quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Sabia que...

Sabia que...
Miguel Garcia
Nossas histórias ainda não foram contadas (a história dos que perderam), mas isso não quer dizer que jamais serão.
A clandestinidade virou norma de segurança ante o aparelho repressivo.
A história dos que 'venceram' está aí, muito mal contada, mas isso tem de mudar, é possível fazer com que mude.
Perdas, danos e ganhos serão içados do abismo de memórias aflitas e costurados no tecido de uma narrativa muitíssimo esclarecedora e con-tun-dente.
Vassum Crisso

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Negra é a cor da minha pele


Negra é a cor da minha pele

Nada fui! Nada sou! Nada serei,
Só porque negra é a cor da minha pele!
Mesmo que tudo eu dê, nada terei
nesta Sodoma, em que a ambição a impele!

Diante destes racistas é que eu hei
de amar o bem, antes que a dor revele
que, por ser negro, ainda sustentarei
seu império que, a tempos, me repele!

Eu represento a espécie sofredora
de indivíduos anônimos, de párias,
atores de uma história aterradora

Pobre do negro, pobre de quem sonha
como eu, que dentre as almas solitárias
somente pude ser a mais tristonha...

Eduardo de Oliveira
Negra é a cor da minha pele, in Túnica de ébano


Vassum Crisso!


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

X Per-versos


X Per-versos
Miguel Garcia

Senhoras e senhores,

A perversão tornou-se um ideal em nossos dias. Estamos nos tornando perversos.
Perversão virou norma social, segundo Melman, não a perversão com sua conotação moral, de modo algum, mas a perversão que está hoje no princípio das “relações” sociais, através da forma de se servir do parceiro como um objeto que se descarta quando se avalia que é insuficiente
Nossa sociedade coisifica seus membros, não apenas no quadro das “relações” de trabalho, mas em todas as circunstancias.
Impulsionada pela perversão (desvio patológico do comportamento considerado normal), a sociedade neo-liberal e, portanto predatória, encontra os meios, usa fachadas honestas, regula o que ‘percebe’ como problema e, por fim, descarta aqueles (as) que, após a terem servido, se tornaram sem uso, fontes de despesas sem contrapartida.
O valor de uma pessoa depende de ela ser fonte de benefícios. Numa situação dessas, aquele que revelar-se “defeituoso”, impondo-se como objeto desvalorizado, deverá ser atirado à caça. 

Vassum Crisso

O Bicho


O Bicho
Manuel Bandeira

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem

Vassum Crisso

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Amei! Amém!


Amei! Amém! 
(Consagrado ao poeta, irmão e amigo: Paulo Cruz)        
Miguel Garcia

Notas explicativas são próprias do homem:
Análises varonis,
esclarecimentos v-iris...
Amo, mas por qual razão?
Amei! Amém.
Que assim seja!
Amei teu poema na ausência de opções,
somática do belo e-feito descaindo...
Amei esse algo que semeia o sublime,
amei enfim:
amém!
Be-atitude dessa amizade...

Vassum Crisso

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Fala


Fala
Secos & Molhados

Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser 
Tudo o que quiser
Então eu escuto
Fala 


Lá, lá, lá, lá, lá, lá. lá, lá, lá 

Fala


Se eu não entender

Não vou responder
Então eu escuto
Eu só vou falar
Na hora de falar
Então eu escuto
Fala 

Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá

Fala

Vassum Crisso

sexta-feira, 13 de julho de 2012

CORPALMAS e ALMORPOS

CORPALMAS e ALMORPOS
Eduardo Galeano



A 'religião' diz-nos: o corpo é uma culpa. A ciência diz-nos: o corpo é uma máquina. O corpo diz: eu sou uma festa! Nem máquina, nem  culpa: o corpo é uma FESTA. E para redescobrir o corpo como uma festa é preciso aceitar que o corpo não é apenas corpo. Essa fratura entre corpo e alma nos faz muitíssimo mal, no entanto, é esta fratura que domina a educação que recebemos, onde a relação entre a alma e o corpo é a 'relação' entre a bela e a fera. Julgo que seja preciso superar isso para que entendamos que na realidade somos CORPALMAS e ALMORPOS, tudo misturado: o corpo e alma não como coisas separadas, divisíveis. 

Vassum Crisso

sábado, 16 de junho de 2012

Como seria “simples”...


Como seria “simples”...
Miguel Garcia

Como seria “simples” se pudéssemos satisfazer os anelos de toda a condição humana, em segurança, no nosso quarto de dormir (casadinhos e afins)! Se o parceiro (a) fosse como Deus, onipotente para nos apoiar em nossas carências, abarcando tudo para podermos fundir nele (a) nossos desejos. Becker

Como seria “simples” ancorar e delimitar nossas vidas com ‘aléns’ que estivessem logo à mão, pouco adiante, ou forjados por nós mesmos;

Como seria “simples” que a intuição não con-vida-sse a ingressar no além (afora; a outra vida) da religião;

Como seria “simples” se fossemos capazes de fechar os olhos à nossa necessidade profunda - à ideologia realmente religiosa inerente à natureza humana: única capaz de satisfazer a carência básica de qualquer gênero de vida social;

