicoteado por ironias – árvore atingida por um raio, desmaiado, sem alento, morto: será que um dia emergiremos juntos desse túmulo mortal? Ai mãe, cadê minha esperança?

Vassum Crisso

domingo, 27 de maio de 2012

O que é Fundamentalismo?

O que é Fundamentalismo?
Leonardo Boff

...Tentemos esclarecer o leitor o que seja fundamentalismo e o risco que representa para a pacífica convivência humana e para o futuro da humanidade.
...Intolerância - Não é uma doutrina. Mas uma forma de interpretar e viver a doutrina. É a atitude daquele que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista. Sendo assim, imediatamente surge um problema de graves conseqüências: quem se sente portador de uma verdade absoluta não pode tolerar outra verdade e seu destino é a intolerância. E a intolerância gera o desprezo do outro e o desprezo, a agressividade e a agressividade, a guerra contra o erro a ser combatido e exterminado. Irrompem guerras religiosas, violentíssimas, com incontáveis vítimas.
Não há nenhuma religião mais guerreira que a tradição dos filhos de Abraão: judeus, cristãos e muçulmanos. Cada qual vive da convicção tribalista de ser povo escolhido e portador exclusivo da revelação do Deus único e verdadeiro. Essa fé deve ser difundida em todo o mundo, em geral numa articulação com o poder colonialista e imperial, como historicamente ocorreu na América Latina, África e Ásia.
...É próprio do fundamentalismo responder terror com terror, pois se trata de conferir vitória à única verdade e ao bem e destruir a falsa ''verdade'' e o mal. Foi o que ambos, Bush e Bin Laden fizeram. Enquanto predominarem tais fundamentalismos seremos condenados à intolerância, à violência e à guerra e, no termo, à ameaça de dizimação da biosfera.
...Todos os fundamentalismos, não obstante o variado matiz, possuem as mesmas constantes. Trata-se sempre de um sistema fechado, feito de claro e de escuro, inimigo de toda diferenciação e cego face à lógica do arco-íris, em que a pluralidade convive com a unidade. Cada verdade se encontra indissoluvelmente concatenada à outra. Questionada uma, desaba todo o edifício. Daí a intolerância e a lógica linear. Daí sua força de atração para espíritos sedentos de orientações claras e de contornos precisos. Para o fundamentalista militante a morte é doce, pois transporta o mártir diretamente ao seio materno de ''Deus'', enquanto a vida é vivida como oportunidade de cumprir a missão divina de converter ou exterminar os infiéis. O grupo é o lar da identidade, o porto da plena segurança e a confirmação de estar do lado certo.
Como enfrentar os fundamentalistas? Estes são praticamente inacessíveis à argumentação racional. Nem por isso deve-se renunciar ao diálogo, à tolerância e o uso da razão para mostrar as contradições internas, subjacentes ao discurso e à prática fundamentalista.
...Estamos numa encruzilhada da história humana. Ou criar-se-ão relações multipolares de poder, eqüitativas e inclusivas com pesados investimentos na qualidade total da vida para que todos possam comer, morar com mínima dignidade e apropriar-se de cultura com a qual se possam comunicar com seus semelhantes, preservando a integridade e beleza da natureza ou iremos ao encontro do pior, quem sabe, ao mesmo destino dos dinossauros. Armas para isso existem e sobra demência. Faz-se urgente mais sabedoria que poder e mais espiritualidade que acúmulo de bens matérias. Então os povos poderão se abraçar como irmãos na mesma Casa Comum, a Terra, e irradiaremos como filhos da alegria e não como condenados ao vale de lágrimas.
Leonardo Boff, 1938, teólogo e escritor,autor de A oração de São Francisco: uma mensagem de paz para o mundo atual (Sextante)

Para ler o Artigo completo acesse: http://www.cefetsp.br/edu/eso/guerrairaque/fundamentalismoboff.html

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Para quem iremos nós?


Para quem iremos nós?
Miguel Garcia

Para quem iremos nós se não desejamos ancorar e delimitar nossas vidas com aléns que estejam logo à mão, pouco adiante, ou forjados por nós mesmos?

Para quem iremos nós se a intuição nos con-vida a ingressar no além (afora; a outra vida) da religião?

Para quem iremos nós se o homem deve cultivar a passividade da renúncia a si mesmo aos mais altos poderes, não importando quão difícil isso seja, se qualquer coisa abaixo disso seria menos que o pleno desenvolvimento da pessoa, ainda que lhe pareça fraqueza e conciliação aos melhores pensadores?

