sexta-feira, 15 de junho de 2012

Pedir e suplicar é como falar mal de Deus


Pedir e suplicar é como falar mal de Deus
Por Miguel Garcia

As considerações do teólogo e filósofo Andrés Torres Queiruga sobre súplicas/oração de petição e afins, resumem-se basicamente nos seguintes tópicos:

1 – A oração é fundamental na vida religiosa.

2 – Existe uma íntima dialética entre a oração de uma pessoa e o que a mesma pensa de Deus.

     3 – É de extrema urgência revisar muito a fundo o modo de orar, para que seja adequado à nova imagem de 
Deus exigida pela sensibilidade atual, o que não significa “acomodar-se à figura deste mundo”, mas absolutamente o contrário: de aproveitar a chamada dos “sinais dos tempos” como uma profecia que nos chega do melhor da evolução cultural e de sua recuperação na teologia, para realizar uma autêntica conversão.

4 – Também os discípulos começaram a perceber a novidade que Jesus introduzia na imagem de Deus e compreenderam a necessidade de mudar seu modo de orar (Lc 11,1).

5 – O ensinamento de Jesus sobre o Abbá (papai), que em geral nos parece simples, é sério e delicado; tendemos a obscurecê-lo, carregando-o com nossos medos e deformando-o com nossos fantasmas, continuamente. E é aí quando Deus nos escapa para o além, para o céu, e acabamos por vê-lo distante, dominador e justiceiro. Por essa razão, necessitamos redescobrir constantemente esse rosto que Jesus procurou nos revelar.

6 – Deus é amor (1Jo 4,8.16) – todo o seu ser consiste em amar, nos criou e continua criando-nos e sustentando-nos, pois a criação é um ato contínuo – para a nossa realização e nossa felicidade (não, portanto, “para servi-lo” que nos criou, nem “para sua glória”, ao menos no sentido normal que todos atribuem a essas palavras).

7 – Como criador a glória de Deus é nossa vida; como pai/mãe sua alegria é ver nossa alegria, e se deleita com nossos êxitos e realizações e toda a ação de Deus na comunidade é dirigida única e exclusivamente a ajudar a salvar.

8 – Em Jesus nem sequer compete nossa expectativa , pois seu amor nos precede desde de sempre (Jo 6,44); que nos precede sem condições (Mt 5,45). Daí o chamado de Jesus à confiança total (Lc 12,7).

9 – Em Jesus aprendemos que não necessitamos pedir nada porque já nos está dando tudo. O que necessitamos é justamente o contrário: deixar-nos convencer, ajudar e salvar; confiar que, apesar das aparências, ele está sempre conosco, fazendo todo o possível por nosso bem e nossa felicidade. Se algo falha, não é nunca de sua parte, porque o que se opõe a nosso bem opõe-se identicamente a seu amor por nós (e com maior força, se é possível: também os pais humanos vivem antes e com maior intensidade os males de seus filhos).

10 - Quando algo que poderia ter solução não a recebe é porque ou não colaboramos com Deus. (o nós diz respeito à individualidade e à coletividade, posto que nem sempre somos responsáveis diretos pelas coisas que nos sobrevém).

11 – Cabe sim falar em petição; porém de Deus para nós: para que nos deixemos salvar, para que acolhamos seu chamado e seu impulso em favor dos irmãos necessitados, pois é esse o sentido mais genuíno e, no fundo, único do “mandamento” do amor.

12 - O exame de nossas orações de petição revela que a pessoa que pede/suplica em oração está implicando objetivamente – gravando em seu inconsciente individual e propagando no imaginário coletivo as seguintes inverdades, distorções e monstruosidades a respeito de si e  de Deus:

  
-           - Que ela percebeu a necessidade e tomou a iniciativa: é boa e procura convencer a Deus para que também ele o seja;
Que em troca, Deus se mantém passivo, ou pelo menos não suficientemente ativo e generoso até que ela (a pessoa que suplica) o convença, se for capaz.
         Que se num futuro não muito distante o pedido ou súplica não for atendido, a lógica mais elementar impõe a consequência: Deus “não ouviu nem teve piedade”.
   Que Deus poderia, se quisesse, solucionar seus males e sofrimentos - dela e do mundo inteiro, porém, ao que parece, não quer fazê-lo.

13 – Mesmo sem pretendê-lo em nossa intenção consciente, certamente, porém implicando-o de modo necessário na objetividade do que decidimos, estamos projetando uma imagem monstruosa de Deus quando suplicamos e pedimos qualquer coisa. Não apenas ferimos a ternura infinita de um amor que não pensa mais do que em ajudar e salvar, mas acabamos por dizer, implicitamente, algo que não nos atreveríamos a dizer nem do mais infame dos humanos.  Compreendemos que Deus não pode ser amoroso e monstruoso ao mesmo tempo, portanto, “se estivesse a seu alcance”, não teria dúvidas em eliminar do mundo tanto mal e tanto horror, que ele não seria capaz de tão inconcebível monstruosidade.

14 – Ao Deus de Jesus não é preciso suplicar e convencer. O Deus de Jesus não se move com dádivas e sacrifícios e não favorece a alguns poucos, não legitima as paupérrimas imagens divinas que estão transmitidas, tampouco os estranhos comércios que se formam em torno das mesmas.

15 – Compreendemos que a boa intenção supre muitas coisas e que a linguagem tem outras dimensões além da lógica e objetiva, de tal modo que nem tudo depende dela, no entanto, não se deve chegar à contradição entre as diferentes dimensões (é certo que às vezes até uma blasfêmia pode ser “oração”; contudo, não se deve recomendar tal modo de orar...), que não se pode jogar com questões tão extremamente delicadas: ou purificamos as imagens de Deus que abrigamos no imaginário ou isso poderá e será usado para nutrir ateísmos, além de provocar angústias, neuroses e desesperos.

16 – A resistência a qualquer tipo de reconfiguração da oração parece ter apoio e garantia da própria Escritura. Porque é evidente que não só são copiosas as petições em toda ela, mas o próprio Jesus parece recomendá-la encarecidamente: “Pedi, e ser-vos-á dado” (Mt 7,7; Lc 11,9). O dado é inegável, mas também o é que exige interpretação. Logo de saída, basta lê-lo para perceber que, tomado ao pé da letra, seria uma enorme falsidade: quantas petições, inclusive feitas com todas as garantias litúrgicas e de conteúdo, são outorgadas? Queiruga pergunta! Por outro lado, quando se examina de perto a questão, aparece logo a enorme cautela de Jesus – naquele tempo e naquela cultura! – ao falar do tema:
Quando orardes, não multipliqueis palavras como fazem os pagãos; eles imaginam que pelo muito falar se farão atender. Não vos assemelheis, pois, a eles, porque vosso Pai sabe do que precisais, antes que lho peçais (Mt 6, 7-8).
Marcos, por sua vez, cita uma frase significativa e tão estranha que causou problema já nos próprios manuscritos, segundo Queiruga:
Por isso que vos digo: Tudo o que pedis orando, acreditai que o recebestes, e vos será concedido (Mc 11, 24).