Como seria “simples” se pudéssemos crer que a entrega a Deus é masoquismo, que esvaziar-se de si mesmo é degradante, que o ponto mais distante que o eu pode alcançar, que a máxima idealização acessível ao homem encontra-se exatamente  em “abandonar a ideia de Deus – na não expansão amorosa do Ágape; em não realizar-se criativamente;

Como seria “simples” não render-se à grandeza da natureza no mais elevado e menos fetichizado nível: não ‘conquistar’ a morte;

Como seria “simples” se a confirmação heroica da vida de cada um pudesse ser obtida no sexo, no outro, em formas de religião particular; se toda essa lista de coisas atraísse o bicho/humano para cima, ou o libertasse , deixando-o pleno/integral, satisfeito e confiante;

Como seria “simples” se pudéssemos prescindir dos “verdadeiros valores interiores na personalidade”, se pudéssemos ser mais do que meramente um reflexo de algo vizinho desses valores e não meras sombras de sombras; se portássemos um giroscópio firme em nosso íntimo;

Como seria “simples” se houvesse em nós um centro: não ter que olhar para além do eu, além dos consolos dos outros e das coisas deste mundo;

Como seria “simples” se não fossemos teológicos, mas sim biológicos;

Como seria “simples” se nossa cultura pública e privada, sobretudo a das elites, não se dissolvesse em corrupção, cocaína, apatia politica, consumo e filosofias-de-retoques-e-maquiagens;

Como seria “simples” se uma cervejinha no sábado à tarde, um grito de gol a cada dois anos, três dias de desfiles nas avenidas, ou ainda o culto ao próprio umbigo, às lágrimas e suspiros românticos; se a obsessiva pergunta: “quem pode ter orgasmos com o quê e com quem”, ou, finalmente, o sonho da semana de compras em Miami, desse cabo da doença mortal - desespero da criatura bipartida... Como seria “simples”... Mas isso é impossível.

Vassum Crisso

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Pedir e suplicar é como falar mal de Deus


Pedir e suplicar é como falar mal de Deus
Por Miguel Garcia

As considerações do teólogo e filósofo Andrés Torres Queiruga sobre súplicas/oração de petição e afins, resumem-se basicamente nos seguintes tópicos:

1 – A oração é fundamental na vida religiosa.

2 – Existe uma íntima dialética entre a oração de uma pessoa e o que a mesma pensa de Deus.

     3 – É de extrema urgência revisar muito a fundo o modo de orar, para que seja adequado à nova imagem de 
Deus exigida pela sensibilidade atual, o que não significa “acomodar-se à figura deste mundo”, mas absolutamente o contrário: de aproveitar a chamada dos “sinais dos tempos” como uma profecia que nos chega do melhor da evolução cultural e de sua recuperação na teologia, para realizar uma autêntica conversão.

4 – Também os discípulos começaram a perceber a novidade que Jesus introduzia na imagem de Deus e compreenderam a necessidade de mudar seu modo de orar (Lc 11,1).

5 – O ensinamento de Jesus sobre o Abbá (papai), que em geral nos parece simples, é sério e delicado; tendemos a obscurecê-lo, carregando-o com nossos medos e deformando-o com nossos fantasmas, continuamente. E é aí quando Deus nos escapa para o além, para o céu, e acabamos por vê-lo distante, dominador e justiceiro. Por essa razão, necessitamos redescobrir constantemente esse rosto que Jesus procurou nos revelar.

6 – Deus é amor (1Jo 4,8.16) – todo o seu ser consiste em amar, nos criou e continua criando-nos e sustentando-nos, pois a criação é um ato contínuo – para a nossa realização e nossa felicidade (não, portanto, “para servi-lo” que nos criou, nem “para sua glória”, ao menos no sentido normal que todos atribuem a essas palavras).

7 – Como criador a glória de Deus é nossa vida; como pai/mãe sua alegria é ver nossa alegria, e se deleita com nossos êxitos e realizações e toda a ação de Deus na comunidade é dirigida única e exclusivamente a ajudar a salvar.

8 – Em Jesus nem sequer compete nossa expectativa , pois seu amor nos precede desde de sempre (Jo 6,44); que nos precede sem condições (Mt 5,45). Daí o chamado de Jesus à confiança total (Lc 12,7).

9 – Em Jesus aprendemos que não necessitamos pedir nada porque já nos está dando tudo. O que necessitamos é justamente o contrário: deixar-nos convencer, ajudar e salvar; confiar que, apesar das aparências, ele está sempre conosco, fazendo todo o possível por nosso bem e nossa felicidade. Se algo falha, não é nunca de sua parte, porque o que se opõe a nosso bem opõe-se identicamente a seu amor por nós (e com maior força, se é possível: também os pais humanos vivem antes e com maior intensidade os males de seus filhos).

10 - Quando algo que poderia ter solução não a recebe é porque ou não colaboramos com Deus. (o nós diz respeito à individualidade e à coletividade, posto que nem sempre somos responsáveis diretos pelas coisas que nos sobrevém).

11 – Cabe sim falar em petição; porém de Deus para nós: para que nos deixemos salvar, para que acolhamos seu chamado e seu impulso em favor dos irmãos necessitados, pois é esse o sentido mais genuíno e, no fundo, único do “mandamento” do amor.