Para quem iremos nós se não somos capazes de fechar os olhos à necessidade profunda da pessoa humana, se afirmamos a necessidade de uma ideologia realmente religiosa, inerente à natureza humanal e capaz de satisfazer a necessidade básica de qualquer gênero de vida social?

Para quem iremos nós se já que não cremos que a entrega a Deus seja masoquismo, que esvaziar-se de si mesmo seja degradante, mas ao contrário disso: se cremos que o ponto mais distante que o eu pode alcançar, que a máxima idealização acessível ao homem seja exatamente esse “abandonar-se” em Deus – expansão amorosa do Ágape – verdadeira realização criativa?

Para quem iremos nós se apenas desse modo, se só rendendo-se à grandeza da natureza no mais elevado e menos fetichizado nível é que pode o homem conquistar a morte?

Para quem iremos nós se a confirmação heroica da vida de cada um fica além do sexo, do outro, da religião particular, se toda essa lista de coisas não passa de arre-medos que atraem o homem para baixo, ou o enclausuram , deixando-o despedaçado pela ambiguidade – incerteza; dúvida?

Para quem iremos nós se o homem sente-se inferior precisamente por carecer dos “verdadeiros valores interiores na personalidade”, quando é meramente um reflexo de algo vizinho dele (sombra de sombras) e não possui um giroscópio firme em seu íntimo?

Para quem iremos nós se, a fim de conseguir um centro, o homem tem de olhar para além do tu, além dos consolos dos outros e das coisas deste mundo?

Para quem iremos nós se o homem é um ser teológico e não biológico?

Para quem iremos nós se nossa cultura pública e privada, sobretudo a das elites, se dissolve em corrupção, cocaína, apatia politica, consumo e filosofias-de-retoques-e-maquiagens?

Para quem iremos nós se o que se oferece em troca da mensagem e proposta de vida crística é uma cervejinha no sábado à tarde, um grito de gol a cada dois anos , três dias de desfiles nas avenidas, ou ainda o culto ao próprio umbigo, às lágrimas e suspiros românticos, a obsessiva pergunta “quem pode ter orgasmos com o quê e com quem”, ou, finalmente, o sonho da semana de compras em Miami?

Para quem iremos nós se só Tu tens as palavras de vida e-terna, Vida?

Vassum Crisso

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Todas as coisas são como o amor


Todas as coisas são como o amor.
Miguel Garcia

Eis a chave para melhor compreender o que se passa com a vida "religiosa" atual:
(...)Faltava abandonar a velha escola...
Fazer da minha vida sempre
O meu passeio público
E ao mesmo tempo fazer dela
O meu caminho só
Único

Só falta ...
Iluminar a vida
Já que a morte cai do azul...
Me dá um beijo, então
Aperta a minha mão
Tolice é viver a vida
Assim, sem aventura...

Deixa ser
Pelo coração
Se é loucura então
Melhor não ter razão" (“Teólogo” Lulu Santos)

Em outras palavras: a coisa é boa exatamente porque 'endoidece' - embute - produz êxtase. É como no estado de apaixonamento (divinização de amores humanos): a pessoa fica fora de si e, no entanto, é isso que à "liberta", que "salva" da condição de fantasma torturado; que "redime";  é isso que adia a loucura do hospício, a disfunção cabal e sensação de inutilidade (falta de sentido), o que engendra expectação de descarte, enquanto a sucção final não vem. Parafraseando Goethe: todas as coisas são como o amor.

