sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Sobre o que “não deveria ser”...

Sobre o que “não deveria ser”...
(Reflexões sobre o mal, ins-pirado no livro: REPENSAR O MAL – A.T. Queiruga)
Por Miguel Garcia

Lendo um dos títulos do genial teólogo Andrés Torres Queiruga (REPENSAR O MAL) – Paulinas Ed., refleti sobre alguns conceitos que agora compartilho com os amigos (as):

Existe o mal padecido e o mal infringido, o da enfermidade e o do crime, o individual e o coletivo, o da catástrofe natural e o da traição do ou ao amigo; o mal de algum modo tolerável, o que parece ter um sentido e o que se mostra irremediavelmente absurdo... Há o mal visto à altura humana e o que intuímos no sofrimento animal ou mesmo nas catástrofes naturais... Tomado em seu sentido mais óbvio e fundamental, o mal é um ‘fenômeno’ antropológico ‘original’. É aquilo que em um dado momento percebemos como o que não deveria ser; é, como dizia Santo Agostinho, “o que causa dano”, acrescentemos: a si mesmo e aos demais. Não necessita ter um conceito preciso para se fazer sentir: “ é antes um nome para o que nos é ameaçador”. Como escreve Ingolf Dalferth: “O caleidoscópio do mal conhece inúmeras variações na vida humana, porém sempre causa dano e destrói vidas de modo insensato e absurdo”. Alias, para ser percebido como problema real, o que é considerado mal nem sequer precisa ser real em si mesmo: no limite, também um mal imaginário pode atormentar e se apresentar como o que não deveria ser. Experiência elementar , fenômeno primário, duro desafio para a humanidade, o mal. “Pode-se negar o mal, porém não o sofrimento” (Georg Buchner). Ainda que o sofrimento não seja o único mal, o realismo da frase corta pela raiz a tentação de evasão teórica.
Para compreender a real seriedade do que está em jogo, basta simplesmente pensarmos que se trate disso ao qual remetem igualmente o choro ainda “sem palavras” – do recém nascido e a busca de remédio para uma ferida ou uma enfermidade; “isso que comove a humanidade diante das grandes catástrofes naturais; “isso” que torna repugnante uma traição ou suscita horror perante a escravidão , o holocausto ou a fome do mundo. O “mal” é, em seu significado mais elementar e em sua mais inegável realidade, aquilo que experimentamos como o que subjetivamente “não queremos” e do que objetivamente pensamos que “não deveria ser”, e que, bem por isso, rejeitamos e procuramos eliminar ou, pelo menos suavizar. ()... Basta uma visita - com olhos, os ouvidos e o coração abertos - a qualquer hospital, sem falar nos horrores de uma guerra, para compreender a terrível seriedade que paira por sobre e penetra tudo o que "não deveria ser": o mal... 

Vassum Crisso

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Sur-presa!

Sur-presa!
Miguel Garcia

Alguns imprevistos podem provocar dores galopantes num ser apaixonado, sobretudo, se tal criatura cultivou a idéia de que, para ser surpreendente, um evento ou circunstancia deva ser breve. Mas como nomear uma surpresa sem fim? Qual o nome de algo que nos impede de voltar ao normal? O que nos faz querer viajar no tempo, testemunhar acontecimentos indesejáveis - revisitar em pensamento?  Como escapar de uma flecha que ameaça nos congelar definitivamente na perplexidade?

Vassum Crisso

Efeito contrário

Efeito contrário
Miguel Garcia

O corpo apertado numa calça jeans de cintura baixa, o rosto salpicado de pó. Ao querer negar demais o tempo, ela o havia precipitado. Maquiagem pesada e alisamentos químicos substituíram o belo rosto de uma mulher de 40 anos de idade por uma máscara sem tempo.

Vassum Crisso

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Se os Tubarões Fossem Homens

Se os Tubarões Fossem Homens
Parábola de Bertold Brecht e algo mais...

O bicharada humanal permanece aquém dos seus pares 'menos evoluídos', posto que não existe competição (no sentido predatório do termo) entre os seres vivos não-humanos. Miguel Garcia.