12 - O exame de nossas orações de petição revela que a pessoa que pede/suplica em oração está implicando objetivamente – gravando em seu inconsciente individual e propagando no imaginário coletivo as seguintes inverdades, distorções e monstruosidades a respeito de si e  de Deus:

  
-           - Que ela percebeu a necessidade e tomou a iniciativa: é boa e procura convencer a Deus para que também ele o seja;
Que em troca, Deus se mantém passivo, ou pelo menos não suficientemente ativo e generoso até que ela (a pessoa que suplica) o convença, se for capaz.
         Que se num futuro não muito distante o pedido ou súplica não for atendido, a lógica mais elementar impõe a consequência: Deus “não ouviu nem teve piedade”.
   Que Deus poderia, se quisesse, solucionar seus males e sofrimentos - dela e do mundo inteiro, porém, ao que parece, não quer fazê-lo.

13 – Mesmo sem pretendê-lo em nossa intenção consciente, certamente, porém implicando-o de modo necessário na objetividade do que decidimos, estamos projetando uma imagem monstruosa de Deus quando suplicamos e pedimos qualquer coisa. Não apenas ferimos a ternura infinita de um amor que não pensa mais do que em ajudar e salvar, mas acabamos por dizer, implicitamente, algo que não nos atreveríamos a dizer nem do mais infame dos humanos.  Compreendemos que Deus não pode ser amoroso e monstruoso ao mesmo tempo, portanto, “se estivesse a seu alcance”, não teria dúvidas em eliminar do mundo tanto mal e tanto horror, que ele não seria capaz de tão inconcebível monstruosidade.

14 – Ao Deus de Jesus não é preciso suplicar e convencer. O Deus de Jesus não se move com dádivas e sacrifícios e não favorece a alguns poucos, não legitima as paupérrimas imagens divinas que estão transmitidas, tampouco os estranhos comércios que se formam em torno das mesmas.

15 – Compreendemos que a boa intenção supre muitas coisas e que a linguagem tem outras dimensões além da lógica e objetiva, de tal modo que nem tudo depende dela, no entanto, não se deve chegar à contradição entre as diferentes dimensões (é certo que às vezes até uma blasfêmia pode ser “oração”; contudo, não se deve recomendar tal modo de orar...), que não se pode jogar com questões tão extremamente delicadas: ou purificamos as imagens de Deus que abrigamos no imaginário ou isso poderá e será usado para nutrir ateísmos, além de provocar angústias, neuroses e desesperos.

16 – A resistência a qualquer tipo de reconfiguração da oração parece ter apoio e garantia da própria Escritura. Porque é evidente que não só são copiosas as petições em toda ela, mas o próprio Jesus parece recomendá-la encarecidamente: “Pedi, e ser-vos-á dado” (Mt 7,7; Lc 11,9). O dado é inegável, mas também o é que exige interpretação. Logo de saída, basta lê-lo para perceber que, tomado ao pé da letra, seria uma enorme falsidade: quantas petições, inclusive feitas com todas as garantias litúrgicas e de conteúdo, são outorgadas? Queiruga pergunta! Por outro lado, quando se examina de perto a questão, aparece logo a enorme cautela de Jesus – naquele tempo e naquela cultura! – ao falar do tema:
Quando orardes, não multipliqueis palavras como fazem os pagãos; eles imaginam que pelo muito falar se farão atender. Não vos assemelheis, pois, a eles, porque vosso Pai sabe do que precisais, antes que lho peçais (Mt 6, 7-8).
Marcos, por sua vez, cita uma frase significativa e tão estranha que causou problema já nos próprios manuscritos, segundo Queiruga:
Por isso que vos digo: Tudo o que pedis orando, acreditai que o recebestes, e vos será concedido (Mc 11, 24).

17 - Finalmente, Torres Queiruga nos faz perceber que a interpretação bíblica mostra que, na exortação a pedir (Mc 11,24), a verdadeira ênfase não está em pedir muito, e sim em confiar muito. A famosa parábola do “amigo importuno” pertence às parábolas “de contraste” que insistem no “muito mais” da bondade de do amor de Deus. Bondade que supera todo o pensável e imaginável: torna-se inconcebível que um amigo falte desse modo à hospitalidade, “quanto mais Deus!”.  É impossível que ele falhe conosco: a segurança é absoluta! Queiruga nos convoca a averiguar essas últimas afirmações em Lc 11,5-13; 7,7-11; e também na parábola do juiz iníquo: Lc 18, 1-8. Segundo Queiruga a aplicação é óbvia:

Se algo busca salientar tudo o que estamos dizendo até aqui é justamente essa confiança sem limites, de tal modo que a aparente infidelidade à letra acaba se demonstrando como mais profunda fidelidade ao espírito.
E note-se, além disso, que dessa maneira não se renuncia a nenhum modo nem dimensão da oração: tudo quanto vivemos e experimentamos diante de Deus, tudo de que necessitamos e tudo que desejamos podemos expressá-lo sem recorrer à petição. Com a vantagem de que então o expomos com toda a verdade, pois não ferimos o infinito respeito que Deus merece de nós em seu amor e em sua iniciativa absolutos. Pense-se, para continuar com o exemplo, que outra profunda verdade e que distinto clima eclesial dai redundariam se a fórmula fosse deste teor ou semelhante:

- Senhor, em nossa preocupação com o sofrimento e o mal que nos atinge e que também atinge o resto da família humana, reconhecemos a petição de teu amor compadecido, que nos chama a que, superando nosso egoísmo e miopia, colaboremos contigo, ajudando com generosidade os inúmeros necessitados ao nosso redor e aceitando a carga de impossibilidades que se nos apresentam por conta de nossa condição mortal/humana. Senhor, queremos escuta-lo e enveredar pelo caminho da piedade de modo a que possamos ajudar a nós mesmos e a nossos irmãos.

