quinta-feira, 22 de maio de 2008

JUSTIÇA SOCIAL – BRADO DE GUERRA DOS PROFETAS DE ISRAEL

JUSTIÇA SOCIAL – BRADO DE GUERRA DOS PROFETAS DE ISRAEL



"‘Escolha um rei para nós; veja que todas as outras nações têm seu rei’, disseram os chefes de Israel. Samuel não ficou contente com esse pedido de um rei, e orou ao Senhor pedindo conselho. ‘Faça o que eles pedem’, respondeu o Senhor, ‘pois é a Mim que rejeitam, e não a você – eles não querem mais que Eu seja o Rei deles.... Faça conforme eles pedem, mas também não deixe de avisar a eles, com toda seriedade o que é ter um rei!’. Assim, Samuel contou ao povo o que o Senhor tinha dito: ‘Se vocês insistem em ter um rei, ele vai convocar os seus filhos, e esses rapazes terão de correr na frente dos carros do rei; alguns serão obrigados a chefiar os soldados do rei na guerra, enquanto outros trabalharão como escravos; serão forçados a cultivar os campos do rei, e fazer as colheitas, sem receber pagamento; terão de fabricar armas para os soldados e equipamento para os carros de combate. Ele vai tomar suas filhas e obrigará essas moças a cozinharem para ele, fabricar pão e perfumes. Tomará de vocês o melhor dos seus campos e das suas plantações de uvas e de oliveiras e dará essas propriedades aos amigos dele. Tomará a décima parte das colheitas de vocês, e dará aos seus amigos prediletos....Vocês terão de entregar a ele a décima parte dos seus rebanhos, e serão escravos do rei. Vocês vão chorar lágrimas amargas por causa deste rei que estão exigindo, mas o Senhor não virá ajudar vocês’. Porém o povo não quis atender ao aviso de Samuel. ‘Mesmo assim, ainda queremos um rei’, eles disseram, ‘porque desejamos ser iguais às nações ao nosso redor. Ele nos governará, e nos conduzirá à guerra’. Samuel contou ao Senhor o que o povo havia dito, e o Senhor respondeu novamente: ‘Então faça conforme eles pedem, e dê a eles um rei’ ". (I Sm 8:1-22)


"Oh Israel! Vocês produziram a sua própria desgraça!. Só Eu poderia salvá-los! Onde está o seu rei? Por que não pedem ajuda a ele? Onde estão as autoridades do país? Vocês pediram um rei e príncipes! Agora, eles que tratem de salvá-los" (Oséias 13:9,10).[nota: Os extratos acima remontam a 600 e 800 AC, respectivamente, talvez os mais antigos registros anárquicos conhecidos]


1. Porque a religião cristã traz atrás de si um rastro de sangue na maior parte de sua trajetória na história?

2. Qual a relação entre os apelos dos profetas, o ensino de Jesus e aquilo que se convencionou chamar de "religião cristã"?

3. Se Deus é um Deus de justiça, o que Igreja cristã tem a dizer sobre a apologia à obediência aos governos, e a tolerância ao escravagismo presente nas cartas de Paulo?

4. É possível a justiça na terra?

5. Qual a gravidade do exercício do poder de um homem sobre outro?

6. O poder humano é a fonte do mal?

7. Qual a compatibilidade entre os governos aqui na terra e o Reino de Deus?

8. Quando os cristãos se tornam foras da lei?

9. O que desencadearia hoje uma implacável perseguição aos cristãos?

10. Como deve ser compreendida a recomendação dos apóstolos de obediência às autoridades se muitos deles morreram em tempos de perseguição e principalmente por desobediência às autoridades constituídas?

12. Porque os cristãos não são mais perseguidos pelo Estado?

1. Porque a religião cristã traz atrás de si um rastro de sangue na maior parte de sua trajetória na história?

A própria natureza humana é o maior indicativo da loucura que representa o exercício do poder de um homem sobre outro.

Os profetas hebreus do oitavo ao sexto século AC deram uma grande contribuição para a compreensão da universalidade de Deus, exigindo retidão dos homens em seus contatos uns com os outros, e justiça na ordem social em geral – nas atividades econômicas e nas relações das nações umas com as outras. Amós, Miquéias, Oséias e Isaías foram os que mais veementemente expressaram a exigência divina de justiça na vida da comunidade, convocando os israelitas tanto individualmente como a nação como um todo ao arrependimento. "Amós e Miquéias, no oitavo século AC, denunciaram a injustiça social e econômica e proclamaram a justiça de Deus. [...] A mesma justiça, declaravam, deve prevalecer entre os homens" [Como nos veio a Bíblia. Edgar Goodspeed, p.36].
Todavia, comparando essa postura libertária dos profetas com os líderes cristãos históricos e modernos notamos divergências em relação às autoridades políticas. Enquanto a visão dos profetas enfatizava, concernente aos governantes de Israel, que Deus condena sua injustiça; na visão paulina, acatada pela maioria dos sacerdotes cristãos, a autoridade política terrena deve ser tida como obra de providência divina, assim, os governantes teriam direito à obediência.

Contudo, essa atitude de obediência às autoridades políticas nunca foi corroborada por Jesus, nem em palavras, nem tampouco em ações. Uma nova sociedade implantada a partir do homem renascido interiormente, e não a partir de reformas políticas exteriores, de forma alguma poderia estar sujeita às autoridades terrenas. À luz de Seus ensinamentos sobre o Reino de Deus, o famoso dístico de Jesus: "Dêem ao imperador [César] o que é dele; e a Deus o que é de Deus", (Mc 12:17) longe de ser um endosso, deve ser compreendido como uma recusa às pretensões de César. Ou seja, se teu senhor é César, "dê a César o que é de César", se o teu Senhor é Deus, "dê a Deus o que é de Deus". A pergunta capciosa formulada pelos inimigos de Jesus sobre se era correto ou não pagar impostos não admitia nem "sim" nem "não".

Se Jesus respondesse "sim", ele estaria contradizendo seus ensinamentos sobre o Reino de Deus, sobre "a casa dividida que não permanece de pé", sobre "o servir a dois senhores", sobre construir uma casa "sobre a rocha", e daí por diante. Se Jesus respondesse "não" ele seria imediatamente preso por incitar a desobediência às leis romanas.

Basta olhar para a História, para ver o sofrimento que governantes provocam aos governados em suas guerras por poder, riquezas, glória. E sempre pagos pelos impostos. Jesus jamais patrocinaria derramamento de sangue.