17 - Finalmente, Torres Queiruga nos faz perceber que a interpretação bíblica mostra que, na exortação a pedir (Mc 11,24), a verdadeira ênfase não está em pedir muito, e sim em confiar muito. A famosa parábola do “amigo importuno” pertence às parábolas “de contraste” que insistem no “muito mais” da bondade de do amor de Deus. Bondade que supera todo o pensável e imaginável: torna-se inconcebível que um amigo falte desse modo à hospitalidade, “quanto mais Deus!”.  É impossível que ele falhe conosco: a segurança é absoluta! Queiruga nos convoca a averiguar essas últimas afirmações em Lc 11,5-13; 7,7-11; e também na parábola do juiz iníquo: Lc 18, 1-8. Segundo Queiruga a aplicação é óbvia:

Se algo busca salientar tudo o que estamos dizendo até aqui é justamente essa confiança sem limites, de tal modo que a aparente infidelidade à letra acaba se demonstrando como mais profunda fidelidade ao espírito.
E note-se, além disso, que dessa maneira não se renuncia a nenhum modo nem dimensão da oração: tudo quanto vivemos e experimentamos diante de Deus, tudo de que necessitamos e tudo que desejamos podemos expressá-lo sem recorrer à petição. Com a vantagem de que então o expomos com toda a verdade, pois não ferimos o infinito respeito que Deus merece de nós em seu amor e em sua iniciativa absolutos. Pense-se, para continuar com o exemplo, que outra profunda verdade e que distinto clima eclesial dai redundariam se a fórmula fosse deste teor ou semelhante:

- Senhor, em nossa preocupação com o sofrimento e o mal que nos atinge e que também atinge o resto da família humana, reconhecemos a petição de teu amor compadecido, que nos chama a que, superando nosso egoísmo e miopia, colaboremos contigo, ajudando com generosidade os inúmeros necessitados ao nosso redor e aceitando a carga de impossibilidades que se nos apresentam por conta de nossa condição mortal/humana. Senhor, queremos escuta-lo e enveredar pelo caminho da piedade de modo a que possamos ajudar a nós mesmos e a nossos irmãos.

18 - Oremos com o teor do “modelo” acima ou com teores semelhantes: sejamos cri-ativos, pois! Em contraste com todo e qualquer modelo que nos isenta de responsabilidades e acaba por incriminar o Amor que não sabe, não pode e não está interessado em nada além de nos amar, apoiar e sustentar intimamente: Deus é amor.

Pautado pelo texto de Andrés Torres Queiruga - teólogo e escritor galego. Realizou estudos no seminário de Santiago de Compostela e na Universidade de Comillas, passou dois anos em Roma realizando a sua tese. Foi professor de Teologia no Instituto Teolóxico compostelá e de Filosofia da Religião na Universidade de Santiago de Compostela. É membro da Real Academia Galega e do Consello da Cultura Galega; foi um dos fundadores e diretor da revista Encrucillada - PELO DEUS DO MUNDO NO MUNDO DE DEUS. Edições Loyola -

Vassum Crisso

terça-feira, 12 de junho de 2012

Examinemos nossas orações de petições – Parte 2 - Orar ao Deus de Jesus

Examinemos nossas orações de petições – Parte 2
Orar ao Deus de Jesus

O brilhante e sensível teólogo Andrés Torres Queiruga, a quem tive o imenso prazer de conhecer pessoalmente meses atrás, nos ‘exorta’ e ou convoca/con-vida a RECONFIGURAR A ORAÇÃO, de modo que não só respeitemos o amor infinito e infinitamente gratuito do Deus de Jesus, mas também ajudemos a cultivar sua consciência(divina) na humanidade. Consideremos a questão nas palavras do próprio pensador:
(...) Insistir na importância da oração na vida religiosa seria chover no molhado. Tampouco é preciso salientar a íntima dialética entre a: “dize-me como é tua oração, e te direi como é teu Deus; dize-me como é teu Deus, e te direi como é tua oração”.  E, contudo, dificilmente se pode negar que hoje é de extrema urgência revisar muito a fundo o modo de orar, para que seja adequado à nova imagem de Deus exigida pela sensibilidade atual.
Não se trata, evidentemente, de “acomodar-se à figura desde mundo”,  mas absolutamente o contrário: de aproveitar a chamada dos “sinais dos tempos” como uma profecia que nos chega do melhor da evolução cultural e de sua repercussão na teologia, para realizar uma autêntica conversão. Se efetivamente se realiza, não se torna difícil descobrir que aquilo que é mais novo na realidade nos remete ao mais original e genuíno da experiência evangélica.
Quando os discípulos começaram a perceber a novidade que Jesus introduzia na imagem de Deus, compreenderam a necessidade de mudar seu modo de orar: “Senhor, ensina-nos a orar, como João o ensinou a seus discípulos” (Luc 11, 1). E Jesus ensinou-lhes a dizer: Abbá (pai, a rigor papai, uma vez que se trata de idêntica onomatopeia infantil). Porém, esse ensinamento, aparentemente tão simples, é tão sério e delicado que continuamente corremos o risco de obscurecê-lo, carregando-o com nossos medos e deformando-o com nossos fantasmas: Deus nos escapa para o além, para o céu, e acabamos por vê-lo distante, dominador e justiceiro.
Por essa razão, necessitamos redescobrir constantemente esse rosto que Jesus procurou nos revelar. Nesse sentido, a mudança cultural, tanto pela contribuição positiva dos estudos bíblicos como pela dura purificação negativa a que nos obrigou a crítica da religião, constitui uma oportunidade excelente. A resistência à mudança, ao contrário, a despeito da fidelidade à letra e apesar, ainda, de toda a boa vontade, corre o risco de transforma-se em uma terrível semeadura de ateísmo.
(...) Trata-se de afirmações fortes... Entretanto, talvez algumas simples referências possam indicar a profunda verdade para a qual apontam. O fio condutor é o seguinte:
Se “Deus é amor” (1Jo 4,8.16), ou seja, se todo o seu ser consiste em amar, fica óbvio que nos criou – e continua criando-nos e sustentando-nos, pois a criação é uma ato contínuo – para nossa realização e nossa felicidade (não, portanto, “para servi-lo”, nem “para sua glória”, ao menos no sentido normal que todos atribuem a essas palavras). Como criador, sua glória é nossa vida (Ireneu); como pai/mãe, sua alegria é ver nossa alegria, e se deleita com nossos êxitos e realizações. Por isso, na história da salvação – apesar de tantos erros terríveis, e pior, erros por nós cometidos – aprendemos que toda sua ação na comunidade é dirigida única e exclusivamente a ajudar a salvar.
Em Jesus, compreendemos finalmente que nem sequer compete a nossa expectativa, mas que seu amor nos precede desde sempre: “Ninguém pode vir a mim se o meu Pai que o enviou não atrair” (Jo 6,44); e que nos precede sem condições: “sobre os maus e os bons”, “sobre os justos e injustos” (Mt 5,45). Daí o chamado de Jesus à confiança total, pois “até os vossos cabelos estão todos contados” (Lc 12,7).
É claro que a um Deus assim não necessitamos pedir nada, porque já nos está dando tudo. O que necessitamos é justamente o contrário: deixar-nos convencer, ajudar e salvar; confiar em que, apesar das aparências, ele está sempre conosco, fazendo todo o possível por nosso bem e nossa felicidade. Se algo falha, não é nunca de sua parte, porque o que se opõe a nosso bem opõe-se identicamente a seu amor por nós (e com maior força, se é possível: também os pais humanos vivem antes e com maior  intensidade os males de seus filhos). Falhará a realidade que, como finita, tem sentenças inevitáveis; e falharemos nós, que não compreendemos, resistimos ou nos negamos às coisas.
Em última instância, quando algo que pode ter solução não a recebe, é porque nós não colaboramos com Deus. Então sim cabe falar em petição; porém de Deus para nós: para que nos deixemos salvar, para que acolhamos seu chamado e seu impulso em favor dos irmãos necessitados. Não é esse o sentido mais genuíno e, no fundo, único do “mandamento” do amor?  Texto de A. Torrres Queiruga – Pelo Deus do mundo no mundo de Deus – Edições Loyola
Continua...
Vassum Crisso