18 - Oremos com o teor do “modelo” acima ou com teores semelhantes: sejamos cri-ativos, pois! Em contraste com todo e qualquer modelo que nos isenta de responsabilidades e acaba por incriminar o Amor que não sabe, não pode e não está interessado em nada além de nos amar, apoiar e sustentar intimamente: Deus é amor.

Pautado pelo texto de Andrés Torres Queiruga - teólogo e escritor galego. Realizou estudos no seminário de Santiago de Compostela e na Universidade de Comillas, passou dois anos em Roma realizando a sua tese. Foi professor de Teologia no Instituto Teolóxico compostelá e de Filosofia da Religião na Universidade de Santiago de Compostela. É membro da Real Academia Galega e do Consello da Cultura Galega; foi um dos fundadores e diretor da revista Encrucillada - PELO DEUS DO MUNDO NO MUNDO DE DEUS. Edições Loyola -

Vassum Crisso

terça-feira, 12 de junho de 2012

Examinemos nossas orações de petições – Parte 2 - Orar ao Deus de Jesus

Examinemos nossas orações de petições – Parte 2
Orar ao Deus de Jesus

O brilhante e sensível teólogo Andrés Torres Queiruga, a quem tive o imenso prazer de conhecer pessoalmente meses atrás, nos ‘exorta’ e ou convoca/con-vida a RECONFIGURAR A ORAÇÃO, de modo que não só respeitemos o amor infinito e infinitamente gratuito do Deus de Jesus, mas também ajudemos a cultivar sua consciência(divina) na humanidade. Consideremos a questão nas palavras do próprio pensador:
(...) Insistir na importância da oração na vida religiosa seria chover no molhado. Tampouco é preciso salientar a íntima dialética entre a: “dize-me como é tua oração, e te direi como é teu Deus; dize-me como é teu Deus, e te direi como é tua oração”.  E, contudo, dificilmente se pode negar que hoje é de extrema urgência revisar muito a fundo o modo de orar, para que seja adequado à nova imagem de Deus exigida pela sensibilidade atual.
Não se trata, evidentemente, de “acomodar-se à figura desde mundo”,  mas absolutamente o contrário: de aproveitar a chamada dos “sinais dos tempos” como uma profecia que nos chega do melhor da evolução cultural e de sua repercussão na teologia, para realizar uma autêntica conversão. Se efetivamente se realiza, não se torna difícil descobrir que aquilo que é mais novo na realidade nos remete ao mais original e genuíno da experiência evangélica.
Quando os discípulos começaram a perceber a novidade que Jesus introduzia na imagem de Deus, compreenderam a necessidade de mudar seu modo de orar: “Senhor, ensina-nos a orar, como João o ensinou a seus discípulos” (Luc 11, 1). E Jesus ensinou-lhes a dizer: Abbá (pai, a rigor papai, uma vez que se trata de idêntica onomatopeia infantil). Porém, esse ensinamento, aparentemente tão simples, é tão sério e delicado que continuamente corremos o risco de obscurecê-lo, carregando-o com nossos medos e deformando-o com nossos fantasmas: Deus nos escapa para o além, para o céu, e acabamos por vê-lo distante, dominador e justiceiro.
Por essa razão, necessitamos redescobrir constantemente esse rosto que Jesus procurou nos revelar. Nesse sentido, a mudança cultural, tanto pela contribuição positiva dos estudos bíblicos como pela dura purificação negativa a que nos obrigou a crítica da religião, constitui uma oportunidade excelente. A resistência à mudança, ao contrário, a despeito da fidelidade à letra e apesar, ainda, de toda a boa vontade, corre o risco de transforma-se em uma terrível semeadura de ateísmo.
(...) Trata-se de afirmações fortes... Entretanto, talvez algumas simples referências possam indicar a profunda verdade para a qual apontam. O fio condutor é o seguinte:
Se “Deus é amor” (1Jo 4,8.16), ou seja, se todo o seu ser consiste em amar, fica óbvio que nos criou – e continua criando-nos e sustentando-nos, pois a criação é uma ato contínuo – para nossa realização e nossa felicidade (não, portanto, “para servi-lo”, nem “para sua glória”, ao menos no sentido normal que todos atribuem a essas palavras). Como criador, sua glória é nossa vida (Ireneu); como pai/mãe, sua alegria é ver nossa alegria, e se deleita com nossos êxitos e realizações. Por isso, na história da salvação – apesar de tantos erros terríveis, e pior, erros por nós cometidos – aprendemos que toda sua ação na comunidade é dirigida única e exclusivamente a ajudar a salvar.
Em Jesus, compreendemos finalmente que nem sequer compete a nossa expectativa, mas que seu amor nos precede desde sempre: “Ninguém pode vir a mim se o meu Pai que o enviou não atrair” (Jo 6,44); e que nos precede sem condições: “sobre os maus e os bons”, “sobre os justos e injustos” (Mt 5,45). Daí o chamado de Jesus à confiança total, pois “até os vossos cabelos estão todos contados” (Lc 12,7).
É claro que a um Deus assim não necessitamos pedir nada, porque já nos está dando tudo. O que necessitamos é justamente o contrário: deixar-nos convencer, ajudar e salvar; confiar em que, apesar das aparências, ele está sempre conosco, fazendo todo o possível por nosso bem e nossa felicidade. Se algo falha, não é nunca de sua parte, porque o que se opõe a nosso bem opõe-se identicamente a seu amor por nós (e com maior força, se é possível: também os pais humanos vivem antes e com maior  intensidade os males de seus filhos). Falhará a realidade que, como finita, tem sentenças inevitáveis; e falharemos nós, que não compreendemos, resistimos ou nos negamos às coisas.
Em última instância, quando algo que pode ter solução não a recebe, é porque nós não colaboramos com Deus. Então sim cabe falar em petição; porém de Deus para nós: para que nos deixemos salvar, para que acolhamos seu chamado e seu impulso em favor dos irmãos necessitados. Não é esse o sentido mais genuíno e, no fundo, único do “mandamento” do amor?  Texto de A. Torrres Queiruga – Pelo Deus do mundo no mundo de Deus – Edições Loyola
Continua...
Vassum Crisso