O shekel, moeda adotada pelos judeus, ao contrário dos outros povos ao redor, raramente trazia imagens humanas cunhadas em suas faces. Aquela figura de César na moeda como também seus dizeres eram uma afronta não apenas à fé judaica como também ao Reino de Deus pregado por Jesus. Além do mais, Jesus nunca demonstrou muita simpatia pela moeda romana. Poucas vezes o vemos tão agressivo como quando, diante do Templo, parte para cima dos cambistas, indignado pelo roubo praticado na troca das moedas judaicas pela moeda romana, obrigatória na compra dos animais que seriam sacrificados.

Portanto, no que diz respeito ao Reino de Deus na terra, nada deve ser dado a César, pois nada pertence a ele, mesmo que o rosto de César esteja cunhado em uma moeda onde se lê: "AVCF AVGVSTVS TI CAESAR DIVI", e: "MAXIM PONTIF". Embora esses dizeres reivindiquem divindade e toda autoridade para César, tudo aquilo que ele ostenta: propriedade, autoridade, poder ou glória, por ser usurpado, é ilegítimo. Portanto, a César não se deve prestar nem obediência enquanto Imperador, nem culto enquanto divindade.

Não foram poucos os teólogos cristãos a abordar esse tão importante tema com a devida seriedade que ele merece. "Não podemos alegar ignorância dos tristes e lamentáveis resultados obtidos com o culto do estado, dos ditadores, dos imperadores, da raça, da classe, da riqueza, do poder, da ciência, ou de qualquer outra criatura". [Alan Richardson. Apologética Cristã. p.179].

"O desejo de cultuar o homem (a criatura) parece estar hoje mais disseminado do que nos séculos que se foram. O colapso da fé no cristianismo tradicional deu lugar a um dilúvio de idolatria ainda mais grave que os excessos de superstição nominalmente cristã... Voltaire, Helvetius, Huxley e Haeckel, todos trabalharam por destruir a fé que o homem tinha na divindade de um Ser indubitavelmente bom. E conseguiram isso de tal modo que os homens hoje crêem na divindade daqueles que são indubitavelmente maus." [Raimundo Mortimer, em The New Statesman and Nation, 16 de maio de 1936, citado na p.179 da obra acima].

Nicolas Berdyaev, o eminente intérprete ortodoxo oriental do cristianismo, ele próprio um exilado vítima do capitalismo estatal russo, escreveu: "Os cristãos que condenam os comunistas por seu ateísmo e perseguições anti-religiosas, não podem lançar toda a culpa somente sobre esses homens sem Deus: devem atribuir parte da culpa a si mesmos, e parte bem considerável. Não devem ser apenas acusadores e juizes, devem ser penitentes também. Tem os cristãos feito muito para o estabelecimento da justiça cristã na vida social? Têm eles lutado para realizar a fraternidade dos homens sem aquele ódio e aquela violência de que acusam os comunistas? Os pecados dos cristãos, os pecados das igrejas históricas, tem sido muito grandes, e estes pecados trazem consigo seu justo castigo" [Nicolas Berdyaev, The Origin of Russian Communism, pp 207-208, citado em Fé Bíblica e Ética Social. Gardner, p.331]
2. Qual a relação entre os apelos dos profetas, o ensino de Jesus e aquilo que se convencionou chamar de "religião cristã"?

Nenhuma. A obediência às autoridades, a submissão de escravos ou escravos assalariados aos seus senhores e patrões, tão natural no mundo cristão, nada tem a ver com o ensino de Jesus.
Não se sabe exatamente como essa cultura de obediência se alastrou na prática cristã. Talvez por causa dos conselhos contidos nas cartas de Paulo, alguns absolutamente inaplicáveis fora de seu contexto original.

Edgard Goodspeed, doutor em Teologia pela Universidade de Chicago, traz luz a esse tema referindo-se às cartas de Paulo e sobre como elas foram parar no Novo Testamento: "As primeiras coisas a serem escritas entre os cristãos foram as cartas de Paulo. Ele as escreveu para ajudar o povo, em suas igrejas novas e lutadoras, a ter uma interpretação sadia da nova experiência religiosa à qual ele os havia introduzido. Os problemas tratados eram imediatos, locais e muitas vezes pessoais e ele os apresentou direta e vigorosamente. Ele não tinha idéia de que fosse produzir literatura, muito menos uma escritura. Seus escritos eram simplesmente pessoais ou cartas a grupos, destinados a produzir efeito prático imediato e então desaparecer. E isto elas realizaram. Foram escritas entre 50 e 62 AD, e então evidentemente desaparecem, pois o mais antigo evangelho, que veio à luz entre 70 e 90 AD, mostra desconhecê-las". [Como nos veio a Bíblia, Edgar Goodspeed, p. 69].
Goodspeed defende que aquelas cartas eram desconhecidas entre as igrejas e que Paulo possuía alguns pontos de vista próprios a respeito de Cristo, que não encontram reflexo nem em Marcos, nem Mateus ou Lucas. "Parece que ninguém pensou em colecionar as cartas que porventura pudessem ainda ser encontradas até o aparecimento de Lucas-Atos, com sua notável descrição de Paulo – em suas jornadas e seu trabalho missionário, diante das cortes e multidões, em meio a tumultos e naufrágios. De fato, foram provavelmente as narrativas sobre Paulo em Atos que impulsionaram alguém a procurar as cartas de Paulo que ainda sobreviviam, e publicá-las" [idem, p. 71].

É possível que o propósito de Paulo, ao recomendar, sob ferros, a obediência dos cristãos livres aos seus governos, dos escravos aos seus senhores, não teve outro intento a não ser zelar pela segurança daqueles poucos que ainda professavam a fé cristã. Ninguém deveria se lançar em uma aventura. Ninguém melhor que Paulo sabia o que representava o poder de César naqueles dias de celas apinhadas de presos políticos e escravos foragidos. Especialmente diante da perseguição desencadeada por Nero. Tanto que, na carta dirigida a Filemom, Paulo chega ao ponto de assumir a nada honrosa responsabilidade de enviar de volta o escravo fugido Onésimo para seu senhor Filemom.

3. Se Deus é um Deus de justiça, porque recomendar obediência aos governos, e tolerância ao escravagismo?

Nada é mais precioso que a própria liberdade. Onde não há liberdade não há justiça, onde não há justiça não há Deus.

Libertar-se não é apenas sair do jugo do poderoso, mas também despojar-se de todo desejo de dominação sobre outros.

Na verdade, as majestosas pirâmides de poder de grandes instituições e corporações modernas como FMI, BM e OMC, que fecham um círculo de império econômico e político sobre todas as nações e governos do mundo, no fundo, apenas refletem os micro poderes e as teias de autoridade que permeiam os relacionamentos dentro da sociedade. Assim, o poder não emana do povo, o poder é exercido contra o povo na medida que é legitimado por aqueles que exercem ou almejam exercer algum tipo de poder sobre outros. Por isso Cristo teve tanta dificuldade em disseminar essa idéia entre os ricos e poderosos, o mesmo não acontecendo entre ladrões, pobres e prostitutas. Uma vez "renascido", tudo o mais ruiria como um castelo de cartas. "O reino desse mundo já passou a ser de Nosso Senhor e de Seu Cristo e Ele reinará para sempre".