Vassum Crisso

domingo, 6 de maio de 2012

Oração ao Deus que ama porque sim



Oração ao Deus que ama porque sim
Miguel Garcia

Nossa inspiração, confiança e promotor da vida,
Pai-e-Mãe de puro amor e bondade infinita,
Deus de toda graça, livramentos e alegria; nosso “cúmplice”,
apoio, ajuda na dura tarefa da vida; Deus nosso, alívio e libertação. 
Amor que salva, refugio seguro, Criador a quem “pedimos” auxilio, Mãe que agasalha ternamente e alimenta com delicadeza e amorosidade, porque sim.
Mão estendida para nosso exclusivo interesse és Tu: causamos danos a nós mesmos quando não acolhemos Teu amparo e proteção; preparamos para nós trágica armadilha, tornando mais aguda a dureza da vida, quando ilusoriamente cremos estar tornando-a mais fácil.
Deus que sofre em seu amor ao ver que aquele que é amado se recusa a ser feliz.  
Deus que não castiga de maneira alguma, que tão somente quer presentear-nos com um dom, criar felicidade. Castigo seria recusarmos esse dom, privando-nos da felicidade e abraçando uma existência “infernal”, um ‘nada’, um vazio – negatividade - solidão.
Jesus, dom personificado; amado Salvador; perdão sem limite, defensor do pobre, consolo na angústia, liberdade na opressão, amor-ânimo sempre presente - Emanuel – Deus ao nosso lado, perpassando a realidade toda, irrompendo como transparência de Eternidade, apoio e sustento íntimo: bendito seja Teu santo nome, amém!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Sobre rostos belos e trans-parentes de Eternidade

Sobre rostos belos e trans-parentes de Eternidade
Miguel Garcia

Concordo com Beker quanto à afirmação que não há uma resposta garantida para o temeroso mistério do rosto humano que se examina ao espelho.
Um rosto pode ter aparencia divinal e miraculosa, contudo, meu eu menino não dispõe do poder sobrenatural para saber o que ele significa, não dispõe do vigor sobre-humano responsável pelo aparecimento de tais realidades cativantes. E é aí que desfaleço em espírito, sentindo-me insuportavelmente “oprimido” (o-pressão de beleza) por tamanho peso. Afundo sobre um oblívio de beleza, sempre que atingido pela misteriosidade que um rosto adorável irradia.
Uma criança derrotada pelo caráter esmagador da realidade e da experiência me habita. Perco a serenidade necessária em um mundo não-instintal. Jamais abandonei o êxtase. Jamais superei o temor respeitoso, deixando para trás o assombro e o "terror" ante o irresistivelmente Belo  – o fascínio por contornos mágicos. Jamais fui capaz de ações autoconfiantes e descontraídas; não naturalizei meu mundo, ou o contrário disso: jamais desnaturalizei meus ambi-entes, falsificando-os com a “verdade” escurecida, o desespero da condição básica humana escondido. Vislumbro em meus sonhos noturnos e nas fobias e neuroses diurnas, o verdadeiro horrível, ou o contrário disso, se é que não flutuo, por falta de “gravidade”.
Jamais fui prudente o bastante ou construtor de diques e sangradouros, capazes de impedir, a tempo, devastações que se erguem contra paisagens-internas-psicológicas.
Paixão é torrente que se agiganta em grandes ondas, avança rugindo e ameaça as almas mar-av-ilhadas. Jamais evitei esse desamparo, edificando muralhas protetoras intransponíveis.
Milagre primário é o rosto humano. Paralisa a pessoa por seu aspecto esplendoroso, se esta cede ante ele como a coisa fantástica que de fato é. Jamais reprimi, permanentemente, uma sensação arrebatadora e miraculosa, de modo a poder funcionar com equanimidade, usando rostos e corpos para fins de rotina.
Como colher o fulgor de uma estrela e armazená-lo em si, sem o custo de sérios prejuízos? Como olhar de frente uma face sublime e vencer o temor do real, da intensa concentração de maravilha e poder naturais; o pavor de ser esmagado pelo universo tal como é ao ser essa verdade do universo focalizada num rosto humano?
Penso que encarar certas pessoas seja comparável à fatalidade inevitável de ser consumido pela perfeição numa fração de segundo - eva-porar, ao obedecer a sedução irresistível de um "canto" armadilhoso. Encarar certas belezas se faria arriscado como voltar-se e fixar o olhar numa fábula viva e radiante; como fitar a formosura de uma corporalidade sublime - fatal como contemplar, a olhos nus, as feições de uma Vênus encarnada...
Quem, em sã consciência, poderia negar a miraculosidade de um rosto belo e trans-parente de Eternidade?

Vassum Crisso

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Negra é a cor da minha pele

Negra é a cor da minha pele
Eduardo de Oliveira


Nada fui! Nada sou! Nada serei,
Só porque negra é a cor da minha pele!
Mesmo que tudo eu dê, nada terei
nesta Sodoma, em que a ambição a impele!

Diante destes racistas é que eu hei
de amar o bem, antes que a dor revele
que, por ser negro, ainda sustentarei
seu império que, a tempos, me repele!