“Quando o homem chama determinados animais de predadores está antropomorfizando-os, ou seja, projetando neles uma condição que lhe é peculiar. Como não competem entre si, os sistemas vivos não-humanos não "ditam" uns aos outros normas de conduta. Mantidas as condições naturais, entre eles não há comandos autoritários nem obediência irrestrita. Os seres vivos são sistemas autônomos, que determinam o seu comportamento a partir de seus próprios referenciais, isto é, a partir de como interpretam as influências que recebem do meio. Se tal não acontecesse, seriam sistemas sujeitados, obedientes a determinações vindas de fora.  
No caso das sociedades humanas, em que as condições não são apenas as da natureza, é isso que o marketing e outros meios de condicionamento de massa tentam (e em boa parte dos casos conseguem) fazer com populações inteiras. É, portanto, possível a produção em grande escala de indivíduos sujeitados, embora para isso os estímulos condicionadores precisem ser amplos e ininterruptos.  
É o que o psicanalista Félix Guattari chama de produção de subjetividade. Com essa noção ele introduz a idéia de uma subjetividade industrial, fabricada, moldada pelo capitalismo. Trata-se da introdução de gigantescos sistemas de formatação e condicionamento, por meio dos quais o capital (hoje em sua fase de triunfalismo) constrói e mantém o seu imenso mercado de poder. É disso mesmo que se trata: transformar em sujeitado um sujeito natural. Ou seja, implantar e levar adiante a violência sobre a característica mais básica dos sistemas vivos — a autopoiese."  Humberto Mariotti                  


Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentis com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não morressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.
Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.
Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.
Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões. A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali.
Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A E-terna-idade no momento

A E-terna-idade no momento
Miguel Garcia 

A vida não deve ser desprezada.
Ninguém será redimido no além. 
Não haverá recompensas celestes.
Eternidade não é uma série ininterrupta de instantes, 
nem medida arbitrária da duração das coisas. 
Eternidade não tem nada a ver com o tempo: 
eternidade é dimensão do aqui e agora; 
eliminada, se pensarmos em categorias temporais. 
Viva agora, ou em tempo algum, a e-terna-idade no momento.

Vassum Crisso

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Fugitiv-idades!

Fugitiv-idades!
Por Miguel Garcia

O que seria neutro e funda-mental na existência humana, senão a miséria imposta a todas as gentes e o pesado jugo que carregam os filhos de ‘Adão’, desde o dia em que saem do ventre das origens fontes, até o regresso ao seio da mãe de todos: os seus cuidados, sobressaltos do coração, a apreensão de esperar, o dia em que tudo se finda; desde o que está sentado sobre um trono de glória até aquele que jaz abatido na terra e na cinza; desde aquele que veste púrpura e cinge a coroa ao que está vestido de estopa, tudo é furor, inveja, inquietação, perplexidade, terror de morte, ressentimentos e contendas? E até na hora de repousar no leito, o sono da noite irá  perturbar o espírito... Por pouco tempo - um instante, goza a paz e, logo, em sombras se afadiga como de dia, como um fugitivo tentando escapar aos seus perseguidores. No momento de se por a salvo, acorda e todo se maravilha por ser vão o seu temor. 

Adaptado do texto do Eclesiastes - Bíblia Sagrada.

Vassum Crisso

sábado, 24 de setembro de 2011

O Bicho

 O Bicho
(Adaptado do poema de Manuel Bandeira)

Vi ontem um bicho
Na imundície do ‘pátio’
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era uma pastora negra e missionária.

Vassum Crisso

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Melo dos nega-dos

Melo dos Nega-dos
Adaptado da letra: Mil Perdões - Chico Buarque

Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz
Te perdôo
Por pedires perdão (não reconhecer-me como legítimo outro em convivência, por imaginar-te deveras piedoso ao pedires perdão, fazendo-te superior a mim, tu: “a mais humilde das criaturas terrestres”. Por ufanar-te e bravatear de forma camuflada, polida e tor-tu-r-ante).
Por me amares demais: ‘projetares tuas expectativas descabidas por sobre mim – fazer-me tua tela vazia;  por essa forma de egoísmo disfarçado que insistes em chamar de amor, por super-inflacionar minha pessoa, negando-me no processo, perdendo a ti e a mim no afã de empreender teu projeto em causa própria - “heroísmo cósmico”.