É absolutamente necessário que todas as relações humanas se libertem tanto dos instintos de dominação e autoritarismo como também das práticas de exploração econômica do trabalho humano.

Uma sociedade que aceita e tolera a escravidão ou a escravidão assalariada jamais se libertará de seus governantes, pois tal sociedade precisa de seus arsenais de derramamento de sangue para manter pela força este estado de injustiça. Antes de pensar em se livrar de seus governantes e abolir a escravidão ou a escravidão assalariada, cada membro dessa sociedade precisa primeiro olhar para si próprio, substituindo competição por solidariedade, e hierarquia por autogestão.
Enquanto não prevalecer uma opção individual que supere o escravizar e tornar-se escravo, sobrará injustiça, conflitos, ódio e guerras por toda parte. Portanto, o primeiro campo de batalha localiza-se no plano pessoal. É necessário uma conversão, uma mudança de rumo por parte de cada homem.

Porque será que alguns trabalhadores almejando tornarem-se chefes ou encarregados nunca participam de greves lutando por justiça? Porque tanto milionários como miseráveis exploram miseráveis? Antes de libertar-se de seu amo, cumpre libertar-se de si mesmo. Inútil incitar a revolta de um escravo que possui a mesma mentalidade de seu amo.

Em meados do primeiro século, o escravo Félix, através de favor político obteve sua liberdade tornando-se mais tarde governador da Judéia. Tão cruel quanto tirano, no exercício do poder mostrava as mesmas disposições de um escravo. [Tácito, Hist. 5.9; Anais, 12.54]

A solução para o problema do poder virá apenas quando cada ser humano, rico ou pobre, senhor ou escravo, governante ou governado, compreender que não é correto em nenhuma circunstância que um homem tenha domínio sobre outro, ou, passivamente, se deixe dominar ou explorar. Enquanto alguém exercer ou pensar em exercer poder sobre seus semelhantes forçando-os à obediência, mulher, filhos, empregados, seja lá quem for, é inútil incitar a revolta ou desobediência contra patrões ou governo. Tais pessoas, com razão, serão chamadas de autoritárias e não serão levadas a sério. Governo e poder tem que ser, sim, erradicados em toda parte, mas de baixo para cima, começando por dentro de nós mesmos.

4. É possível a justiça na terra?

Sim. Senão não teria sentido o significado do Reino de Deus na terra anunciado por Jesus, ou seja, a ausência de homens dominando ou explorando outros homens. O Reino de Deus anunciado pelos Profetas e pregado por Jesus é, na pior das hipóteses, uma sociedade livre de sistemas de governo ou formas de exploração.

O domínio de um ser humano sobre outro é ilustrado como uma maldição pelo Livro de Gênesis 3:16;20, "...ele [Adão] terá domínio sobre você...; [Eva]... a mãe da humanidade toda", e tem o outro lado da moeda revelado em João 1:14, "A Palavra se fez carne e morou entre nós", quando Deus abre mão de seu poder e glória tornando-se igual aos outros homens. Cristo torna-se um ser humano como qualquer outro e mora aqui na terra entre nós. A "Palavra", a sabedoria e o poder de Deus, a causa primeira de todas as coisas; a expressão pessoal do próprio Deus para com os homens coloca-se como um humano a ser imitado, não como um superior hierárquico a ser obedecido.

Jesus ilustrou isso claramente na parábola do pai pródigo. Dois irmãos cegos pela herança são incapazes de ver o amor do pai. Impaciente, o filho mais novo pede sua parte com antecedência e torra todo o dinheiro. Volta arrependido algum tempo depois e é recebido com festas pelo pai, para revolta e desespero do irmão mais velho que esperava a morte do velho para tomar conta de tudo sozinho. (Lucas 15:11-31). Nos filhos, vemos a natureza humana sedenta por poder e riqueza, e no pai, alguém que faz questão de preservar a liberdade de seus filhos, sem, contudo, deixar de amá-los, mesmo quando estes se mostram indignos de seu amor.

Toda a vida e ensinamento de Jesus, visando o estabelecimento do Reino de Deus, contem a mensagem profética de que todos são como irmãos de uma mesma família e que nada justifica o poder e o domínio de um sobre outro. (Mateus 23:8; Atos 17:26; Ef. 2:17-19; Gal. 3:28)

5. Qual a gravidade do exercício do poder de um homem sobre outro?

A maior possível, Apenas Deus é digno de poder. Se Deus fez o homem conforme Sua semelhança, cada homem herda essa vida que está em seu Pai e Criador. "Deus criou o homem à imagem do seu Criador, Deus fez o homem conforme a semelhança dele. Deus criou o homem e a mulher." (Gênesis 1:27).

Contudo, essa herança de vida foi apagada pelo próprio homem no momento em que ele resolveu assumir o papel de Deus. A única coisa proibida no Jardim do Éden seria comer "a fruta da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal", a fruta do domínio e do poder sobre outros. "Só a fruta da árvore que está no meio do jardim é que não podemos comer... não podemos nem pôr a mão nela". (Gênesis 3:2-3).

O homem, criado livre para fazer o que quisesse, não deixaria de pagar um preço se praticasse o mal. Em matéria de pecado, houve apenas um – o brincar de deus, tomar para si o poder sobre outros homens, fazer aos outros o que não desejava para si, todos os demais pecados derivam desse.

O Jardim do Éden, portanto, representa todo um universo diante do homem, para seu deleite, para que dele fosse extraído todo o prazer e satisfação possível e imaginável. Mas a liberdade e a justiça não seria dada nem imposta, seria simplesmente preservada e usufruída em repúdio ao cativeiro e à exploração.

6. O poder humano é a suprema fonte do mal?

Sim. Não existe nada pior que o exercício do poder de um homem sobre outro. "Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo", significa que todo poder glória e honra devem ser dados somente a Deus, o Pai e Governador de todos nós, Seus filhos. A obediência prestada unicamente a Ele, tem como resultado a liberdade, a justiça e o amor.

Tudo o que é contrário à vontade de Deus é pecado, "toda injustiça é pecado" (1 João 5:17). A subida de qualquer homem ao poder, e suas conseqüências, tem tudo a ver com a vontade do homem e nada com a vontade de Deus. (I Samuel 8:1-22; Oséias 13:9,10)

É desnecessário citar aqui as inumeráveis ilustrações apontando o poder humano como fonte do mal, inclusive dentro da igreja histórica. Que foi a Santa Inquisição senão exercício de poder de homens sobre outros?