Eu represento a espécie sofredora
de indivíduos anônimos, de párias,
atores de uma história aterradora

Pobre do negro, pobre de quem sonha
como eu, que dentre as almas solitárias
somente pude ser a mais tristonha...

Negra é a cor da minha pele, in Túnica de ébano

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O que é salvação?

O que é salvação?
Miguel Garcia

Salvação é livrar-se das estratégias infantis utilizadas para manter a autoestima face ao pânico de uma situação real: é negar-se a abraçar o terror. As técnicas de mentir para si mesmo convertem-se em armaduras que conservam a pessoa encarcerada. As defesas de que imaginamos carecer para nos impulsionar confiantemente no existir e, a tentativa de manter elevada a autoestima, tornam-se armadilhas para vida inteira.

Salvação é demolir o que for necessário no afã de encontrar si mesmo. É lançar fora todos os empréstimos culturais e enfrentar a tempestade da vida, nu.

Salvação é não alimentar ilusões a respeito do anseio por liberdade. Não acomodar-se na prisão de defesas de caráter que, embora vital (o caráter), não passa de mentira.

Salvação é não mimetizar aqueles presos que se sentem confortáveis em rotinas limitadas e protegidas, uma vez que a ideia de liberdade condicional no amplo mundo de probabilidades, acidentes e escolhas, aterroriza os tais institucionalizados. Na prisão das máscaras que nos obrigamos a vestir, podemos fingir e achar que de fato somos nossas representações, que o mundo é controlável, que há uma razão para vida, uma justificativa pronta para a ação de cada um de nós. Podemos “viver” automática e displicentemente no desespero de garantir ao menos um quinhão mínimo das grandiloquências culturais programadas – daquilo que alguns estudiosos chamam de heroísmo da prisão: a presunção dos que “estão por dentro e que sabem das coisas”.

Salvação é negar a si mesmo, tomar certa carga de consciência perturbadora a respeito do real, sobre os próprios ombros (cruz) e seguir de um modo sacrificial (responsável), vida à dentro-e-à-fora.

Salvação é ter coragem de ver o mundo como ele é de fato e de verdade, é fitar a situação criatural sem distorcê-la com falsas expectativas, mesmo que oriundas de tradições e dogmas religiosos.

Salvação é não negar a condição animal, o contrário disso é terror.

Salvação é admitir ser uma criatura que defeca, é con-vida-r o oceano primevo de angústia animal para inundar abismos mentais. 

Salvação é compreender que essa angústia seria resultante da percepção da verdade quanto à situação de cada pessoa, seria mais que angústia animal, seria angústia humanal: aquela que decorre do paradoxo de sermos membros da humanidade e, ao mesmo tempo, primos dos primatas conscientes da inevitável finitude.

Salvação passa por ser capaz de lidar com o significado de ser um bípede consciente; essa ideia ridícula, senão monstruosa de saber-se saco de estrume ambulante, comida para vermes, cadáver adiado.

Salvação passa por esse nível de compreensão aterroriz-ante: ter emergido do “nada”, ter um nome, consciência do próprio eu, sentimentos íntimos profundos, um cruciante anelo interior pela vida e pela auto-expressão e, apesar de tudo isso, morrer.

Salvação é aprender a enfrentar a própria impotência natural e a ideia da morte.

Salvação é “morrer” para “nascer” verdadeiramente, é provar o gosto da morte como se ela estivesse presente.

Salvação é fazer uma passagem ao “nada”, é chegar ao ponto crítico, é virar numa esquina dentro de si mesmo: algo tem de ceder!

Salvação é quebrar a resistência inata em seu interior, liquefazer o que for imprescindível, é derrotar a armadura emocional do caráter, livrar-se das ideias fantásticas, admitir e abandonar a auto-tapeação caracterológica acerca da realidade e fitar a vida no rosto.

Salvação é perceber que tudo na vida é problemático, é sentir-se à vontade para sentir-se “perdido”. . .

Salvação é perceber-se arruinado, aquele que aceita isso já começou a encontrar-se e a colocar-se em terreno firme.

Salvação é ter a mente desimpedida, é agir feito os náufragos que, olhando em torno à busca de algo a que se agarrar, esse olhar trágico, implacável, absolutamente sincero que lançam sobre seu ambiente, torna-se possibilidade concreta e redentora.