Te perdôo
Te perdôo por ligares
Pra todos os lugares
De onde eu vim
Te perdôo
Por ergueres a mão (de tua tácita indiferença)

Por bateres em mim (das trincheiras - lugares altos - púlpito)
Te perdôo
Quando anseio pelo instante de sair
E rodar exuberante
E me perder de ti (da farsa esdrúxula e maquinal – ri-tu-ais, cerimoniais e lit-urgias vazias e causticantes)
Te perdôo
Por quereres me ver
Aprendendo a mentir (te mentir, te mentir)
Te perdôo
Por contares minhas horas
Nas minhas demoras por aí
Te perdôo
Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair


Adapt-ação: Miguel Garcia - Vassum Crisso

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Quer ser "conhecido" ("a")?


Quer ser "conhecido" ("a")?
Miguel Garcia

Segundo o que pude assimilar de Moltmann e Kant, no pensamento do mundo moderno, conhecer alguma coisa significa dominar essa coisa - ter poder sobre a mesma – apoderar-se dela. Compreendi que pelo conhecimento científico, adquirimos poder sobre os objetos e, deles nos apropriamos. Compreendi que o pensamento moderno operacionalizou a razão e, que esta última, só conhece “o que considera 'fruto' de seus projetos particulares” - o que ela mesma produz; que ela (a razão), tornou-se um órgão produtivo, deixando de ser um órgão perceptivo que constrói seu próprio mundo e, só se reconhece a si mesma em seus produtos. 
Cabe considerar que, conhecer em algumas línguas europeias, equivale a capturar: compreendemos algo quando o “temos em nossa captura”. Tendo capturado algo, fazemos disso nossa propriedade. De posse desse algo, dele 'podemos fazer o que bem entendemos'. O interesse que orienta o conhecimento da razão moderna deve ser designado como conquista e dominação.
As idéias dos pensadores acima citados, por fim, levaram-me a perceber que: conhecer para os filósofos gregos e para os antigos padres da igreja católica, significava outra coisa: significava conhecer pela admiração, desse modo, pelo conhecimento poder-se-ia participar da vida de outra pessoa. O ato de conhecer um ‘objeto’ que se apresenta, não o transforma em propriedade do conhecedor, mas ao contrário: por força da simpatia, transforma o conhecedor em elemento participativo do conhecido.  O conhecimento funda comunhão. Por isso, o conhecimento tem o mesmo alcance que o amor, a simpatia e a participação. Posto isto, fica claro que necessitamos ingressar num processo de profunda transformação do conceito moderno da razão: do domínio para a comunhão; da conquista para a participação; do produzir para o perceber. Nosso desafio é o de ver liberada a razão que hoje mofa encarcerada em automatismos desumanizantes, o que resulta em seríssimas distorções do real e abandono de qualquer suavidade e delicadeza possíveis.
Quer ser "conhecido" ("a")?

Vassum Crisso

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Porque não uso mais Play Backs


Porque não uso mais Play Backs
Miguel garcia

É amigos... o mundo moderno tornou-se pragmático: o que não pode converter-se em fato não tem valor. So-mente a prática confirma uma teoria, pois a realidade passou a ser o mundo histórico da humanidade. O próprio homem entende a si mesmo como um ser histórico. Unicamente na práxis da histórica é que ele encontra a correspondência possível entre ser a consciência. Para ele, a verdade ocorre apenas no fato verificável. Por isso, para o homem moderno, a verdade deve ser sempre concreta. E isso para ele significa: ela deve ser feita. É a moderna passagem da teoria da verdade para a verdade prática. Mas a ‘verdade’ que em determinadas circunstancias não pode ser tornada ‘real’ deverá ser por isso menosprezada e rejeitada, tal como minhas tentativas de utilizar Plays Backs?


Vassum Crisso

domingo, 14 de agosto de 2011

DI-VERSOS - MIGUEL GARCIA

DI-VERSOS 
Miguel Garcia
(Crônicas, prosa poética, poemas e disson-âncias)

À venda nas melhores livrarias!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Libras: para que as mulheres "não" estejam caladas na igreja!

Libras: para que as mulheres "não" estejam caladas na igreja!
(Ai dos que tem olhos para ouvir)
Miguel Garcia

Embora quase ninguém perceba, ..."não foram só os homens a aceitarem a versão patriarcal da realidade. As mulheres também foram ensinadas a idealizar os valores masculinos em detrimento do lado feminino da vida. Muitas mulheres passaram a vida com um constante sentimento de inferioridade por acharem que o feminino era a “segunda melhor opção”. Foram “educadas” para considerar que apenas as atividades masculinas, raciocínio, poder e sucesso, têm valor real; e assim, a mulher ocidental acaba se vendo no mesmo dilema psicológico do homem ocidental: desenvolve um domínio unilateral e competitivo das características masculinas, em detrimento do seu lado feminino". (R. Jonhson)