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Examinemos nossas orações de petições:

(...)Examinemos nossas orações de petições:

 Prescindamos, para tanto, das intenções subjetivas, examinando-as no que elas dizem em e por si mesmas. Partamos de um exemplo entre os milhões que se ouvem em qualquer domingo em nossas igrejas:

- Para que as crianças da África não morram de fome, roguemos ao Senhor.

- Senhor, escuta e tem piedade.

O que estamos implicando objetivamente aí e, portanto, gravando em nosso inconsciente individual e propagando no imaginário coletivo?

Procedendo com objetividade e falando cruamente (sempre com a ressalva de que não nos referimos às intenções subjetivas e conscientes), não há porque negar implicações gravíssimas. De um lado, o teor dessas petições implica: 1) que nós percebemos a necessidade e tomamos a iniciativa: somos bons e procuramos convencer a Deus para que também ele o seja; 2) que em troca, Deus se mantém passivo, ou pelo menos não suficientemente ativo e generoso até que nós o convençamos, se formos capazes. Por outro lado, e isto é muito mais grave: 3) que se no domingo que seguinte as crianças africanas continuam a morrer de fome, a lógica mais elementar impõe a consequência: Deus “não ouviu nem teve piedade”. Finalmente, e muitíssimo mais grave ainda: 4) que Deus poderia, se quisesse, solucionar o problema da fome e por conseguinte, também o das enfermidades e o dos acidentes, e o dos assassinatos e o das guerras...; porém, ao que parece, não quer fazê-lo.

Tomamos consciência do que significa tudo isso? Sem pretendê-lo em nossa intenção consciente, certamente porém implicando-o de modo necessário na objetividade do que decidimos, estamos projetando uma imagem monstruosa de Deus. Não apenas ferimos a ternura infinita de um amor que não pensa mais do que em ajudar e salvar, mas acabamos por dizer implicitamente algo que não nos atreveríamos a dizer nem do mais infame dos humanos. Porque quem, se estivesse a seu alcance, duvidaria em eliminar do mundo tanto mal e tanto mal e tanto horror? Será Deus o único capaz de tão inconcebível monstruosidade?...

Um texto de Andrés Torres Queiruga - teólogo e escritor galego. Realizou estudos no seminário de Santiago de Compostela e na Universidade de Comillas, passou dois anos em Roma realizando a sua tese. Foi professor de Teologia no Instituto Teolóxico compostelá e de Filosofia da Religião na Universidade de Santiago de Compostela. É membro da Real Academia Galega e do Consello da Cultura Galega; foi um dos fundadores e diretor da revista Encrucillada - PELO DEUS DO MUNDO NO MUNDO DE DEUS. Edições Loyola -

Continua...
Vassum Crisso











sábado, 9 de junho de 2012

Quadrado redondo:

Quadrado redondo
Miguel Garcia

"Como seria simples se pudéssemos satisfazer os anelos de toda a condição humana, em segurança, no nosso quarto de dormir! Nas palavras de Rank, queremos que o parceiro seja como Deus, onipotente para apoiar nossos desejos e abarcando tudo para podermos fundir nossos desejos nele - mas isso é impossível." Backer

Vassum Crisso

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Quando meu olhar encontra o Teu


Quando meu olhar encontra o Teu 
(Oração da tarde)
Miguel Garcia


Pai bondoso (graça minha),
Quando meu olhar encontra o Teu, sinto-me tão seguro e calmo...
É quando a penumbra reinante se dissipa e posso enxergar um mundo cheio das Tuas possibilidades.