Salvação é quando a pessoa põe em ordem o caos de sua vida. Eis as únicas ideias genuínas sobre salvação, segundo algumas mentes que consultei; tudo o mais é retórica, pose, farsa.
Quem não se sente realmente perdido não tem escapatória; quer dizer: nunca se encontrará, nunca se defrontará com sua própria realidade, nunca será salvo, portanto.  

Vassum Crisso

terça-feira, 27 de março de 2012

Nossa! Senhor Aparecido...

Nossa! Senhor Aparecido...
Miguel Garcia

 Virgem de pureza e "protetor" das artes. Seu santuário: corações famintos, sua festa: o existir.
 Há uma unica fonte sobre o achado de sua “imagem” in-terna:
 Sua história tem início em meados de estrelas que não voltam nunca mais. 
Quando chegou à cidade-Dutra remediada, a notícia correu ligeira por ruas estreitas e escuras, despertando sorrisos até então acanhados demais para luzirem.
 Desejosa de obsequiar-se com o melhor das próprias entranhas, dona Dica lançou redes no rio de amores bandidos, afetos furtados, desejos mal-ditos e sonhos afobados. Após  algumas tentativas frustradas, descendo o curso da escassez dos limites e, quase sem esperança, deitou malhas em “águas turvas”, apanhando o corpo de um menino negro.
 Nossa! Senhor Aparecido “nunca teve cabeça”. 
Dona Dica obteve copiosa extração de outros frutos na imensidade dos dias, quanto a seu rebento, continua descabeçado feito maré que começa a baixar e intrigando mais do que causando admiração.
Nossa! Senhor Aparecido!...

Vassum Crisso

quinta-feira, 22 de março de 2012

O que é sexo? (Parte 1)

O que é sexo? (Parte 1)
Miguel Garcia

Sexo é contorção e reviravolta: cega e diligente busca do sentido da vida. Se não tenho um Deus no céu, uma dimensão invisível que justifique a visível, então pego o que estiver mais perto e à mão e resolvo os meus problemas com isso.
Fazer amor é buscar benefí-CIO-s, é lançar a depressão pelo fardo da vida aos pés de um parceiro (a) “divino” (a), é livrar-se da dolorosa consciência de si próprio, é exorcizar a sensação de ser um indivíduo separado, tentando obter certo sentido de quem se é, do que a vida é e assim por diante, é varrer o pavor numa rendição emocional ao parceiro (a), é esquecer-se no delírio do estase, é mar-av-ilhar-se estimulado pela experiência.
Fazer amor é ir além de estar vergado ao peso da culpa por ser bicho-humano.
Sexo é boa regressão, é ver banido o estorvo da animalidade que ameaça a vitória da pessoa sobre a decadência e a morte.
Sexo é enlace entre o corpo e o sistema nervoso central que permite pensar, observar e interagir com o mundo exterior (consciência), indistintos durante o ato (corpo e consciência), já não são encarados como alheios à pessoa.
Sexo é redenção corpor-All, é desvanecer feito esfera celeste, é englobar-se no corpo e na  consciência de outrem; fundir-se em unidade que dilui o desarticulado e o grotesco. Fazer amor é quando “tudo” se faz natural , fun-CIO-nal, expresso como deve ser; aplacado e jus-ti-ficado.
Fazer amor é ver lançada fora a "culpa", o que obriga a própria natureza a proclamar a inocência dos amantes.
Sexo é coisa complexa; colorida; não cabe em binaridades e automatismos mentais.  Nem tudo se passa tão fácil e claramente, em se tratando daquilo que mora no fundo do paradoxo criatural.
Sexo é coisa do corpo; corpo é coisa da morte; morte é irmã gêmea natural do sexo, o que se desdobra em malogro do amor romântico como possível solução para os problemas humanais e em elemento participativo na frustração do ‘moderno’ bicho-humano.
Sexo é impedimento: se é realização do papel como animal na espécie, é ao mesmo tempo recordação de que a pessoa nada é senão um elo na cadeia de seres, intermutável como qualquer outra e completamente dispensável por si mesma.
Sexo é representação da consciência da espécie por um lado e, por outro, derrota da individualidade – da personalidade.
Sexo é revés da ordem que a individualidade consciente quer desenvolver: a ideia heroica de si mesmo como ente especial; virtuoso e repleto de dons capazes de redimir o universo.  Quem se contentaria no papel de mero animal fornicador? Quem, em “sã consciência”, abriria mão de experenciar uma finalidade realmente humana, uma contribuição verdadeiramente distinta para a vida do mundo? 
Sexo é tabu; é negação dupla: da morte física e dons pessoais distintivos.
Sexo é incomodo: caçoa do triunfo da personalidade sobre a mesmice animal, dos complexos códigos de abstenção sexual, dos mapas culturais para a moralidade pessoal impostos sobre o corpo animal, ri da noção de sacrificar os prazeres do corpo ao que se supõe o maior de todos os prazeres: a autoperpetuação da pessoa como um ser espiritual por toda a eternidade (cabeça e um par de asas, sem anus que deturpe).
Sexo é motivo de irritação: as pessoas se ressentem ao verem-se reduzidas ao corpo, porque o sexo até certo ponto às aterroriza.
Sexo é prenuncio de resistência à fatalidade.
Sexo é irmão do corpo que engendra culpa, arremete à contenção e faz sombra à nossa “liberdade”.