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Examinemos nossas orações de petições:

(...)Examinemos nossas orações de petições:

 Prescindamos, para tanto, das intenções subjetivas, examinando-as no que elas dizem em e por si mesmas. Partamos de um exemplo entre os milhões que se ouvem em qualquer domingo em nossas igrejas:

- Para que as crianças da África não morram de fome, roguemos ao Senhor.

- Senhor, escuta e tem piedade.

O que estamos implicando objetivamente aí e, portanto, gravando em nosso inconsciente individual e propagando no imaginário coletivo?

Procedendo com objetividade e falando cruamente (sempre com a ressalva de que não nos referimos às intenções subjetivas e conscientes), não há porque negar implicações gravíssimas. De um lado, o teor dessas petições implica: 1) que nós percebemos a necessidade e tomamos a iniciativa: somos bons e procuramos convencer a Deus para que também ele o seja; 2) que em troca, Deus se mantém passivo, ou pelo menos não suficientemente ativo e generoso até que nós o convençamos, se formos capazes. Por outro lado, e isto é muito mais grave: 3) que se no domingo que seguinte as crianças africanas continuam a morrer de fome, a lógica mais elementar impõe a consequência: Deus “não ouviu nem teve piedade”. Finalmente, e muitíssimo mais grave ainda: 4) que Deus poderia, se quisesse, solucionar o problema da fome e por conseguinte, também o das enfermidades e o dos acidentes, e o dos assassinatos e o das guerras...; porém, ao que parece, não quer fazê-lo.

Tomamos consciência do que significa tudo isso? Sem pretendê-lo em nossa intenção consciente, certamente porém implicando-o de modo necessário na objetividade do que decidimos, estamos projetando uma imagem monstruosa de Deus. Não apenas ferimos a ternura infinita de um amor que não pensa mais do que em ajudar e salvar, mas acabamos por dizer implicitamente algo que não nos atreveríamos a dizer nem do mais infame dos humanos. Porque quem, se estivesse a seu alcance, duvidaria em eliminar do mundo tanto mal e tanto mal e tanto horror? Será Deus o único capaz de tão inconcebível monstruosidade?...

Um texto de Andrés Torres Queiruga - teólogo e escritor galego. Realizou estudos no seminário de Santiago de Compostela e na Universidade de Comillas, passou dois anos em Roma realizando a sua tese. Foi professor de Teologia no Instituto Teolóxico compostelá e de Filosofia da Religião na Universidade de Santiago de Compostela. É membro da Real Academia Galega e do Consello da Cultura Galega; foi um dos fundadores e diretor da revista Encrucillada - PELO DEUS DO MUNDO NO MUNDO DE DEUS. Edições Loyola -

Continua...
Vassum Crisso











sábado, 9 de junho de 2012

Quadrado redondo:

Quadrado redondo
Miguel Garcia

"Como seria simples se pudéssemos satisfazer os anelos de toda a condição humana, em segurança, no nosso quarto de dormir! Nas palavras de Rank, queremos que o parceiro seja como Deus, onipotente para apoiar nossos desejos e abarcando tudo para podermos fundir nossos desejos nele - mas isso é impossível." Backer

Vassum Crisso

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Quando meu olhar encontra o Teu


Quando meu olhar encontra o Teu 
(Oração da tarde)
Miguel Garcia


Pai bondoso (graça minha),
Quando meu olhar encontra o Teu, sinto-me tão seguro e calmo...
É quando a penumbra reinante se dissipa e posso enxergar um mundo cheio das Tuas possibilidades.

Mãe misericordiosa (esperança minha),
Quando meu olhar encontra o Teu,
Jorra luz nas horas, nos dias... É quando a vida me parece mais bela e suportável; é quando prazer e gratidão já não cabem em palavras... É quando enterneço ante o milagre do Criador fitando a criatura, amor-osamente...

Pai maternal (amparo),
Quando meu olhar encontra o Teu,
É quando desejo pausa urgente, pois, sinto-me acanhado;
É quando careço de uma distensão da emoção, pois é vida demais, conforto demais, alegria demais pra mim!... É quando Tua paz me alcança, acaricia e convida a pertencer...

Mãe paternal (meu abrigo),
Quando meu olhar encontra o Teu,
É quando almejo descanso – ancorar nos Teus braços...