O vocábulo Tannim usado no Velho Testamento significa animal comprido como uma serpente e serve para simbolizar o poder do Egito, (Is 51:9; 27:1). O capítulo 13 do Apocalipse bem como Daniel 7, descreve uma coligação dos poderes da terra contra o Reino de Deus, representados pelo dragão, ou serpente.

Lembram as palavras da serpente dirigida aos humanos no Jardim do Éden? "Vocês ficarão como Ele", ou iguais a Ele em poder. Porque não ter poder sobre nossos semelhantes? Ou ainda, porque não ser o Baal (Possuidor ou Senhor) da raça humana. Porque não ser objeto de adoração e glória?

Em nossos dias, quem são essas poderosas duzentas famílias dirigentes das 15 corporações que governam o planeta? Não são elas que detém mais da metade do PIB mundial como sua propriedade particular? Não são a versão moderna de deuses baalins diante dos quais se curvam quase todos os habitantes da terra?

O que é um sistema de governo senão um sistema onde homens são escravos de si mesmos? Que é o mundo da liberdade senão o mundo onde homens são livres de si mesmos? "Deveríamos chamar de liberdade a que constitui verdadeiramente o ato humano. Esta não se limita na de ninguém, é ilimitada, porque sua ação é ética e não promove restrições a quem quer que seja. Essa liberdade é inimiga dos poderosos. E eles sabem disso, por isso a negam. O caminho da liberdade é o da prática da própria liberdade. É com a prática da liberdade que formamos homens livres. Liberdade não é ausência de restrições; é responsabilidade, opção e livre aceitação das obrigações sociais" [Jaime Cubero, citado no n.1 da Revista Centelha, 1998].

A ação é ética quando não faz aos outros o que não deseja para si e quando faz aos outros o que deseja para si.

Governo significa ter poder ou autoridade sobre alguém. Liberdade não significa ausência de restrições, mas responsabilidade, opção e livre aceitação de obrigações sociais. Assim foi no Jardim do Éden, "Você pode comer qualquer fruta do jardim, menos a fruta da Árvore do Bem e do Mal".

Havia Deus, mas não havia o governo de Deus que obriga; havia a Justiça de Deus livremente acordada entre os homens, com homens governando coisas não homens governando homens. Com Justiça haveria liberdade. Mas havendo liberdade para se fazer tudo, haveria também a possibilidade de fazer aquilo que não deseja para si, do homem governar outro, e foi exatamente essa a proposta da astuta serpente. "‘É mentira!’, contestou a serpente. ‘Deus sabe muito bem que se vocês comerem essa fruta, no mesmo instante vocês ficarão como Ele’...". (Gênesis 3:4-5), ou seja, terão poder e autoridade sobre os homens.

Comparando com as condições antes da Queda, é arrasadora a maldição que caiu sobre a serpente: "passar a vida inteira rastejando" e "comendo pó" (Gênesis 3:14-15). O que poderia acontecer de pior a quem propõe a glória e o domínio sobre outros do que rastejar e comer pó?
E o que dizer da maldição lançada sobre Eva, a mãe dos humanos, representando toda raça humana? "...Ele [Adão] terá domínio sobre você" (Gênesis 3:16). Qual a condição dos povos em um mundo onde cerca de 200 famílias detém para si mais da metade do PIB mundial? A maldição do poder, do governo.

A cena de Jesus no deserto, diante "[d]as nações do mundo e toda a glória delas" e a sutil proposta de Satanás "eu lhe darei tudo isso", representa não apenas a tentação de ser hierarquicamente superior ao semelhante, mas de governar seu povo ou, talvez, todas as nações da terra. O ato de ajoelhar-se e adorar o mito Satanás, significa, na verdade, adorar a si mesmo e obrigar outros pelo poder, propriedades ou dinheiro, se submeterem e obedecer à sua pessoa.

Todo governante acredita ser superior aos governados, e, portanto, digno de honras e louvores. "A seguir, Satanás levou Jesus ao alto duma montanha muito alta e mostrou-lhe as nações do mundo e toda a glória delas. ‘Eu lhe darei tudo isso’, disse ele, ‘se Você apenas ajoelhar-se e me adorar’. ‘Saia daqui, Satanás’, disse-lhe Jesus. ‘As Escrituras ordenam: ‘Adore somente ao Senhor Deus. Obedeça somente a Ele.’" (Mateus 4:8-10)

7. Qual a compatibilidade entre os governos aqui na terra e o Reino de Deus?

Nenhuma. Os cristãos sinceros podem viver esse Reino de Deus aqui na terra sob um único governo, o governo de Deus. Nunca sob o governo do homem. Submetendo-se sempre a Deus nunca ao homem. Aceitando e praticando os ensinamentos de Jesus. Fazendo parte do Reino de Deus a partir daqui mesmo da terra, em vida. [Vide obra de Whale: The Kingdon of God Begin Now].

A pátria, geralmente compreendida como um espaço geográfico onde há um sistema político, econômico e social, e que tem como principais colunas de sustentação a propriedade privada dos meios de vida, religiões institucionalizadas, grandes corporações capitalistas, e o governo que obriga todos nas escolas a respeitar tudo isso desde tenra idade, é para o "nascido de novo", segundo podemos deduzir dos ensinamentos de Jesus e dos profetas que o antecederam, nada mais que um estranho e daninho mundo com o qual os cristãos sinceros não devem colaborar nem contribuir para sua continuidade.

O Reino de Deus é apresentado como uma dimensão plena de vida, concreto, presente, real, a ser exercida e usufruída a partir de já. Como uma festa de vida para a qual fomos convidados a participar, independente de raça, cultura, condição social ou nacionalidade.

Opondo-se frontalmente ao formalismo e legalismo das religiões que não saem dos aspectos exteriores e da aparência, Jesus pregava uma verdadeira metamorfose individual em cada pessoa. Não se tratava de uma reforma política nem de uma ideologia, religião ou um punhado de regras para o ser humano obedecer e seguir. Mas de um novo nascimento. Consequentemente, uma sociedade oposta à anterior, em todos seus aspectos, político, social, humano, econômico. O Reino de Deus anunciado por Jesus, longe de ser um aglomerado de religiosos insossos regidos por um amontoado de rezas e leis impossíveis de serem observadas, representava algo inédito na história da humanidade: um universo de justiça, paz e liberdade.

No plano individual, cada homem se tornava como sal da terra, personalidades ricas, interessantes, criativas. No coletivo despontava uma nova sociedade plena em diversidade, mas liberta da escravidão, da competição predatória, das classes sociais, dos preconceitos e principalmente do medo da morte. Mas esse novo homem não viria sem um preço, não viria sem que houvesse reação contra ele. O Novo Homem seria rejeitado da mesma forma que um órgão estranho implantado é logo rejeitado pelos anticorpos do organismo. Assim foi com o próprio
Cristo na sociedade em que viveu.