 Vassum Crisso

domingo, 18 de março de 2012

Amar é... (Parte 2)

Amar é...  (Parte 2)
Miguel Garcia

“Mesmo sendo errados os amantes, seus amores serão bons”... Chico e Edú 

Amar é dar con-ti-nu-idade ao projeto em causa própria: agarramos a um parceiro (a) num esforço de contestar nossa animalidade. Sem cosmologia religiosa à qual se possa adaptar tal negação, o jeito é ‘ficar’: grudar na pessoa “amada”.

Amar é procurar o tu, uma vez que a visão de mundo da grande religião supervisio-nada por Deus, morreu.

Amar é depender do parceiro amoroso (a), como resultado da perda de ideologias espirituais, tal como se dá na dependência face aos pais ou a um guru-psicológico.  

Amar é precisar de alguém, de uma “ideologia individual de justificação” para substituir as declin-antes “ideologias coletivas”. Sexo é contorção e reviravolta: cega e diligente busca do sentido da vida. Se não tenho um Deus no céu, uma dimensão invisível que justifique a visível, então pego o que estiver mais perto e à mão e resolvo os meus problemas com isso.

Amar é buscar benefí-CIO-s, é lançar a depressão pelo fardo da vida aos pés de um parceiro (a) “divino” (a).

Amar é livrar-se da dolorosa consciência de si próprio, é exorcizar a sensação de ser um indivíduo separado, tentando obter certo sentido de quem se é, do que a vida é e assim por diante.

Amar é varrer o pavor numa rendição emocional ao parceiro (a), é esquecer-se no delírio do sexo, é mar-av-ilhar-se estimulado pela experiência.

Amar é ir além de estar vergado ao peso da culpa por ser bicho-humano.
Sexo é boa regressão, é ver banido o estorvo da animalidade que ameaça a vitória da pessoa sobre a decadência e a morte. Sexo é enlace entre o corpo e a consciência, indistintos durante o ato, não mais os encaramos como alheios a nós.

Amar é redenção corpor-All, é desvanecer feito esfera celeste, é englobar-se no corpo e consciência de outrem; fundir-se em unidade que dilui o desarticulado e o grotesco. Amar é quando “tudo” se faz natural , fun-CIO-nal, expresso como deve ser; aplacado e jus-ti-ficado.

Amar é ver lançada fora a "culpa", o que obriga a própria natureza a proclamar a inocência dos amantes.

Vassum Crisso

quinta-feira, 15 de março de 2012

Amar é... (Parte 1)

Amar é... 
Miguel Garcia

Como seria simples se pudéssemos satisfazer os anelos de toda a condição humana, em segurança, no quarto de dormir! Como seria conveniente que a parceira(o) fosse Deus(a), onipotente para apoiar nossos anseios, abarcando tudo para podermos fundir nossos desejos nela (e) – mas é impossível -  Becker