Pai e Mãe de ternura infinita,
Vejo um brilho de emoções e afetos raros...
É como quando a luz solar fita  um riacho - atravessando... É como quando o meu olhar encontra o Teu e sou perpassado por claridade benfazeja, Beleza, meiguice e suavidade Tuas: quando o meu olhar encontra o Teu... Amém. 

Vassum Crisso

terça-feira, 29 de maio de 2012

Sens-ação in-evitável - texto do Livro DI-VERSOS


Sens-ação in-evitável - 
Texto do Livro DI-VERSOS
 Miguel Garcia

Ai mãe, cadê teu rosto sereno, sombra de nuvens em teus olhos cinzentos como o mar?
Cadê tuas idéias singulares?
Por que fugistes de mim por alameda de eventos tão súbitos e dolorosos?

Fitei a vida inteira nos pontos do existir que abrigam memórias tuas. Cadê o conforto que nutria minha alma - santa delícia de tua presença benfazeja e revigorante?

Serei capaz de alijar em palavras isso que sufoca, tal consolo me alcançaria?
Ai mãe... Tenho considerado a vida totalmente inútil e sem sentido. Que solidão torturante!

Cadê a mulher que compartilhava meus segredos – sonhos, desejos, que me alojava em si?

Tédio doloroso - vazio interior é tua ausência aqui - tudo vira um deserto, um deserto horrendo, assolado por tempestades de melancolia e tristeza a-brasa-doras.

A vida parece girar tão rápido agora que você partiu... Chego ao ponto de nada mais desejar, a não ser, precipitar-me direta-mente no insondável, pois, quem se abandona não se prende à vida.

Ondas de um mar invisível rasgando o tempo... Oh! Lembranças entaladas na garganta: agarro-me a vós como alguém que sente o abismo sob os pés: cadê a mulher que me amava – minha Deusa - heroína, minha fonte, eu mesmo?

Que horror ser lançado ao caos como que por um alçapão aberto no caminho plano da existência, que horror! O coração bate em falso, o real despenca como pedra que cai do peitoril: cadê aquele olhar maternal, a claridade daquelas emoções? Cadê meu mar calmo, brilhando magnífico e azul, as paisagens delir-antes, as mil flores, o brilho de emoção que emudecia meu olhar?

Sei que toda dor é covarde. O sangue congelou em minhas veias, não nego. Sinto-me exaurido, esmagado, chicoteado por ironias – árvore atingida por um raio, desmaiado, sem alento, morto: será que um dia emergiremos juntos desse túmulo mortal? Ai mãe, cadê minha esperança?

Vassum Crisso

domingo, 27 de maio de 2012

O que é Fundamentalismo?

O que é Fundamentalismo?
Leonardo Boff

...Tentemos esclarecer o leitor o que seja fundamentalismo e o risco que representa para a pacífica convivência humana e para o futuro da humanidade.
...Intolerância - Não é uma doutrina. Mas uma forma de interpretar e viver a doutrina. É a atitude daquele que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista. Sendo assim, imediatamente surge um problema de graves conseqüências: quem se sente portador de uma verdade absoluta não pode tolerar outra verdade e seu destino é a intolerância. E a intolerância gera o desprezo do outro e o desprezo, a agressividade e a agressividade, a guerra contra o erro a ser combatido e exterminado. Irrompem guerras religiosas, violentíssimas, com incontáveis vítimas.
Não há nenhuma religião mais guerreira que a tradição dos filhos de Abraão: judeus, cristãos e muçulmanos. Cada qual vive da convicção tribalista de ser povo escolhido e portador exclusivo da revelação do Deus único e verdadeiro. Essa fé deve ser difundida em todo o mundo, em geral numa articulação com o poder colonialista e imperial, como historicamente ocorreu na América Latina, África e Ásia.
...É próprio do fundamentalismo responder terror com terror, pois se trata de conferir vitória à única verdade e ao bem e destruir a falsa ''verdade'' e o mal. Foi o que ambos, Bush e Bin Laden fizeram. Enquanto predominarem tais fundamentalismos seremos condenados à intolerância, à violência e à guerra e, no termo, à ameaça de dizimação da biosfera.
...Todos os fundamentalismos, não obstante o variado matiz, possuem as mesmas constantes. Trata-se sempre de um sistema fechado, feito de claro e de escuro, inimigo de toda diferenciação e cego face à lógica do arco-íris, em que a pluralidade convive com a unidade. Cada verdade se encontra indissoluvelmente concatenada à outra. Questionada uma, desaba todo o edifício. Daí a intolerância e a lógica linear. Daí sua força de atração para espíritos sedentos de orientações claras e de contornos precisos. Para o fundamentalista militante a morte é doce, pois transporta o mártir diretamente ao seio materno de ''Deus'', enquanto a vida é vivida como oportunidade de cumprir a missão divina de converter ou exterminar os infiéis. O grupo é o lar da identidade, o porto da plena segurança e a confirmação de estar do lado certo.
Como enfrentar os fundamentalistas? Estes são praticamente inacessíveis à argumentação racional. Nem por isso deve-se renunciar ao diálogo, à tolerância e o uso da razão para mostrar as contradições internas, subjacentes ao discurso e à prática fundamentalista.
...Estamos numa encruzilhada da história humana. Ou criar-se-ão relações multipolares de poder, eqüitativas e inclusivas com pesados investimentos na qualidade total da vida para que todos possam comer, morar com mínima dignidade e apropriar-se de cultura com a qual se possam comunicar com seus semelhantes, preservando a integridade e beleza da natureza ou iremos ao encontro do pior, quem sabe, ao mesmo destino dos dinossauros. Armas para isso existem e sobra demência. Faz-se urgente mais sabedoria que poder e mais espiritualidade que acúmulo de bens matérias. Então os povos poderão se abraçar como irmãos na mesma Casa Comum, a Terra, e irradiaremos como filhos da alegria e não como condenados ao vale de lágrimas.
Leonardo Boff, 1938, teólogo e escritor,autor de A oração de São Francisco: uma mensagem de paz para o mundo atual (Sextante)

Para ler o Artigo completo acesse: http://www.cefetsp.br/edu/eso/guerrairaque/fundamentalismoboff.html

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Para quem iremos nós?


Para quem iremos nós?
Miguel Garcia

Para quem iremos nós se não desejamos ancorar e delimitar nossas vidas com aléns que estejam logo à mão, pouco adiante, ou forjados por nós mesmos?

Para quem iremos nós se a intuição nos con-vida a ingressar no além (afora; a outra vida) da religião?