As Boas Novas que situava todos os homens no "mesmo nível, como irmãos" (Mateus 23:8), resultou, como não poderia deixar de ser, em uma séria preocupação entre aqueles que detinham o poder no império Romano, a propriedade privada dos meios de produção, o monopólio da terra e escravos. "Todos os crentes eram um só na mente e no coração, e ninguém pensava que aquilo que possuía era seu próprio; todo mundo estava repartindo o que tinha". (Atos 4:32).

Não se tratava de mais uma religião ou filosofia, ideologia ou reforma política. As palavras de Jesus repercutiram na vida dos homens de tal forma que a própria sociedade acabava visceralmente afetada. "Não havia pobreza – pois todos os que possuíam terras, ou casas, vendiam tudo e traziam o dinheiro para que os apóstolos dessem aos outros em necessidade".
(Atos 4:34,35)

Embora os corações de muitos cristãos sinceros (a verdadeira e genuína igreja) tenham sido assim durante esses últimos dois mil anos, infelizmente a Igreja Cristã histórica não foi assim durante os primeiros sessenta anos da era cristã e não é assim até nossos dias. A triste realidade é que a pregação de Cristo, da mesma forma que a dos profetas que o antecederam, acabou distorcida, adequada e adaptada às mais baixas paixões humanas e às exigências e necessidades dos poderosos e governantes da terra.

A salvação de Cristo torna a vida plena e valorizada, não pelo poder ou pela exploração, nem pela submissão à vontade dos governos ou desígnios dos homens, mas por alinhar-se completamente à vontade do Pai, fonte de liberdade e justiça. Dessa forma, o Reino de Deus é não apenas incompatível com o Reino ou o governo dos homens, como também antagônico e diametralmente oposto a ele. "Não se pode servir a dois senhores, ou se obedece a um ou se aborrece ao outro", "uma casa dividida não permanece em pé".

A perseguição impetrada pelo governo romano aos cristãos se acirrou quando a prática cristã se constituiu em ameaça ao poder estabelecido. Uma reação típica de qualquer governo ao se sentir ameaçado.

O Reino de Deus, todavia, não fica restrito apenas ao plano material, transcende-o, ultrapassa-o e estende-se também ao plano espiritual, pois "o Reino deste mundo agora pertence ao Nosso Senhor e ao seu Cristo; e Ele reinará para todo o sempre" (Apocalipse 11:15).

8. Quando os cristãos se tornam foras da lei?
No momento em que eles se submetem ao Reino e ao governo de Deus, mesmo que isso lhes custe a vida.

As principais perseguições sob o Império Romano foram:

Sob Nero. Esta perseguição no ano 64 AD era a ação dum maníaco que teve crueldade suficiente para assassinar sua própria esposa e sua mãe. O fato de haver incendiado Roma indignou o povo e, a fim de livrar-se da culpa, anunciou que tinham sido os cristãos os causadores do incêndio. A esta afirmação seguiu-se uma cruel e intensa perseguição dos cristãos, e desde aquele tempo a Igreja Cristã corria grande perigo.

Sob Trajano. A perseguição neste período concentrou-se na província de Bitínia, onde governava um jovem, conhecido como Plínio, o Menor. Os cristãos eram compelidos a negarem sua fé e se se recusavam, eram mortos. Qualquer pessoa que desse informação acerca deles recebia parte da propriedade dos cristãos. O resto ia para o Estado. De maneira que havia um grande número de pessoas que estavam prontas para falar contra os cristãos, e muitas centenas de cristãos morreram como resultado disso.

Sob Diocleciano. A primeira grande perseguição organizada deu-se sob o governo de Décio. Este ordenou que todas as pessoas sacrificassem aos deuses do Estado. A recusa significava a morte. Muitos foram mortos, pois acreditava ele que, se o povo fosse roubado de seus melhores líderes, ele havia de render-se logo ao Estado. Seu amigo Valério, que lhe sucedeu alguns anos mais tarde no governo, continuou com a perseguição. Quando Valério foi levado cativo pelos persas, os cristãos tiveram alguns anos de paz. A mais severa perseguição, porém, deu-se no ano 303, quando Diocleciano era Imperador. Durante alguns anos ele foi amigo dos cristãos e tinha alguns deles ocupando os postos mais altos no governo. Porem seu amigo Galério o persuadiu a voltar-se contra os cristãos. Galério estava ansioso para suceder no governo a Diocleciano, e sabia que, para conseguir isso teria que ter o exército do seu lado. O exército romano era contra os cristãos e Galério desta maneira ganhou-os para seu lado.

Os líderes romanos condenaram o Cristianismo à ilegalidade.
Era um desafio para a religião reconhecida. A religião do Estado tornou-se a adoração do Imperador. Mas os cristãos recusaram-se a acrescentar qualquer adoração à sua crença, pois sabiam que deviam adorar só a Deus e a Seu filho Jesus Cristo. Sua recusa de negar a fé, sua resistência em lançar um pouco de incenso no altar pagão, era punida com prisão, tortura e morte.

Os ensinamentos de Jesus ameaçavam a segurança do Estado. Cada vez que uma calamidade atingia os romanos acreditavam ser devido a indignação dos deuses por os cristãos não quererem adorá-los. A derrota nas guerras significava que os deuses não mais estavam do seu lado. Se Roma perdesse seu poderio, a culpa seria dos cristãos. Além disso, os cristãos recusavam-se a lutar no exército romano. Cada soldado romano tinha que fazer um juramento de fidelidade ao Imperador, que era igual a pagar-lhe honras divinas. E nenhum cristão podia fazer isso. Também não tiveram nenhum interesse nos lugares de divertimentos e nos banhos públicos, onde se praticavam costumes pagãos. Não podiam tão pouco tomar parte em realizações cívicas onde os magistrados invocavam as divindades pagãs. Devido a seus princípios cristãos os seguidores de Jesus afastavam-se sempre mais da vida pública.

O Cristianismo estava se tornando uma ameaça ao comércio. Uma religião como o Cristianismo não servia para o comércio de manufatura de ídolos. Paulo tinha enraivecido os ourives que ganhavam seu dinheiro, fazendo imagens (Atos 19:23-29). Os cristãos se opunham à idolatria sob qualquer forma. Consequentemente seus ensinamentos fizeram inimigos dos negociantes de imagens e altares pagãos, e também dos fazendeiros que providenciavam animais para os sacrifícios.

Os cristãos realizavam reuniões secretas. Por causa dos perigos que ameaçavam o Cristianismo, este era realmente quase uma sociedade secreta, tendo seus próprios símbolos e senhas. Os cristãos reuniam-se em lugares ocultos e em horas raras. Este fato contribuiu para aumentar as suspeitas dos inimigos. Inclusive pelas notícias de que os cristãos estavam fazendo planos para dissolução do Estado. Outros espalhavam mentiras de que seguiam práticas imorais e de canibalismo.