Amar é tentativa desesperada de solu-cio-nar problemas da espécie bipartida. 
Amar é meter-se em situação impossível pelas próprias mãos. 
Amar é fruto da necessidade de sentir-se heroico - saber que sua vida tem importância no plano geral das coisas, da necessidade de ser especialmente bom para alguém realmente especial. 
Amar é englobar-se em algo “superior”, num significado que absorva o eu da pessoa em confiança e gratidão. 
Amar é investir na “solução” romântica. 
Amar é fixar o impulso de ser o centro das atenções, em outra pessoa, sob a forma de objeto de amor. 
Amar é buscar autoglorificação num parceiro (a) amoroso, é quando esse último torna-se o ideal divino no qual a própria vida "encontra" realização. 
Amar é quando todas as necessidades espirituais e morais passam a ser focalizadas em um individuo. 
Amar é quando a espiritualidade que, outrora se referia a outra dimensão das coisas (O Sagrado), é agora trazida para a terra e recebe a forma de outro ser humano.  
Amar é quando a própria salvação não é mais atribuída a uma abstração como Deus, mas pode ser procurada “na beatificação do outro”. 
Amar é quando se vive uma cosmologia de dois. 
Amar é quando o parceiro humano absorve em si a dimensão inteira do divino. 
Amar é deificar o objeto amoroso. 
Amar é crer no que as canções românticas dizem à respeito do amado: que ele é a primavera, o fulgor dos anjos, com olhos como estrelas, que a experiência do amor será divina, como no céu. 
Amar é ouvir ecos da fome de uma experiência real nas canções românticas - o reflexo de um sério anseio emocional da criatura. 
Amar é enxergar perfeição divina no objeto amoroso - é quando o próprio eu da pessoa sente-se elevado ao juntar destinos. 
Amar é sentir-se de posse da máxima medida possível para atingir o ideal de exorcizar todos os conflitos e contradições interiores e ainda os muitos aspectos de culpa. 
Amar é a tentativa de purgar-se  em uma consumação perfeita na própria perfeição. 
Amar é uma verdadeira “justificação moral do outro”. 
Amar é o projeto de realizar o impulso de auto expansão no objeto amoroso tal como outrora foi realizado em Deus: “Deus como... representação de nossa própria vontade não resiste a nós exceto quando nós mesmos o queremos e, tampouco nos resiste a amada (o) que, ao ceder os nossos caprichos, se sujeita à nossa vontade. 
Amar é quando o objeto do amor é Deus. 
Amar é quando o Meu amor é meu Deus; se ele me aceita, minha existência ganha utilidade. 
Amar é quando o relacionamento amoroso se torna um problema religioso; é quando em sua melhor condição, o “amor” ou paixão romântica reivindica divindade e, em sendo o "amor" bem sucedido nesse intento, transforma-se num demônio que devora os corações dos amantes e por fim da cabo de si mesmo.

Vassum Crisso

terça-feira, 13 de março de 2012

Era uma vez um homem que acreditava

Era uma vez um homem que acreditava
Miguel Garcia

Era uma vez um homem que veio do mundo invisível para o visível por um ato de Deus, vivia sob um céu de estrelas fixas e, o fato de ‘estarem ali’, constituía um conforto para ele; davam-lhe um senso de horizonte conhecido.
Era uma vez um homem que vivia em segurança sob o pálio do quadro 'mundial' judaico-cristão - fazia parte de um grande conjunto e, orgulhava-se do que imaginava ser seu projeto de vida completamente mapeado, inconfundível. 
Era uma vez um homem que ouviu e creu na mensagem de que lá fora havia um Pai bondoso e amável olhando por ele, pronto para recebê-lo, atento aos seus interesses o tempo todo. 
Cumpridor de seu dever para com o Criador, vivia sua vida com dignidade e fé, casando-se como um dever, procriando como um dever, ofertando a vida inteira (como um Cristo fizera) ao Pai.  Por sua vez, ele era justificado pelo Pai e recompensado com a vida eterna na dimensão invisível. Pouco importava que a Terra fosse um vale de lágrimas, de horrendos sofrimentos, de incomensurabilidade, de torturante e humilhante mesquinharia, de doença e morte, um lugar que as pessoas sentiam não ser o delas; “o lugar errado”; o lugar de onde nada se podia esperar, nada realizar para si mesmo. Pouco importava a não linearidade, porque afinal de contas ele servia a Deus e assim servia ao servo de Deus. Em resumo, seu heroico projeto de vida estava assegurado, embora ele fosse nada.
Era uma vez um homem satisfeito com a crença de que tanto os escravos, aleijados, imbecis, os simples e os poderosos, poderiam ser metamorfoseados em heróis garantidos, simplesmente recuando um passo do mundo, para outra dimensão das coisas, a dimensão chamada céu.
Era uma vez um homem que sufocava a consciência de sua animalidade (a coisa que as pessoas mais desejam negar), travestindo tal consciência na própria condição para ir além de tudo o que é finito, inevitavelmente mortal e vazio. Era uma vez um homem que acreditava.

Vassum Crisso

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Vácuo on Deus!