Para quem iremos nós se o homem deve cultivar a passividade da renúncia a si mesmo aos mais altos poderes, não importando quão difícil isso seja, se qualquer coisa abaixo disso seria menos que o pleno desenvolvimento da pessoa, ainda que lhe pareça fraqueza e conciliação aos melhores pensadores?

Para quem iremos nós se não somos capazes de fechar os olhos à necessidade profunda da pessoa humana, se afirmamos a necessidade de uma ideologia realmente religiosa, inerente à natureza humanal e capaz de satisfazer a necessidade básica de qualquer gênero de vida social?

Para quem iremos nós se já que não cremos que a entrega a Deus seja masoquismo, que esvaziar-se de si mesmo seja degradante, mas ao contrário disso: se cremos que o ponto mais distante que o eu pode alcançar, que a máxima idealização acessível ao homem seja exatamente esse “abandonar-se” em Deus – expansão amorosa do Ágape – verdadeira realização criativa?

Para quem iremos nós se apenas desse modo, se só rendendo-se à grandeza da natureza no mais elevado e menos fetichizado nível é que pode o homem conquistar a morte?

Para quem iremos nós se a confirmação heroica da vida de cada um fica além do sexo, do outro, da religião particular, se toda essa lista de coisas não passa de arre-medos que atraem o homem para baixo, ou o enclausuram , deixando-o despedaçado pela ambiguidade – incerteza; dúvida?

Para quem iremos nós se o homem sente-se inferior precisamente por carecer dos “verdadeiros valores interiores na personalidade”, quando é meramente um reflexo de algo vizinho dele (sombra de sombras) e não possui um giroscópio firme em seu íntimo?

Para quem iremos nós se, a fim de conseguir um centro, o homem tem de olhar para além do tu, além dos consolos dos outros e das coisas deste mundo?

Para quem iremos nós se o homem é um ser teológico e não biológico?

Para quem iremos nós se nossa cultura pública e privada, sobretudo a das elites, se dissolve em corrupção, cocaína, apatia politica, consumo e filosofias-de-retoques-e-maquiagens?

Para quem iremos nós se o que se oferece em troca da mensagem e proposta de vida crística é uma cervejinha no sábado à tarde, um grito de gol a cada dois anos , três dias de desfiles nas avenidas, ou ainda o culto ao próprio umbigo, às lágrimas e suspiros românticos, a obsessiva pergunta “quem pode ter orgasmos com o quê e com quem”, ou, finalmente, o sonho da semana de compras em Miami?

Para quem iremos nós se só Tu tens as palavras de vida e-terna, Vida?

Vassum Crisso

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Todas as coisas são como o amor


Todas as coisas são como o amor.
Miguel Garcia

Eis a chave para melhor compreender o que se passa com a vida "religiosa" atual:
(...)Faltava abandonar a velha escola...
Fazer da minha vida sempre
O meu passeio público
E ao mesmo tempo fazer dela
O meu caminho só
Único

Só falta ...
Iluminar a vida
Já que a morte cai do azul...
Me dá um beijo, então
Aperta a minha mão
Tolice é viver a vida
Assim, sem aventura...

Deixa ser
Pelo coração
Se é loucura então
Melhor não ter razão" (“Teólogo” Lulu Santos)

Em outras palavras: a coisa é boa exatamente porque 'endoidece' - embute - produz êxtase. É como no estado de apaixonamento (divinização de amores humanos): a pessoa fica fora de si e, no entanto, é isso que à "liberta", que "salva" da condição de fantasma torturado; que "redime";  é isso que adia a loucura do hospício, a disfunção cabal e sensação de inutilidade (falta de sentido), o que engendra expectação de descarte, enquanto a sucção final não vem. Parafraseando Goethe: todas as coisas são como o amor.

Vassum Crisso

domingo, 6 de maio de 2012

Oração ao Deus que ama porque sim



Oração ao Deus que ama porque sim
Miguel Garcia

Nossa inspiração, confiança e promotor da vida,
Pai-e-Mãe de puro amor e bondade infinita,
Deus de toda graça, livramentos e alegria; nosso “cúmplice”,
apoio, ajuda na dura tarefa da vida; Deus nosso, alívio e libertação. 
Amor que salva, refugio seguro, Criador a quem “pedimos” auxilio, Mãe que agasalha ternamente e alimenta com delicadeza e amorosidade, porque sim.
Mão estendida para nosso exclusivo interesse és Tu: causamos danos a nós mesmos quando não acolhemos Teu amparo e proteção; preparamos para nós trágica armadilha, tornando mais aguda a dureza da vida, quando ilusoriamente cremos estar tornando-a mais fácil.
Deus que sofre em seu amor ao ver que aquele que é amado se recusa a ser feliz.  
Deus que não castiga de maneira alguma, que tão somente quer presentear-nos com um dom, criar felicidade. Castigo seria recusarmos esse dom, privando-nos da felicidade e abraçando uma existência “infernal”, um ‘nada’, um vazio – negatividade - solidão.
Jesus, dom personificado; amado Salvador; perdão sem limite, defensor do pobre, consolo na angústia, liberdade na opressão, amor-ânimo sempre presente - Emanuel – Deus ao nosso lado, perpassando a realidade toda, irrompendo como transparência de Eternidade, apoio e sustento íntimo: bendito seja Teu santo nome, amém!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Sobre rostos belos e trans-parentes de Eternidade