Mãe misericordiosa (esperança minha),
Quando meu olhar encontra o Teu,
Jorra luz nas horas, nos dias... É quando a vida me parece mais bela e suportável; é quando prazer e gratidão já não cabem em palavras... É quando enterneço ante o milagre do Criador fitando a criatura, amor-osamente...

Pai maternal (amparo),
Quando meu olhar encontra o Teu,
É quando desejo pausa urgente, pois, sinto-me acanhado;
É quando careço de uma distensão da emoção, pois é vida demais, conforto demais, alegria demais pra mim!... É quando Tua paz me alcança, acaricia e convida a pertencer...

Mãe paternal (meu abrigo),
Quando meu olhar encontra o Teu,
É quando almejo descanso – ancorar nos Teus braços...

Pai e Mãe de ternura infinita,
Vejo um brilho de emoções e afetos raros...
É como quando a luz solar fita  um riacho - atravessando... É como quando o meu olhar encontra o Teu e sou perpassado por claridade benfazeja, Beleza, meiguice e suavidade Tuas: quando o meu olhar encontra o Teu... Amém. 

Vassum Crisso

terça-feira, 29 de maio de 2012

Sens-ação in-evitável - texto do Livro DI-VERSOS


Sens-ação in-evitável - 
Texto do Livro DI-VERSOS
 Miguel Garcia

Ai mãe, cadê teu rosto sereno, sombra de nuvens em teus olhos cinzentos como o mar?
Cadê tuas idéias singulares?
Por que fugistes de mim por alameda de eventos tão súbitos e dolorosos?

Fitei a vida inteira nos pontos do existir que abrigam memórias tuas. Cadê o conforto que nutria minha alma - santa delícia de tua presença benfazeja e revigorante?

Serei capaz de alijar em palavras isso que sufoca, tal consolo me alcançaria?
Ai mãe... Tenho considerado a vida totalmente inútil e sem sentido. Que solidão torturante!

Cadê a mulher que compartilhava meus segredos – sonhos, desejos, que me alojava em si?

Tédio doloroso - vazio interior é tua ausência aqui - tudo vira um deserto, um deserto horrendo, assolado por tempestades de melancolia e tristeza a-brasa-doras.

A vida parece girar tão rápido agora que você partiu... Chego ao ponto de nada mais desejar, a não ser, precipitar-me direta-mente no insondável, pois, quem se abandona não se prende à vida.

Ondas de um mar invisível rasgando o tempo... Oh! Lembranças entaladas na garganta: agarro-me a vós como alguém que sente o abismo sob os pés: cadê a mulher que me amava – minha Deusa - heroína, minha fonte, eu mesmo?

Que horror ser lançado ao caos como que por um alçapão aberto no caminho plano da existência, que horror! O coração bate em falso, o real despenca como pedra que cai do peitoril: cadê aquele olhar maternal, a claridade daquelas emoções? Cadê meu mar calmo, brilhando magnífico e azul, as paisagens delir-antes, as mil flores, o brilho de emoção que emudecia meu olhar?

Sei que toda dor é covarde. O sangue congelou em minhas veias, não nego. Sinto-me exaurido, esmagado, chicoteado por ironias – árvore atingida por um raio, desmaiado, sem alento, morto: será que um dia emergiremos juntos desse túmulo mortal? Ai mãe, cadê minha esperança?

Vassum Crisso

domingo, 27 de maio de 2012

O que é Fundamentalismo?

O que é Fundamentalismo?
Leonardo Boff

...Tentemos esclarecer o leitor o que seja fundamentalismo e o risco que representa para a pacífica convivência humana e para o futuro da humanidade.
...Intolerância - Não é uma doutrina. Mas uma forma de interpretar e viver a doutrina. É a atitude daquele que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista. Sendo assim, imediatamente surge um problema de graves conseqüências: quem se sente portador de uma verdade absoluta não pode tolerar outra verdade e seu destino é a intolerância. E a intolerância gera o desprezo do outro e o desprezo, a agressividade e a agressividade, a guerra contra o erro a ser combatido e exterminado. Irrompem guerras religiosas, violentíssimas, com incontáveis vítimas.
Não há nenhuma religião mais guerreira que a tradição dos filhos de Abraão: judeus, cristãos e muçulmanos. Cada qual vive da convicção tribalista de ser povo escolhido e portador exclusivo da revelação do Deus único e verdadeiro. Essa fé deve ser difundida em todo o mundo, em geral numa articulação com o poder colonialista e imperial, como historicamente ocorreu na América Latina, África e Ásia.
...É próprio do fundamentalismo responder terror com terror, pois se trata de conferir vitória à única verdade e ao bem e destruir a falsa ''verdade'' e o mal. Foi o que ambos, Bush e Bin Laden fizeram. Enquanto predominarem tais fundamentalismos seremos condenados à intolerância, à violência e à guerra e, no termo, à ameaça de dizimação da biosfera.
...Todos os fundamentalismos, não obstante o variado matiz, possuem as mesmas constantes. Trata-se sempre de um sistema fechado, feito de claro e de escuro, inimigo de toda diferenciação e cego face à lógica do arco-íris, em que a pluralidade convive com a unidade. Cada verdade se encontra indissoluvelmente concatenada à outra. Questionada uma, desaba todo o edifício. Daí a intolerância e a lógica linear. Daí sua força de atração para espíritos sedentos de orientações claras e de contornos precisos. Para o fundamentalista militante a morte é doce, pois transporta o mártir diretamente ao seio materno de ''Deus'', enquanto a vida é vivida como oportunidade de cumprir a missão divina de converter ou exterminar os infiéis. O grupo é o lar da identidade, o porto da plena segurança e a confirmação de estar do lado certo.
Como enfrentar os fundamentalistas? Estes são praticamente inacessíveis à argumentação racional. Nem por isso deve-se renunciar ao diálogo, à tolerância e o uso da razão para mostrar as contradições internas, subjacentes ao discurso e à prática fundamentalista.
...Estamos numa encruzilhada da história humana. Ou criar-se-ão relações multipolares de poder, eqüitativas e inclusivas com pesados investimentos na qualidade total da vida para que todos possam comer, morar com mínima dignidade e apropriar-se de cultura com a qual se possam comunicar com seus semelhantes, preservando a integridade e beleza da natureza ou iremos ao encontro do pior, quem sabe, ao mesmo destino dos dinossauros. Armas para isso existem e sobra demência. Faz-se urgente mais sabedoria que poder e mais espiritualidade que acúmulo de bens matérias. Então os povos poderão se abraçar como irmãos na mesma Casa Comum, a Terra, e irradiaremos como filhos da alegria e não como condenados ao vale de lágrimas.
Leonardo Boff, 1938, teólogo e escritor,autor de A oração de São Francisco: uma mensagem de paz para o mundo atual (Sextante)