Vácuo on Deus!
Miguel Garcia

E agora, esse abandono... 
Cadê o controle?
Onde ancorar problemas?
Onde fixar desvalia, culpa, conflitos? 
Como reter o fardo existencial num só local do “ambi-ente”?
Onde projetar inquietações? 
Como despir-me de poder e coloca-lo nas mãos do Outro(a)? 
Cadê aquele ponto de apoio organismico fundamental?
Sei que as dores que sentimos: doenças reais ou imaginárias, dão-nos algo com que nos relacionarmos, evitam que nos desprendamos do mundo, que nos atolemos no desespero de absoluta solidão e futilidade, sei que a doença é um objeto, que o corpo é um amigo em quem podemos nos apoiar em busca de forças e, também, um inimigo que nos ameaça com perigos, sei que o que nos constitue nos faz sentir reais e nos dá uma certa vantagem sobre nossa sina, mas isso que "sei" não basta: cadê o balu-arte contra a morte, cadê a Rainha, a Elizabeth, a Houston?

Vassum Crisso

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sobre o Rubem Alves

Sobre o Rubem Alves
Miguel Garcia 

Ouvi dizer que Rubem Alves fez de si o contrário do que geralmente faz o erudito de uma área exclusiva; o contrário do que rotineir-a-mente faz um operário que, ao longo da vida, trata apenas de mover determinada alavanca, ou gancho, ou manivela em determinado instrumento ou máquina, de modo a conquistar um inacreditável virtuosismo na atividade. 

 Ouvi dizer que ele parece ter seguido no caminho contrário daquele trilhado por um especialista. Especialistas, na ilustração de Schopenhauer, podem ser comparados a um homem que mora em sua casa própria, mas nunca sai dela.


“Na casa, ele conhece tudo com exatidão, cada degrau, cada canto e cada viga, como, por exemplo, o Quasímodo de Victor Hugo conhece a Catedral de Notre-Dame, mas fora desse lugar tudo lhe é estranho e desconhecido.” Schopenhauer


Ouvi dizer que Rubem Alves é dono de uma verdadeira formação para a humanidade, o que exige universalidade e uma visão geral, que é Erudito no sentido mais elevado do termo, e não apenas um portador de conhecimento enciclopédico. 

Ouvi dizer que quando ele se expressa, demonstra ser capaz de reunir as extremidades mais afastadas da vontade humana. Ouvi dizer que esse senhor revela ares de um espírito de primeira grandeza, que, para ele, a totalidade da existência é que se impõe como “problema”, e que é sobre essa totalidade que ele comunica às pessoas, “novas” soluções. 

Ouvi dizer ainda, que Rubem Alves bem merece o título de gênio, pois assume como tema de suas realizações a soma de todas as coisas - aquilo que é grandioso, as coisas essenciais e gerais, furtando-se a dedicar esforços de sua vida a esclarecer qualquer relação específica de objetos entre si.

Ouvi muita coisa sobre o Rubem Alves, ouvi relatos eufóricos e emocionados de pessoas que mais pareciam Maria depois de flertar com o anjo da anunciação.

Vassum Crisso

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Sobre o apelo de voltar à religião dos velhos tempos

Sobre o apelo de voltar à religião dos velhos tempos:


“... Entendo a atração que isso exerce. Na juventude, eu tinha estrelas fixas. O fato de estarem sempre ali era um conforto para mim. Elas deram um horizonte conhecido. E me disseram que lá fora havia um Pai bondoso e amável olhando por mim, pronto para me receber, atento aos meus interesses o tempo todo...”. Bill Moyers  (O poder do Mito)

...”Os modelos têm de ser adaptados ao tempo que você está vivendo; acontece que o nosso tempo mudou tão depressa que o que era aceitável há cinquenta anos não o é mais, hoje. As virtudes do passado são os vícios de hoje. E muito do que se julgava serem os vícios do passado são as necessidades de hoje. A ordem moral tem de se harmonizar com as necessidades morais da vida real, no tempo, aqui e agora. Eis aí o que não estamos fazendo. A religião dos velhos tempos pertence a outra era, outras pessoas, outro sistema de valores humanos, outro universo. Voltando atrás, você abre mão de sua sincronia com a história. Nossos jovens perdem a fé nas religiões que lhes foram ensinadas, e vão para dentro de si, quase sempre com a ajuda de drogas.” Joseph Campbell (O poder do Mito)

Vassum Crisso