Sobre rostos belos e trans-parentes de Eternidade
Miguel Garcia

Concordo com Beker quanto à afirmação que não há uma resposta garantida para o temeroso mistério do rosto humano que se examina ao espelho.
Um rosto pode ter aparencia divinal e miraculosa, contudo, meu eu menino não dispõe do poder sobrenatural para saber o que ele significa, não dispõe do vigor sobre-humano responsável pelo aparecimento de tais realidades cativantes. E é aí que desfaleço em espírito, sentindo-me insuportavelmente “oprimido” (o-pressão de beleza) por tamanho peso. Afundo sobre um oblívio de beleza, sempre que atingido pela misteriosidade que um rosto adorável irradia.
Uma criança derrotada pelo caráter esmagador da realidade e da experiência me habita. Perco a serenidade necessária em um mundo não-instintal. Jamais abandonei o êxtase. Jamais superei o temor respeitoso, deixando para trás o assombro e o "terror" ante o irresistivelmente Belo  – o fascínio por contornos mágicos. Jamais fui capaz de ações autoconfiantes e descontraídas; não naturalizei meu mundo, ou o contrário disso: jamais desnaturalizei meus ambi-entes, falsificando-os com a “verdade” escurecida, o desespero da condição básica humana escondido. Vislumbro em meus sonhos noturnos e nas fobias e neuroses diurnas, o verdadeiro horrível, ou o contrário disso, se é que não flutuo, por falta de “gravidade”.
Jamais fui prudente o bastante ou construtor de diques e sangradouros, capazes de impedir, a tempo, devastações que se erguem contra paisagens-internas-psicológicas.
Paixão é torrente que se agiganta em grandes ondas, avança rugindo e ameaça as almas mar-av-ilhadas. Jamais evitei esse desamparo, edificando muralhas protetoras intransponíveis.
Milagre primário é o rosto humano. Paralisa a pessoa por seu aspecto esplendoroso, se esta cede ante ele como a coisa fantástica que de fato é. Jamais reprimi, permanentemente, uma sensação arrebatadora e miraculosa, de modo a poder funcionar com equanimidade, usando rostos e corpos para fins de rotina.
Como colher o fulgor de uma estrela e armazená-lo em si, sem o custo de sérios prejuízos? Como olhar de frente uma face sublime e vencer o temor do real, da intensa concentração de maravilha e poder naturais; o pavor de ser esmagado pelo universo tal como é ao ser essa verdade do universo focalizada num rosto humano?
Penso que encarar certas pessoas seja comparável à fatalidade inevitável de ser consumido pela perfeição numa fração de segundo - eva-porar, ao obedecer a sedução irresistível de um "canto" armadilhoso. Encarar certas belezas se faria arriscado como voltar-se e fixar o olhar numa fábula viva e radiante; como fitar a formosura de uma corporalidade sublime - fatal como contemplar, a olhos nus, as feições de uma Vênus encarnada...
Quem, em sã consciência, poderia negar a miraculosidade de um rosto belo e trans-parente de Eternidade?

Vassum Crisso

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Negra é a cor da minha pele

Negra é a cor da minha pele
Eduardo de Oliveira


Nada fui! Nada sou! Nada serei,
Só porque negra é a cor da minha pele!
Mesmo que tudo eu dê, nada terei
nesta Sodoma, em que a ambição a impele!

Diante destes racistas é que eu hei
de amar o bem, antes que a dor revele
que, por ser negro, ainda sustentarei
seu império que, a tempos, me repele!

Eu represento a espécie sofredora
de indivíduos anônimos, de párias,
atores de uma história aterradora

Pobre do negro, pobre de quem sonha
como eu, que dentre as almas solitárias
somente pude ser a mais tristonha...

Negra é a cor da minha pele, in Túnica de ébano

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O que é salvação?

O que é salvação?
Miguel Garcia

Salvação é livrar-se das estratégias infantis utilizadas para manter a autoestima face ao pânico de uma situação real: é negar-se a abraçar o terror. As técnicas de mentir para si mesmo convertem-se em armaduras que conservam a pessoa encarcerada. As defesas de que imaginamos carecer para nos impulsionar confiantemente no existir e, a tentativa de manter elevada a autoestima, tornam-se armadilhas para vida inteira.

Salvação é demolir o que for necessário no afã de encontrar si mesmo. É lançar fora todos os empréstimos culturais e enfrentar a tempestade da vida, nu.

Salvação é não alimentar ilusões a respeito do anseio por liberdade. Não acomodar-se na prisão de defesas de caráter que, embora vital (o caráter), não passa de mentira.

Salvação é não mimetizar aqueles presos que se sentem confortáveis em rotinas limitadas e protegidas, uma vez que a ideia de liberdade condicional no amplo mundo de probabilidades, acidentes e escolhas, aterroriza os tais institucionalizados. Na prisão das máscaras que nos obrigamos a vestir, podemos fingir e achar que de fato somos nossas representações, que o mundo é controlável, que há uma razão para vida, uma justificativa pronta para a ação de cada um de nós. Podemos “viver” automática e displicentemente no desespero de garantir ao menos um quinhão mínimo das grandiloquências culturais programadas – daquilo que alguns estudiosos chamam de heroísmo da prisão: a presunção dos que “estão por dentro e que sabem das coisas”.

Salvação é negar a si mesmo, tomar certa carga de consciência perturbadora a respeito do real, sobre os próprios ombros (cruz) e seguir de um modo sacrificial (responsável), vida à dentro-e-à-fora.

Salvação é ter coragem de ver o mundo como ele é de fato e de verdade, é fitar a situação criatural sem distorcê-la com falsas expectativas, mesmo que oriundas de tradições e dogmas religiosos.

Salvação é não negar a condição animal, o contrário disso é terror.

Salvação é admitir ser uma criatura que defeca, é con-vida-r o oceano primevo de angústia animal para inundar abismos mentais. 

Salvação é compreender que essa angústia seria resultante da percepção da verdade quanto à situação de cada pessoa, seria mais que angústia animal, seria angústia humanal: aquela que decorre do paradoxo de sermos membros da humanidade e, ao mesmo tempo, primos dos primatas conscientes da inevitável finitude.

Salvação passa por ser capaz de lidar com o significado de ser um bípede consciente; essa ideia ridícula, senão monstruosa de saber-se saco de estrume ambulante, comida para vermes, cadáver adiado.

Salvação passa por esse nível de compreensão aterroriz-ante: ter emergido do “nada”, ter um nome, consciência do próprio eu, sentimentos íntimos profundos, um cruciante anelo interior pela vida e pela auto-expressão e, apesar de tudo isso, morrer.

Salvação é aprender a enfrentar a própria impotência natural e a ideia da morte.

Salvação é “morrer” para “nascer” verdadeiramente, é provar o gosto da morte como se ela estivesse presente.

Salvação é fazer uma passagem ao “nada”, é chegar ao ponto crítico, é virar numa esquina dentro de si mesmo: algo tem de ceder!

Salvação é quebrar a resistência inata em seu interior, liquefazer o que for imprescindível, é derrotar a armadura emocional do caráter, livrar-se das ideias fantásticas, admitir e abandonar a auto-tapeação caracterológica acerca da realidade e fitar a vida no rosto.

Salvação é perceber que tudo na vida é problemático, é sentir-se à vontade para sentir-se “perdido”. . .

Salvação é perceber-se arruinado, aquele que aceita isso já começou a encontrar-se e a colocar-se em terreno firme.

Salvação é ter a mente desimpedida, é agir feito os náufragos que, olhando em torno à busca de algo a que se agarrar, esse olhar trágico, implacável, absolutamente sincero que lançam sobre seu ambiente, torna-se possibilidade concreta e redentora.