Para ler o Artigo completo acesse: http://www.cefetsp.br/edu/eso/guerrairaque/fundamentalismoboff.html

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Para quem iremos nós?


Para quem iremos nós?
Miguel Garcia

Para quem iremos nós se não desejamos ancorar e delimitar nossas vidas com aléns que estejam logo à mão, pouco adiante, ou forjados por nós mesmos?

Para quem iremos nós se a intuição nos con-vida a ingressar no além (afora; a outra vida) da religião?

Para quem iremos nós se o homem deve cultivar a passividade da renúncia a si mesmo aos mais altos poderes, não importando quão difícil isso seja, se qualquer coisa abaixo disso seria menos que o pleno desenvolvimento da pessoa, ainda que lhe pareça fraqueza e conciliação aos melhores pensadores?

Para quem iremos nós se não somos capazes de fechar os olhos à necessidade profunda da pessoa humana, se afirmamos a necessidade de uma ideologia realmente religiosa, inerente à natureza humanal e capaz de satisfazer a necessidade básica de qualquer gênero de vida social?

Para quem iremos nós se já que não cremos que a entrega a Deus seja masoquismo, que esvaziar-se de si mesmo seja degradante, mas ao contrário disso: se cremos que o ponto mais distante que o eu pode alcançar, que a máxima idealização acessível ao homem seja exatamente esse “abandonar-se” em Deus – expansão amorosa do Ágape – verdadeira realização criativa?

Para quem iremos nós se apenas desse modo, se só rendendo-se à grandeza da natureza no mais elevado e menos fetichizado nível é que pode o homem conquistar a morte?

Para quem iremos nós se a confirmação heroica da vida de cada um fica além do sexo, do outro, da religião particular, se toda essa lista de coisas não passa de arre-medos que atraem o homem para baixo, ou o enclausuram , deixando-o despedaçado pela ambiguidade – incerteza; dúvida?

Para quem iremos nós se o homem sente-se inferior precisamente por carecer dos “verdadeiros valores interiores na personalidade”, quando é meramente um reflexo de algo vizinho dele (sombra de sombras) e não possui um giroscópio firme em seu íntimo?

Para quem iremos nós se, a fim de conseguir um centro, o homem tem de olhar para além do tu, além dos consolos dos outros e das coisas deste mundo?

Para quem iremos nós se o homem é um ser teológico e não biológico?

Para quem iremos nós se nossa cultura pública e privada, sobretudo a das elites, se dissolve em corrupção, cocaína, apatia politica, consumo e filosofias-de-retoques-e-maquiagens?

Para quem iremos nós se o que se oferece em troca da mensagem e proposta de vida crística é uma cervejinha no sábado à tarde, um grito de gol a cada dois anos , três dias de desfiles nas avenidas, ou ainda o culto ao próprio umbigo, às lágrimas e suspiros românticos, a obsessiva pergunta “quem pode ter orgasmos com o quê e com quem”, ou, finalmente, o sonho da semana de compras em Miami?

Para quem iremos nós se só Tu tens as palavras de vida e-terna, Vida?

Vassum Crisso

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Todas as coisas são como o amor


Todas as coisas são como o amor.
Miguel Garcia

Eis a chave para melhor compreender o que se passa com a vida "religiosa" atual:
(...)Faltava abandonar a velha escola...
Fazer da minha vida sempre
O meu passeio público
E ao mesmo tempo fazer dela
O meu caminho só
Único

Só falta ...
Iluminar a vida
Já que a morte cai do azul...
Me dá um beijo, então
Aperta a minha mão
Tolice é viver a vida
Assim, sem aventura...