Ai dos surdos e mudos expostos ao sadismo grit-ante de "evangeliz-a-dores"!
Ai dos que outrora podiam mergulhar no poço profundo - oceano de luz; ali onde se compreende tudo, ali onde se pode ter uma confiança absoluta. Ai dos que, outrora, desciam às forjas da vida, ao centro, ao foco, ali onde tudo se funda e se decide - no âmago deles mesmos, não se encontravam, porém, mais do que a si mesmos, bem mais do que a si mesmos: um mar de lava em fusão; um infinito móvel e mutante onde não percebiam palavra alguma, nenhuma voz, nenhum discurso; onde experenciavam uma sensação nova, terrível, gigantesca, única, inesgotável: o sentimento de que tudo é justificável.


Ai dos que agora ou-veem, por meio de gestos ruidosos, aqueles que lamentavelmente falam, falam e não dizem nada de coisa alguma. Ai dos que suspiram por serem normais.
Ai dos que agora são levados a esquecer que o Reino de Deus está dentro e não fora de nós.

Vassum Crisso!



terça-feira, 9 de agosto de 2011

Negro não entra na igreja, espia da banda de fora!

Negro não entra na igreja, espia da banda de fora!
(Livro de José Carlos Barbosa)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Os ‘homens de deus’ viajaram...

Os homens de deus viajaram...
Miguel Garcia

Foram além de uma cultura fundada no recalque dos desejos e, portanto, numa cultura da neurose. Adentraram a livre expressão, 'per-verteram-se'.  A ‘saúde’ mental dos homens de 'deus' não se origina mais numa harmonia com o Ideal, mas com o objeto de satisfação. A tarefa psíquica deles se vê enormemente atenuada e a responsabilidade desses sujeitos, apagada por uma regulação puramente orgânica. Percebe-se um notável consenso no nível do comportamento que adotaram:  inauguraram uma nova moral; uma nova forma de pensar, de julgar, de comer, de transar, de casar ou descasar, de lidar com a família, a pátria, os ideais, de viver - desfrutar.
Não há mais referencias firmes estabelecidas e inabaláveis, não é mais o caso. Os homens de deus "viajaram": autorizam-se por sua própria existência - constituem sua própria área - seguem seu próprio curso.
Tornaram-se mutantes os tais homens, mutantes de uma economia psíquica organizada pelo recalque à outra organizada pela exibição do gozo. Notemos como estão marcados pelo estado específico de uma exibição do gozo – gozo desimpedido, o que implica deveres radicalmente novos, impossibilidades, dificuldades e sofrimentos singu-lares.
Os homens de deus ‘progrediram’ considerável-mente, mas, ao mesmo tempo, como frequentemente ocorre, esse ‘progresso’ chegou portando pesadas ameaças – auto custo.
Os homens de deus consideraram e, posteriormente abraçaram a hipótese de que o céu está vazio, tanto de Deus quanto de ideologias, de promessas, de referências, de prescrições, e que os indivíduos têm que se determinar por si mesmos, singular e coletivamente.
Para as tais 'beldades' não há mais impossíveis; eis a verdadeira arte de viver da ‘fé’.
Não há mais nem autoridade, nem referências, menos ainda saber que se sustente. Estamos apenas na gestão, há apenas práticas.
Os homens de deus viajaram, estão a centenas de milhas de uma Delicadeza qualquer.
Talvez seja o caso de ouvir o conselho de Espinoza: não rir, não chorar, não detestar, fazendo de tudo para compreender...

Vassum Crisso

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A glória de Deus é o homem vivo!

A glória de Deus é o homem vivo!
Miguel Garcia

Segundo o que pude sorver do importante legado do Pe François Varillon, Deus é um ser pessoal, Deus é amor. O amor não é um atributo de Deus. Efetivamente, pode-se dizer que Deus é grande, que Deus é poderoso, que Deus é infinito; mas o amor não se situa no mesmo plano, não é um atributo divino, é o próprio ser de Deus. Pode-se pois, chamar ao próprio Deus de amor. O amor é que é infinito, o Amor é que é todo-poderoso, o Amor é que é transcendente.
Esse Deus pessoal não tem inveja de nossa liberdade, Ele a respeita, Ele a criou, Ele a quis. Ele está no princípio de nossa ação. Não há contradição entre o reconhecimento de Deus e a afirmação da autonomia do homem, pois Deus é o princípio de exercício de nossa liberdade, Deus é a iniciativa de nossas iniciativas. Ele nos ch-ama a "viver de sua própria vida". Daquilo que é a vida de Deus é que somos ch-amados a partici-par, para difundi-lo no mundo a serviço dos outros. Deus e a história não são inimigos, não estão separados:

"A glória de Deus é o homem vivo" - (A glória de Deus é o bem estar da humanidade inteira). Sto Ireneu

Se Deus é amor, não é um Deus invejoso, não é um deus dominador (o verdadeiro amor jamais se apodera), o Deus de Jesus não é Júpiter... 
Entre dois seres, qual o mais desvalido, o mais dependente? Aquele que mais ama, por certo. Na relação entre Deus e o homem, Deus é o mais dependente, o mais humilde, segundo Varillon e também segundo o que acredito de todo coração.

Vassum Crisso

terça-feira, 5 de julho de 2011

Abra os olhos

Abra os olhos
(sobre con-vers-ações in-ter-religiosas)
Miguel Garcia

Abra os olhos e veja que encontramo-nos diante de um problema profundo, de tecitura delicada e implicações transcendent-ais.
Abra os olhos e perceba a presença de fundamentalismos, a instrumentalização dos credos religiosos para fins de exploração mercantilista, negação do humano e até mesmo fins bélicos.
Abra os olhos e repare na inquietude espiritual e por vezes hostil das "religiões" em dias atuais.
Abra os olhos e contemple a urgência do diálogo inter-religioso; diálogo que seja parteiro de idéias novas para um possível aumento da percepção conjunta do real, numa manifestação clara e honesta; diálogo que implique o reconhecimento de cada posição e a suspensão provisória de pressupostos - diálogo fertilizador.
Abra os olhos contra a radicalidade endoidecida, no sentido de romper lugares-comuns e os preconceitos arraigados.
Abra os olhos estendendo a mão à arte dialógica, convidando ao debate e animando a práxis renovada: abra os olhos!

Vassum Crisso!

A boa teologia não deixa um rastro de morte e destruição!

A boa teologia não deixa um rastro de morte e destruição!
Miguel Garcia



Quem sabe da boa teologia é e sempre foi o Gilberto Gil, duvida?

PALCO
Gilberto Gil

Subo nesse palco
Minha alma cheira a talco
Como bumbum de bebê, de bebê
Minha aura clara,
 Só quem é clarividente pode ver
Pode ver
Trago a minha banda,
Só quem sabe onde é Luanda
Saberá lhe dar valor, dar valor
Vale quanto pesa prá quem preza o louco bumbum do tambor
Do tambor
Fogo eterno prá afugentar
O inferno prá outro lugar
Fogo eterno prá consumir
O inferno, fora daqui
Lá, lá, lá...


Vassum Crisso

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Tudo =!


Tudo =!

O crime, a política e as instituições "religiosas" são a mesma coisa.
Miguel Garcia

Marcha pra Jesus poderia ser seqüência do que realizou o Cristo histórico, sucessão: a marcha dos acontecimentos transformadores de realidades existenciais - da verdadeira Glória de Deus - Glória de Deus que é o homem vivo - pessoas - vítimas da história -  crucificados do planeta . 
Marcha pra Jesus poderia ser um modo de pro-ceder; um comportamento em relação à vida como um todo, não apenas a vida de um nicho, uma fatia pequena, mas da humanidade inteira, sem distinções, contudo, essa que está aí é apenas marcha fúnebre: marcha triste, destinada aos "enterros solenes", ofícios e comemorações fúnebres; marcha surda: aquela feita sem rumor aos olhares mais atentos. Marcha manipulada, endoidecida, produto da sobrecarga sensorial e a liquefação de signos e imagens da sociedade-cultura pós-moderna, o que resulta está bem aí: uma cultura “sem profundidade”: marcha que embaça as distinções entre comércio e cultura e caracteriza a cidade pós-moderna como um sistema utilitarista de produção e consumo. Marcha-atestado de que a arte e a realidade trocaram de lugar numa "alucinação estética do real"; tudo, do mais banal ao mais marginal, estetizou-se, e desta maneira transforma-se a insignificância do mundo atual. No momento em que tudo é estetizado, que a vida nas grandes cidades tornou-se estetizada, os indivíduos são bombardeados por imagens e objetos descontextualizados, mas que evocam sonhos e desejos para um consumo desenfreado cujo resultado é o aumento indefinido dos lucros no capitalismo tardio: marcha pra Jesus?