Salvação é quando a pessoa põe em ordem o caos de sua vida. Eis as únicas ideias genuínas sobre salvação, segundo algumas mentes que consultei; tudo o mais é retórica, pose, farsa.
Quem não se sente realmente perdido não tem escapatória; quer dizer: nunca se encontrará, nunca se defrontará com sua própria realidade, nunca será salvo, portanto.  

Vassum Crisso

terça-feira, 27 de março de 2012

Nossa! Senhor Aparecido...

Nossa! Senhor Aparecido...
Miguel Garcia

 Virgem de pureza e "protetor" das artes. Seu santuário: corações famintos, sua festa: o existir.
 Há uma unica fonte sobre o achado de sua “imagem” in-terna:
 Sua história tem início em meados de estrelas que não voltam nunca mais. 
Quando chegou à cidade-Dutra remediada, a notícia correu ligeira por ruas estreitas e escuras, despertando sorrisos até então acanhados demais para luzirem.
 Desejosa de obsequiar-se com o melhor das próprias entranhas, dona Dica lançou redes no rio de amores bandidos, afetos furtados, desejos mal-ditos e sonhos afobados. Após  algumas tentativas frustradas, descendo o curso da escassez dos limites e, quase sem esperança, deitou malhas em “águas turvas”, apanhando o corpo de um menino negro.
 Nossa! Senhor Aparecido “nunca teve cabeça”. 
Dona Dica obteve copiosa extração de outros frutos na imensidade dos dias, quanto a seu rebento, continua descabeçado feito maré que começa a baixar e intrigando mais do que causando admiração.
Nossa! Senhor Aparecido!...

Vassum Crisso

quinta-feira, 22 de março de 2012

O que é sexo? (Parte 1)

O que é sexo? (Parte 1)
Miguel Garcia

Sexo é contorção e reviravolta: cega e diligente busca do sentido da vida. Se não tenho um Deus no céu, uma dimensão invisível que justifique a visível, então pego o que estiver mais perto e à mão e resolvo os meus problemas com isso.
Fazer amor é buscar benefí-CIO-s, é lançar a depressão pelo fardo da vida aos pés de um parceiro (a) “divino” (a), é livrar-se da dolorosa consciência de si próprio, é exorcizar a sensação de ser um indivíduo separado, tentando obter certo sentido de quem se é, do que a vida é e assim por diante, é varrer o pavor numa rendição emocional ao parceiro (a), é esquecer-se no delírio do estase, é mar-av-ilhar-se estimulado pela experiência.
Fazer amor é ir além de estar vergado ao peso da culpa por ser bicho-humano.
Sexo é boa regressão, é ver banido o estorvo da animalidade que ameaça a vitória da pessoa sobre a decadência e a morte.
Sexo é enlace entre o corpo e o sistema nervoso central que permite pensar, observar e interagir com o mundo exterior (consciência), indistintos durante o ato (corpo e consciência), já não são encarados como alheios à pessoa.
Sexo é redenção corpor-All, é desvanecer feito esfera celeste, é englobar-se no corpo e na  consciência de outrem; fundir-se em unidade que dilui o desarticulado e o grotesco. Fazer amor é quando “tudo” se faz natural , fun-CIO-nal, expresso como deve ser; aplacado e jus-ti-ficado.
Fazer amor é ver lançada fora a "culpa", o que obriga a própria natureza a proclamar a inocência dos amantes.
Sexo é coisa complexa; colorida; não cabe em binaridades e automatismos mentais.  Nem tudo se passa tão fácil e claramente, em se tratando daquilo que mora no fundo do paradoxo criatural.
Sexo é coisa do corpo; corpo é coisa da morte; morte é irmã gêmea natural do sexo, o que se desdobra em malogro do amor romântico como possível solução para os problemas humanais e em elemento participativo na frustração do ‘moderno’ bicho-humano.
Sexo é impedimento: se é realização do papel como animal na espécie, é ao mesmo tempo recordação de que a pessoa nada é senão um elo na cadeia de seres, intermutável como qualquer outra e completamente dispensável por si mesma.
Sexo é representação da consciência da espécie por um lado e, por outro, derrota da individualidade – da personalidade.
Sexo é revés da ordem que a individualidade consciente quer desenvolver: a ideia heroica de si mesmo como ente especial; virtuoso e repleto de dons capazes de redimir o universo.  Quem se contentaria no papel de mero animal fornicador? Quem, em “sã consciência”, abriria mão de experenciar uma finalidade realmente humana, uma contribuição verdadeiramente distinta para a vida do mundo? 
Sexo é tabu; é negação dupla: da morte física e dons pessoais distintivos.
Sexo é incomodo: caçoa do triunfo da personalidade sobre a mesmice animal, dos complexos códigos de abstenção sexual, dos mapas culturais para a moralidade pessoal impostos sobre o corpo animal, ri da noção de sacrificar os prazeres do corpo ao que se supõe o maior de todos os prazeres: a autoperpetuação da pessoa como um ser espiritual por toda a eternidade (cabeça e um par de asas, sem anus que deturpe).
Sexo é motivo de irritação: as pessoas se ressentem ao verem-se reduzidas ao corpo, porque o sexo até certo ponto às aterroriza.
Sexo é prenuncio de resistência à fatalidade.
Sexo é irmão do corpo que engendra culpa, arremete à contenção e faz sombra à nossa “liberdade”.

 Vassum Crisso

domingo, 18 de março de 2012

Amar é... (Parte 2)

Amar é...  (Parte 2)
Miguel Garcia

“Mesmo sendo errados os amantes, seus amores serão bons”... Chico e Edú 

Amar é dar con-ti-nu-idade ao projeto em causa própria: agarramos a um parceiro (a) num esforço de contestar nossa animalidade. Sem cosmologia religiosa à qual se possa adaptar tal negação, o jeito é ‘ficar’: grudar na pessoa “amada”.

Amar é procurar o tu, uma vez que a visão de mundo da grande religião supervisio-nada por Deus, morreu.

Amar é depender do parceiro amoroso (a), como resultado da perda de ideologias espirituais, tal como se dá na dependência face aos pais ou a um guru-psicológico.  

Amar é precisar de alguém, de uma “ideologia individual de justificação” para substituir as declin-antes “ideologias coletivas”. Sexo é contorção e reviravolta: cega e diligente busca do sentido da vida. Se não tenho um Deus no céu, uma dimensão invisível que justifique a visível, então pego o que estiver mais perto e à mão e resolvo os meus problemas com isso.

Amar é buscar benefí-CIO-s, é lançar a depressão pelo fardo da vida aos pés de um parceiro (a) “divino” (a).