Deixa ser
Pelo coração
Se é loucura então
Melhor não ter razão" (“Teólogo” Lulu Santos)

Em outras palavras: a coisa é boa exatamente porque 'endoidece' - embute - produz êxtase. É como no estado de apaixonamento (divinização de amores humanos): a pessoa fica fora de si e, no entanto, é isso que à "liberta", que "salva" da condição de fantasma torturado; que "redime";  é isso que adia a loucura do hospício, a disfunção cabal e sensação de inutilidade (falta de sentido), o que engendra expectação de descarte, enquanto a sucção final não vem. Parafraseando Goethe: todas as coisas são como o amor.

Vassum Crisso

domingo, 6 de maio de 2012

Oração ao Deus que ama porque sim



Oração ao Deus que ama porque sim
Miguel Garcia

Nossa inspiração, confiança e promotor da vida,
Pai-e-Mãe de puro amor e bondade infinita,
Deus de toda graça, livramentos e alegria; nosso “cúmplice”,
apoio, ajuda na dura tarefa da vida; Deus nosso, alívio e libertação. 
Amor que salva, refugio seguro, Criador a quem “pedimos” auxilio, Mãe que agasalha ternamente e alimenta com delicadeza e amorosidade, porque sim.
Mão estendida para nosso exclusivo interesse és Tu: causamos danos a nós mesmos quando não acolhemos Teu amparo e proteção; preparamos para nós trágica armadilha, tornando mais aguda a dureza da vida, quando ilusoriamente cremos estar tornando-a mais fácil.
Deus que sofre em seu amor ao ver que aquele que é amado se recusa a ser feliz.  
Deus que não castiga de maneira alguma, que tão somente quer presentear-nos com um dom, criar felicidade. Castigo seria recusarmos esse dom, privando-nos da felicidade e abraçando uma existência “infernal”, um ‘nada’, um vazio – negatividade - solidão.
Jesus, dom personificado; amado Salvador; perdão sem limite, defensor do pobre, consolo na angústia, liberdade na opressão, amor-ânimo sempre presente - Emanuel – Deus ao nosso lado, perpassando a realidade toda, irrompendo como transparência de Eternidade, apoio e sustento íntimo: bendito seja Teu santo nome, amém!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Sobre rostos belos e trans-parentes de Eternidade

Sobre rostos belos e trans-parentes de Eternidade
Miguel Garcia

Concordo com Beker quanto à afirmação que não há uma resposta garantida para o temeroso mistério do rosto humano que se examina ao espelho.
Um rosto pode ter aparencia divinal e miraculosa, contudo, meu eu menino não dispõe do poder sobrenatural para saber o que ele significa, não dispõe do vigor sobre-humano responsável pelo aparecimento de tais realidades cativantes. E é aí que desfaleço em espírito, sentindo-me insuportavelmente “oprimido” (o-pressão de beleza) por tamanho peso. Afundo sobre um oblívio de beleza, sempre que atingido pela misteriosidade que um rosto adorável irradia.
Uma criança derrotada pelo caráter esmagador da realidade e da experiência me habita. Perco a serenidade necessária em um mundo não-instintal. Jamais abandonei o êxtase. Jamais superei o temor respeitoso, deixando para trás o assombro e o "terror" ante o irresistivelmente Belo  – o fascínio por contornos mágicos. Jamais fui capaz de ações autoconfiantes e descontraídas; não naturalizei meu mundo, ou o contrário disso: jamais desnaturalizei meus ambi-entes, falsificando-os com a “verdade” escurecida, o desespero da condição básica humana escondido. Vislumbro em meus sonhos noturnos e nas fobias e neuroses diurnas, o verdadeiro horrível, ou o contrário disso, se é que não flutuo, por falta de “gravidade”.
Jamais fui prudente o bastante ou construtor de diques e sangradouros, capazes de impedir, a tempo, devastações que se erguem contra paisagens-internas-psicológicas.
Paixão é torrente que se agiganta em grandes ondas, avança rugindo e ameaça as almas mar-av-ilhadas. Jamais evitei esse desamparo, edificando muralhas protetoras intransponíveis.
Milagre primário é o rosto humano. Paralisa a pessoa por seu aspecto esplendoroso, se esta cede ante ele como a coisa fantástica que de fato é. Jamais reprimi, permanentemente, uma sensação arrebatadora e miraculosa, de modo a poder funcionar com equanimidade, usando rostos e corpos para fins de rotina.
Como colher o fulgor de uma estrela e armazená-lo em si, sem o custo de sérios prejuízos? Como olhar de frente uma face sublime e vencer o temor do real, da intensa concentração de maravilha e poder naturais; o pavor de ser esmagado pelo universo tal como é ao ser essa verdade do universo focalizada num rosto humano?
Penso que encarar certas pessoas seja comparável à fatalidade inevitável de ser consumido pela perfeição numa fração de segundo - eva-porar, ao obedecer a sedução irresistível de um "canto" armadilhoso. Encarar certas belezas se faria arriscado como voltar-se e fixar o olhar numa fábula viva e radiante; como fitar a formosura de uma corporalidade sublime - fatal como contemplar, a olhos nus, as feições de uma Vênus encarnada...
Quem, em sã consciência, poderia negar a miraculosidade de um rosto belo e trans-parente de Eternidade?

Vassum Crisso