Sua fé se fortalecia. Quando a crença de alguém pode custar-lhe a vida, ele tem que ter a certeza de que, o que crê, vale o sacrifício. Durante anos de perigo, as doutrinas cristãs tomaram feições definidas. Em discursos e cartas de defesa estavam sendo descritas as crenças cristãs e as formas de adoração.

Muitos uniram-se à Igreja. Jesus tinha dito que o Evangelho se espalharia como o fermento dentro duma massa de farinha. E é justamente o que aconteceu. Muitas pessoas se convenceram de que deveria haver algo vital no Cristianismo se centenas de cristãos estavam prontos a morrer por aquilo que acreditavam.

9. O que desencadearia hoje uma implacável perseguição aos cristãos?

O mesmo motivo que fez com que o governo romano proibisse o culto cristão em meados do primeiro século – desobediência às determinações governamentais. Mais alguns exemplos:
Embora houvesse uma certa tolerância à fé e prática cristãs durante a primeira metade do primeiro século por parte do governo romano, as gritantes contradições sociais ecoavam por todo o Império e além dele. Pouco a pouco a repetição das palavras e a prática dos ensinamentos de Cristo provocaram uma mudança de postura por parte dos poderosos com relação aos ensinamentos de Jesus.

Multiplicavam-se os casos de real conversão de pessoas de todas as camadas sociais, que iam desde o eunuco da Rainha da Etiópia ao oficial do Exército Romano. Tudo isso, foi, progressivamente, provocando uma grande preocupação ao governo romano e às classes dominantes.

Em virtude do significado da propagação do Reino de Deus, ensinado por Jesus, e aceito nas terras do Império Romano, César, temendo um mal maior, finalmente decreta uma implacável perseguição aos cristãos, que fugindo do Templo, sinagogas judaicas, salas emprestadas e casas particulares onde se reuniam, passam a esconder-se secretamente em sombrias catacumbas e locais onde não poderiam ser descobertos.

As perseguições, contudo, não causaram o efeito esperado. Ao fim do primeiro século, a Igreja Cristã já havia avançado de Jerusalém à Samaria e Cesaréia. A mensagem tinha sido levada até mesmo à África pelo povo etíope. Através das viagens missionárias de Paulo estendeu-se pela Antioquia, Síria até Chipre, ao norte da Ásia Menor e também pela Europa. Como se não bastasse, foi levada por seguidores anônimos até o coração do Império, a própria Roma.
Nada parecia suficiente para estancar a crescente perseguição aos cristãos, primeiro por parte dos líderes judeus, depois pelas próprias autoridades romanas. Nero já tinha levado à morte centenas de cristãos. Não tardou o momento em que Paulo foi escoltado pela última vez pelos soldados romanos quando o levaram para fora da cidade, onde foi morto por uma espada romana.

Durante quase duzentos anos após a morte de Paulo os cristãos no vasto Império Romano tiveram que enfrentar muitas dificuldades. Os diversos governantes que se sucederam odiavam os cristãos. Os seguidores de Jesus eram proibidos de se reunirem. Seus livros eram queimados, seus edifícios destruídos, e milhares deles eram mortos de maneira cruel. Alguns eram queimados vivos, outros crucificados e ainda outros foram levados às Arenas Romanas para serem mortos pelas feras. Policarpo, um líder cristão de Esmirna, ainda que tivesse nascido alguns anos depois do tempo de Jesus, aprendeu tudo acerca dele por intermédio de João, o Apóstolo, que tinha sido amigo íntimo de Jesus. Durante muitos anos Policarpo seguia fielmente os ensinos de Jesus. Mas os judeus de Esmirna não gostavam disso. Eles não queriam permitir que a Igreja Cristã progredisse.

Em muitos lugares os cristãos eram mortos por se recusarem a obedecer leis e costumes romanos. Era-lhes exigido que considerassem o próprio Imperador como um deus. Cada ano uma festa era celebrada em honra do Imperador, e uma parte do festival consistia em lutas entre homens e feras. Este esporte era muito cruel, mas ninguém se importava com isso. No ano 155 A.D. os habitantes de Esmirna se reuniram para observar estes jogos, nos quais muitos homens perderam suas vidas. Onze cristãos tinham sido lançados perante os leões quando os judeus gritaram, "Trazei Policarpo. Que ele morra"!

Trouxeram então Policarpo, que estava com uns amigos numa fazenda. A multidão furiosa o arrastou e o amarrou em um poste fincado firmemente na terra, acendendo uma fogueira ao redor dele. Manuscritos antigos dizem que como o fogo custava a pegar traspassaram seu corpo com uma espada, matando-o ali mesmo.

Entre os cristãos de Cártago havia uma senhora de nome Perpétua. Ela era ainda jovem e seu marido havia morrido apenas alguns meses antes deixando-a com uma criança de um ou dois meses.

Juntamente com outros cidadãos foi lançada numa cova escura e úmida onde ficou durante muitos dias. Seu filho estava junto com ela naquele lugar horrível. Perpétua, e todos os outros que estavam com ela sabiam que qualquer dia seriam levados à arena para serem mortos pelas feras. Finalmente Perpétua foi levada à arena, havia junto a ela uma moça escrava, chamada Felicitas. Como Perpétua, Felicitas também tinha um bebê nascido apenas três dias antes, enquanto estava na prisão. Quando estas duas mulheres entraram na arena soltaram um touro enfurecido por cima delas. Arrastadas de lá para cá, acabaram feridas e sangrando, até que a ponta de uma espada romana trouxe-lhes a morte.

Da mesma forma que estes mártires, o autor de Apocalipse 13 claramente admoesta os cristãos a rejeitar as exigências do império e dos seus governantes, João acreditava que essa autoridade terrena estava em vias de extinção pela proximidade da vinda do Reino de Deus.

Como os profetas que o precederam e os discípulos que o seguiram, Jesus também foi vítima mortal dos efeitos que seus ensinamentos provocaram nos poderosos de seu tempo. Os primeiros a reagir foram os líderes judaicos, os sacerdotes principais, o comandante da polícia do Templo e alguns saduceus. Quanto mais a Igreja crescia, mais aumentava a ira dos inimigos.