Eis a marcha em que o signo e a mercadoria juntaram-se para produzir a "mercadoria-signo", ou seja, a incorporação de uma vasta gama de associações imagéticas e simbólicas, que podem ou não ter relação com o "produto" a ser vendido, processo este que recobre o valor de uso inicial dos "produtos" e torna as imagens mercadorias. O valor destas imagens confunde os valores de "uso" e troca, e a substância é suplantada pela aparência. Na "época do signo", produz-se, simultaneamente, a mercadoria como signo e o signo como mercadoria.

Eis a marcha do faz-de-conta que domina a sociedade-cultura de consumo pós-moderna e evidencia sua característica principal que é apresentar um grande número de bens, mercadorias, experiências, imagens e signos "novos" para que as multidões pós-modernas desejem e consumam. Marcha da esquizofrenia onde o indivíduo enfoca determinadas experiências e imagens desconectadas, isoladas, e que não se articulam em seqüências coerentes, sendo este enfoque feito com intensa imersão e imediatismo. Isto quer dizer que o tempo e a história não constituem mais uma lógica compreendendo processos e relações sociais reais; a história reduz-se a significantes (estilos, referências, imagens, objetos) que podem circular independentemente de seus contextos originais. Neste quadro, a posição dos indivíduos pode ser assim caracterizada: "apatia em relação ao passado (o legado do Cristo histórico não interessa a quase ninguém); renúncia sobre o futuro (gozar a qualquer preço e imediata-mente) e uma determinação de viver um dia de cada vez.


Vassum Crisso

Alguns argumentos do meu artigo podem ser encontrados no link/fonte abaixo: http://www.angelfire.com/sk/holgonsi/consumismo2.html

sábado, 2 de julho de 2011

Quadrado redondo:

Quadrado redondo
Miguel Garcia

"Como seria simples se pudéssemos satisfazer os anelos de toda a condição humana, em segurança, no nosso quarto de dormir! Nas palavras de Rank, queremos que o parceiro seja como Deus, onipotente para apoiar nossos desejos e abarcando tudo para podermos fundir nossos desejos nele - mas isso é impossível." Backer

Vassum Crisso

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Sobre eclesiásticos invernais:

Sobre eclesiásticos invernais:
Miguel Garcia

Não se adivinhava neles uma unidade profunda, ao contrário disso: transmitiam nítida impressão de personalidades fragmentadas. Não havia neles algo como um princípio procedente de inspiração unificadora. Eles eram muitos, penso que cada um deles era uma “legião”.
Obcecados por si mesmos e por seus projetos de auto-expansão narcisista, exigiam que o mundo girasse em torno do “heroísmo cósmico” que empreendiam a custa de incontáveis vítimas.
Eram atentos ao número das frases, a música das palavras, sensíveis à precisão de epítetos, ao peso de um termo, ao modelar de imagens, à busca incansável por si mesmos, à expressão mais justa, mais concisa, mais clara, lapidando textos escritos, sermões, pronunciamentos, redigindo conferências, comprazendo-se com preciosismos e artifícios literários em detrimento total e absoluto da aceitação de outros como legítimos outros em convivência, viviam ilhados.
 Negavam a si mesmos ao negarem seus semelhantes, negavam o fato de serem seres multidimensionais. Não amavam nem mesmo as multidões, amavam a si mesmos por intermédio das mesmas, amavam o fato de serem elas as financiadoras de seus desígnios nababescos justificados e legitimados em nome do Nazareno – do evangelho, do reino de Deus.
Eram pastores-homens-de-letras. Eram eclesiásticos “belos” espíritos que freqüentavam saraus literários e reduziam seus ministérios à companhia de letrados. Desviados do ofício de cura das almas e finalidades correspondentes, faziam da literatura uma diversão; um ópio, uma vacina diária contra a loucura do hospício. Não nutriam fé no casamento das palavras com as ações, não criam nos outros, nem em Deus, nem em si mesmos por conseguinte. Fizeram com que a vida da igreja se tornasse cinzenta, angusti-ante, caótica, desesperada, invernal e triste.

Vassum Crisso

domingo, 26 de junho de 2011

Examine as pessoas à sua volta!

Examine as pessoas à sua volta!