Amar é livrar-se da dolorosa consciência de si próprio, é exorcizar a sensação de ser um indivíduo separado, tentando obter certo sentido de quem se é, do que a vida é e assim por diante.

Amar é varrer o pavor numa rendição emocional ao parceiro (a), é esquecer-se no delírio do sexo, é mar-av-ilhar-se estimulado pela experiência.

Amar é ir além de estar vergado ao peso da culpa por ser bicho-humano.
Sexo é boa regressão, é ver banido o estorvo da animalidade que ameaça a vitória da pessoa sobre a decadência e a morte. Sexo é enlace entre o corpo e a consciência, indistintos durante o ato, não mais os encaramos como alheios a nós.

Amar é redenção corpor-All, é desvanecer feito esfera celeste, é englobar-se no corpo e consciência de outrem; fundir-se em unidade que dilui o desarticulado e o grotesco. Amar é quando “tudo” se faz natural , fun-CIO-nal, expresso como deve ser; aplacado e jus-ti-ficado.

Amar é ver lançada fora a "culpa", o que obriga a própria natureza a proclamar a inocência dos amantes.

Vassum Crisso

quinta-feira, 15 de março de 2012

Amar é... (Parte 1)

Amar é... 
Miguel Garcia

Como seria simples se pudéssemos satisfazer os anelos de toda a condição humana, em segurança, no quarto de dormir! Como seria conveniente que a parceira(o) fosse Deus(a), onipotente para apoiar nossos anseios, abarcando tudo para podermos fundir nossos desejos nela (e) – mas é impossível -  Becker

Amar é tentativa desesperada de solu-cio-nar problemas da espécie bipartida. 
Amar é meter-se em situação impossível pelas próprias mãos. 
Amar é fruto da necessidade de sentir-se heroico - saber que sua vida tem importância no plano geral das coisas, da necessidade de ser especialmente bom para alguém realmente especial. 
Amar é englobar-se em algo “superior”, num significado que absorva o eu da pessoa em confiança e gratidão. 
Amar é investir na “solução” romântica. 
Amar é fixar o impulso de ser o centro das atenções, em outra pessoa, sob a forma de objeto de amor. 
Amar é buscar autoglorificação num parceiro (a) amoroso, é quando esse último torna-se o ideal divino no qual a própria vida "encontra" realização. 
Amar é quando todas as necessidades espirituais e morais passam a ser focalizadas em um individuo. 
Amar é quando a espiritualidade que, outrora se referia a outra dimensão das coisas (O Sagrado), é agora trazida para a terra e recebe a forma de outro ser humano.  
Amar é quando a própria salvação não é mais atribuída a uma abstração como Deus, mas pode ser procurada “na beatificação do outro”. 
Amar é quando se vive uma cosmologia de dois. 
Amar é quando o parceiro humano absorve em si a dimensão inteira do divino. 
Amar é deificar o objeto amoroso. 
Amar é crer no que as canções românticas dizem à respeito do amado: que ele é a primavera, o fulgor dos anjos, com olhos como estrelas, que a experiência do amor será divina, como no céu. 
Amar é ouvir ecos da fome de uma experiência real nas canções românticas - o reflexo de um sério anseio emocional da criatura. 
Amar é enxergar perfeição divina no objeto amoroso - é quando o próprio eu da pessoa sente-se elevado ao juntar destinos. 
Amar é sentir-se de posse da máxima medida possível para atingir o ideal de exorcizar todos os conflitos e contradições interiores e ainda os muitos aspectos de culpa. 
Amar é a tentativa de purgar-se  em uma consumação perfeita na própria perfeição. 
Amar é uma verdadeira “justificação moral do outro”. 
Amar é o projeto de realizar o impulso de auto expansão no objeto amoroso tal como outrora foi realizado em Deus: “Deus como... representação de nossa própria vontade não resiste a nós exceto quando nós mesmos o queremos e, tampouco nos resiste a amada (o) que, ao ceder os nossos caprichos, se sujeita à nossa vontade. 
Amar é quando o objeto do amor é Deus. 
Amar é quando o Meu amor é meu Deus; se ele me aceita, minha existência ganha utilidade. 
Amar é quando o relacionamento amoroso se torna um problema religioso; é quando em sua melhor condição, o “amor” ou paixão romântica reivindica divindade e, em sendo o "amor" bem sucedido nesse intento, transforma-se num demônio que devora os corações dos amantes e por fim da cabo de si mesmo.

Vassum Crisso

terça-feira, 13 de março de 2012

Era uma vez um homem que acreditava

Era uma vez um homem que acreditava
Miguel Garcia

Era uma vez um homem que veio do mundo invisível para o visível por um ato de Deus, vivia sob um céu de estrelas fixas e, o fato de ‘estarem ali’, constituía um conforto para ele; davam-lhe um senso de horizonte conhecido.
Era uma vez um homem que vivia em segurança sob o pálio do quadro 'mundial' judaico-cristão - fazia parte de um grande conjunto e, orgulhava-se do que imaginava ser seu projeto de vida completamente mapeado, inconfundível. 
Era uma vez um homem que ouviu e creu na mensagem de que lá fora havia um Pai bondoso e amável olhando por ele, pronto para recebê-lo, atento aos seus interesses o tempo todo. 
Cumpridor de seu dever para com o Criador, vivia sua vida com dignidade e fé, casando-se como um dever, procriando como um dever, ofertando a vida inteira (como um Cristo fizera) ao Pai.  Por sua vez, ele era justificado pelo Pai e recompensado com a vida eterna na dimensão invisível. Pouco importava que a Terra fosse um vale de lágrimas, de horrendos sofrimentos, de incomensurabilidade, de torturante e humilhante mesquinharia, de doença e morte, um lugar que as pessoas sentiam não ser o delas; “o lugar errado”; o lugar de onde nada se podia esperar, nada realizar para si mesmo. Pouco importava a não linearidade, porque afinal de contas ele servia a Deus e assim servia ao servo de Deus. Em resumo, seu heroico projeto de vida estava assegurado, embora ele fosse nada.
Era uma vez um homem satisfeito com a crença de que tanto os escravos, aleijados, imbecis, os simples e os poderosos, poderiam ser metamorfoseados em heróis garantidos, simplesmente recuando um passo do mundo, para outra dimensão das coisas, a dimensão chamada céu.
Era uma vez um homem que sufocava a consciência de sua animalidade (a coisa que as pessoas mais desejam negar), travestindo tal consciência na própria condição para ir além de tudo o que é finito, inevitavelmente mortal e vazio. Era uma vez um homem que acreditava.

Vassum Crisso