O capítulo quatro de Atos conta-nos os primeiros sinais de oposição. Os homens ricos e poderosos foram os principais responsáveis pela morte de Jesus, pois temiam perder suas boas relações com Roma, ao falharem no controle do poder sobre seu próprio povo
O mesmo se deu posteriormente quando os seguidores de Cristo se tornaram alvo de perseguições. Contudo, a pretensão de acabar com a Igreja Cristã, resultou o contrário, o meio de seu crescimento. "Mas Pedro e João responderam: ‘Decidam os senhores se Deus quer que nós lhes obedeçamos em lugar de obedecermos a Ele!’". (Atos 4:19)

Abstendo-se de propagar qualquer idéia de resistência política organizada, ou reforma social, os cristãos primitivos almejavam muito mais do que isso. Queriam nada menos que o estabelecimento de um mundo radicalmente novo, formado por homens novos. Acreditavam, conforme Jesus lhes ensinara, não em um pano novo remendando um pano velho, mas no real estabelecimento do Reino de Deus mencionado na oração que ensinou aos discípulos, "Venha o Teu Reino, seja feita tua vontade aqui na terra como é feita no Céu", significando que o presente período histórico se encerraria em futuro muito próximo, e que Deus subverteria as forças do mal estabelecendo seu Reino.

Os cristãos primitivos, fiéis ao ensinamento de seu Mestre, não acreditavam em reformas políticas, mas em uma transformação visceral na carne e no espírito. Um novo nascimento. Um mundo novo pelo qual valeria a pena viver e pelo qual dariam suas próprias vidas para conquistá-lo.

Da mesma forma que qualquer império precisa de súditos para existir, qualquer governo precisa de governados e qualquer senhor precisa de escravos. A ausência de súditos, governados e escravos elimina as figuras do imperador, do governador e do senhor de escravos, os primeiros não existem sem os outros.

O cerne do ensino de Jesus e que o acompanhava onde quer que fosse era viver aqui na terra como se já estivesse no seu Reino. Ele praticava aquilo que ensinava. E uma vez em seu Reino (Apocalipse 11:15), ou na eminência dele (Mateus 6:10), não cabe obediência a outro que não seja Deus (Mateus 4:10).

Desobedecer a Deus significa pecar e o sentido específico da palavra hebraica traduzido como "pecado" é "falta de satisfazer uma exigência ou um padrão", "errar o alvo", "não corresponder à altura", ou nas próprias palavras de Jesus, deixar de fazer "aos outros aquilo que vocês desejam para vocês mesmos". Ou fazer aos outros aquilo que vocês não desejam para vocês mesmos. No plano divino, fazer aquilo que um pai justo não quer que um irmão faça a outro. Qual é o senhor de escravos que gostaria de inverter sua condição tornando-se escravo? Qual patrão aprecia receber ordens de seus empregado? Porque escravos e empregados deveriam gostar do jugo de seus senhores e patrões? Se Jesus se absteve de pregar revoltas, motins, ou reformas políticas foi porque não acreditava que pudessem haver governos, senhores ou patrões justos, mesmo que parecessem diferentes ou mais simpáticos. O mundo que Jesus pregava era radicalmente novo.

Ele não trazia nem pano novo para remendar pano velho, nem vinho novo para encher odre velho (Marcos 2:22). Sua mensagem não comportava reformas. O Reino de Deus pregado por Jesus é incompatível com subjugados ou subjugadores. Há um só Pai e todos os demais estão na condição de filhos, um só Mestre e todos os demais estão "no mesmo nível, como irmãos". (Mateus 23:8)

10. Como deve ser compreendida a recomendação dos apóstolos de obediência às autoridades se muitos deles morreram em tempos de perseguição e principalmente por desobediência às autoridades constituídas?

O exemplo dos apóstolos falou mais alto que suas palavras.
Se obedecessem de fato determinações do Estado e demais autoridades constituídas, os apóstolos e outros milhares de cristãos não teriam sido perseguidos e mortos como foram.

A proibição veio no momento em que o culto e práticas cristãs se alastraram de tal forma que representavam uma mortal ameaça não apenas ao culto ao Imperador e ao poder romano, mas principalmente à injusta ordem econômica e social daqueles dias. Foi por isso que nem torturas, prisões e mortes, intimidaram aqueles homens e mulheres. A proibição serviu apenas para trazer ainda mais simpatia e adesão à causa por parte do povo – Tiago foi morto por Herodes; João ficou preso na Ilha de Patmos; André foi crucificado; Pedro e Paulo foram mortos na cidade de Roma.

No terceiro século milhares de cristãos também morreram, por não obedecerem às autoridades.

Os governantes odiavam tudo que se referia a Jesus e seus companheiros, porque seus ensinamentos tinham despertado a consciência popular.

Os primeiros 50 ou 60 anos da era cristã foram um período da formação das comunidades, compostas de toda a sorte de pessoas. Descrevendo a igreja de Filipos, o evangelista Lucas nos mostra na congregação pessoas tão distintas quanto politicamente perigosas, como uma mulher de negócios muito rica, chamada Lídia; uma moça escrava que tinha espírito de adivinhação e o diretor da prisão da cidade. Em Corinto havia outra mulher rica, chamada Cloé; e Crispo e Sóstenes, que eram os principais na Sinagoga, antes de se converterem; Erasto, o procurador da cidade; Priscila e Áquila que tinham por ofício fazer tendas. A descrição nos mostra ricos e pobres, sábios e ignorantes, escravos e livres, todos atraídos e igualmente desejando formar parte das primitivas comunidades cristãs. Não é difícil imaginar as contradições que surgiam dentro daquela comunidade tão economicamente difusa e que pretendia estabelecer nada menos que as bases do Reino de Deus na terra.

Na verdade, milhares de cristãos desafiaram a César pagando por essa ousadia o maior preço, a própria vida.

Em Atos 5:29, Pedro juntamente com outros apóstolos declaram, logo após fugirem da prisão e serem novamente presos pela polícia: "Devemos primeiro obedecer a Deus e depois aos homens". E tal afirmação representou mais que meras palavras, Pedro tornara-se não apenas ousado, mas dotado de grande coragem. Ele, um simples pescador, desafiava os homens mais ricos e poderosos da nação. Vejam o texto abaixo:

Embora os romanos dominassem sobre a Judéia, eles permitiam que o Sinédrio permanecesse como o tribunal mais alto em Israel. Todas as questões políticas, religiosas e legais, que não podiam ser resolvidas localmente, eram levadas perante a corte central em Jerusalém. A única coisa que não podiam fazer sem o consentimento de Roma era condenar alguém à morte. Os mais poderosos do Sinédrio eram os saduceus. Pertencentes às famílias dos sacerdotes e de ascendência nobre, consideravam-se a si mesmos muito superiores ao povo comum. E, desde que passaram a ocupar posições elevadas no país, tornaram-se agradáveis e leais a Roma. Com o trabalho dos Apóstolos, sentiram seu poder ameaçado. O povo da Palestina seguia facilmente qualquer levante contra Roma. Qualquer ajuntamento de pessoas era sempre olhado com suspeita pelos soldados romanos. Muitas vezes explodiam tumultos e muitos judeus eram mortos. Os saduceus consideravam os Apóstolos como perturbadores da paz e temiam que continuassem a atrair grandes multidões, por isso pediam para os soldados romanos intervirem.