Examine as pessoas à sua volta e irá ouvi-las falar em termos precisos sobre elas mesmas e seu meio, o que parecerá indicar que elas têm idéias sobre o assunto. Mas comece a analisar essas idéias e irá descobrir que praticamente não refletem, de forma alguma, a realidade a que parecem se referir, e se você aprofundar mais sua análise irá descobrir que não há nem mesmo uma tentativa de ajustar as idéias a essa realidade.
Muito pelo contrário: através dessas teorias, o individuo está tentando cortar qualquer visão pessoal da realidade, de sua própria vida. Porque a vida é, no princípio, um caos no qual a pessoa se acha perdida. O indivíduo suspeita que seja assim, mas tem medo de se ver face a face com essa realidade, e tenta cobri-la com uma cortina de fantasia, onde tudo está claro. Não o preocupa o fato de suas “idéias” não serem verdadeiras, ele as usa como trincheiras para a defesa de sua existência, como espantalhos para espantar a realidade.

Adaptado do texto de José Ortega Y Gasset

Vassum Crisso!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Perdoem!

Perdoem!
Miguel Garcia

Perdoem o distanciamento. Não pude suportar a companhia de uma gente tão sofrida e negada - isso que ocorre a todo instante em atos triviais do cotidiano, perdoem. 
Perdoem a ânsia irresistível de escapar da comunhão compulsória.
Perdoem o desejo de ficar a sós com pensamentos, a saudade de um lugar de recolhimento e solidão.
Perdoem a felicidade ao retirar-me..., ao almejar isolamento.
Perdoem por sonhar sonhos de minha saudade e enviar idéias para bem longe, lá para onde supunha pessoas amadas.
No momento só enxergo nuvens de perfil estranho e bizarro, perdoem!
 

segunda-feira, 6 de junho de 2011

sábado, 28 de maio de 2011

Que coisa triste!!!!!

Que coisa triste!!!!!
Miguel garcia

Contar os dias a partir das mentorias que forjaram nossa triste condição atual? Que coisa triste... 
Temos tudo dos novos cananitas: nossos espaços internos e externos foram conquistados, nossa natividade estuprada e con-vertida à sombra da "àguia", nossas melhores lembranças apagadas (nossa identidade), nossas histórias transformadas e ou deformadas pelo anúncio das más notícias, pela boca e ambição dos homens de Zeus... Que coisa triste!!!!

Me impressiona como fomos (e ainda "somos") ENGANADOS, "dentro" e "fora" da "igreja", o que seria quase a mesma coisa se a igreja não se revelasse tão mais maligna.

"Fomos criados pela televisão para acreditar que um dia seríamos ricos, estrelas de cinema e do rock. Mas não seremos. E estamos aos poucos aprendendo isso".
"Somos subproduto de uma obsessão por um estilo de vida."
"As coisas que você possui acabam possuindo você."
"A propaganda põe a gente pra correr atrás de carros e roupas. Trabalhar em empregos que odiamos para comprar merdas inúteis."
"Somos uma geração sem peso na história. Sem propósito ou lugar. Não temos uma Guerra Mundial. Não temos a Grande Depressão. Nossa Grande Guerra é a espiritual. Nossa Grande Depressão, é a nossa vida."
"Você não é seu emprego. Nem quanto ganha ou quanto dinheiro tem no banco. Nem o carro que dirige. Nem o que tem na sua carteira. Nem as calças que veste. Você é a merda ambulante do mundo."
"Se quer fazer omelete, têm de quebrar alguns ovos." 




Fonte parcial: Club da luta o filme.


Vassum Crisso

terça-feira, 3 de maio de 2011

É o meu amado

É o meu amado
Miguel Garcia

É o meu amado!
Negá-lo, de que maneira?
É o meu amado!
Apartado de “olhares”, quiça do coração...
É o meu amado!
Temo seu abandono, 
já que não o desposei...
É o meu amado!
Bem disse o poeta que 
acontece com a distância
o mesmo que acontece ao futuro:
um todo imenso e como que envolvido por neblina,
estendendo-se ante nossa alma...
nosso coração mergulhado ali, se perdendo
da mesma forma que nossos olhos...
É o meu amado!
Toda essa aspiração ardente de me abandonar por completo,
deixar-me impregnar de um sentimento único, 
sublime, delicioso...
É o meu amado!
A centena de milhas desse "lugar"...
É o meu amado: o pensamento!