O saduceus temiam perder seu poder, pois pareceria que não eram capazes de manter a ordem. Assim, para manter sua posição de líderes dos judeus, mandaram que os Apóstolos ficassem quietos.

Os saduceus estavam inquietos por causa da ameaça que aquela nova ordem social representava à sua riqueza, poder e posição. Além de outras fontes de renda os sacerdotes tiravam grandes proveitos das ofertas do Templo. As pessoas que vinham de longe não traziam um cordeiro, pombo ou qualquer outro animal para sacrificar, eles compravam o que queriam ao chegarem ao Templo. E os vendedores, sabendo que o povo precisava fazer tais sacrifícios, em obediência à lei, tiravam grande proveito, cobrando preços elevados pelos animais e pássaros que vendiam. Era contra a lei judaica apresentar-se moeda estrangeira no Templo. O dinheiro que o povo usava geralmente era romano. Assim, chegando ao Templo, tinham eles que trocar seu dinheiro por moedas judaicas. Nunca, porém, recebiam o verdadeiro valor pelo dinheiro romano que trocavam. Foi devido a tais fraudes que Jesus ficou tão zangado quando entrou no Templo (Mateus 21:12,13).

Em matéria de religião o povo seguia os conselhos do sinédrio. Os saduceus não esperavam o Messias, eles estavam satisfeitos com o estado de coisas e não queriam mudança alguma. Os escribas e fariseus esperavam o Messias mas não O reconheceram quando Ele veio. Estes homens eram considerados pelo povo como servos e adoradores de Deus, mas ali estava Pedro acusando-os de terem matado o Filho de Deus e de estarem pecando contra Ele, apesar de toda sua honradez exterior.

Os saduceus não acreditavam na imortalidade e ensinavam que tudo terminava com a morte. "Vós errais", declarou Pedro, "porque Jesus ressuscitou dos mortos. E é por meio dEle que os nossos pecados nos são perdoados". Cada palavra pronunciada por Pedro era quase um ataque ao sistema religioso deles, uma religião de aparências, falida, hipócrita e constantemente denunciada nos ensinamentos de Jesus.

Os homens mais capazes da nação judaica tomavam parte neste Conselho. Entretanto, mesmo os homens mais doutos não sabem tudo. Os escribas ensinavam a verdade com autoridade da nação e de seus títulos neste assunto. Os Apóstolos ensinavam a verdade com autoridade que viera de Deus. Jesus tinha dito a eles que fossem e ensinassem em Jerusalém. E em vista de obedecerem ao Filho de Deus, Este dera-lhes o poder de que necessitava. Sua defesa não era baseada em teorias acerca do Messias, mas em sua própria experiência de viver e trabalhar com Ele. Não podiam deixar de testemunhar do que tinham visto e ouvido em suas próprias vidas. E estavam tão certos de ser verdade o que ensinavam, que não hesitava em dar sua própria vida se necessário fosse. Fortalecidos pela força da razão e pela prática dos ensinamentos de Jesus, estes homens, que eram considerados ignorantes pelo sinédrio, declaravam com firmeza que era real o que diziam. E não negariam a verdade, fossem quais fossem as conseqüências. O sinédrio procurou em vão impedir que o Evangelho se espalhasse. Os primeiros Cristãos anunciavam as boas notícias da instalação do Reino de Deus. E por causa de sua firmeza, os discípulos em breve levavam o evangelho para fora de Jerusalém, para o mundo dos gentios. Eles não ficaram desanimados com perseguição e sofrimento, pelo contrário, se sentiam honrados.

Em nossos dias, é absolutamente necessário que os Cristãos tenham que "obedecer antes a Deus do que aos homens". Talvez tenham que tomar essa atitude porque sintam que o que se espera deles é contra a lei de Deus. Muitas vezes, quando os Cristãos tomam esta atitude, aqueles que a princípio se lhes opõem, passem a nos respeitar pela nossa coragem. Às vezes, um testemunho destes traz consigo uma vitória imediata. Outras vezes, no entanto, eles tem que ficar firmes e suportar a perseguição, como o fizeram os discípulos. Sabemos que Pedro foi um dos líderes por sua firmeza e pela autoridade de Jesus.

A história tem mostrado que as principais exigências e posturas de senhores e governantes são, via de regra, frontalmente contrários ao ensinamento de Cristo. A grande mensagem oculta por trás da mensagem de Jesus e dos profetas que O antecederam é que não se pode obedecer a Deus e ao governo ao mesmo tempo. Enquanto o primeiro é fonte da suprema justiça, o segundo é fonte da suprema iniquidade. Na dúvida, basta lançar um olhar sobre a história, sobre o presente e sobre as perspectivas do futuro. Também não se pode amar ao vizinho como a nós mesmos sem convidá-lo para que também faça parte do Reino de Deus na terra, ou seja, poder e honra, somente devem ser prestados a Deus, nunca ao homem.

Estevão foi o primeiro cristão a ser morto por preferir obedecer a Deus que aos governantes. Foi preso, arrastado para fora da cidade e apedrejado até a morte por desobedecer às ordens das autoridades. O apedrejamento foi feito diante de um jovem oficial romano, Saulo, que mais tarde se tornaria também um cristão.

O contato de Paulo e Silas com uma escrava adivinha e que resultou que alguns senhores parassem de ganhar dinheiro às custas dela. Irados, esses senhores da escrava agarraram os dois "e os arrastaram à presença dos juizes, na praça do mercado", acusando-os de perturbar a ordem na cidade e "fazer coisas contrárias às leis romanas". Os juizes "ordenaram que tirassem a roupa deles e batessem com varas", depois disso "foram jogados no cárcere". (Atos 16:19-23)
Na carta a Timóteo, enfatiza que, "não trouxemos nenhum dinheiro ao mundo, e não podemos levar nem mesmo um centavo quando morrermos" e arremata adiante, "as pessoas que querem ser ricas, logo começam a fazer toda espécie de coisas erradas para ganhar dinheiro, coisas que lhes causam dano e as tornam malvadas, e finalmente as mandam para o próprio inferno".

O novo nascimento era incompatível com a exploração dos homens e com a obsessão pelas riquezas materiais. Paulo esperava que, com o tempo, a prática de amor entre os cristãos, ou os efeitos da justiça do Reino de Deus, diluiria tanto classes sociais como a ansiedade de ter mais que o necessário na busca pela riqueza e pela exploração.

Coisas como escravidão eram claramente opostas aos ensinamentos de Jesus. Paulo afirma: "nunca mostrei cobiça por dinheiro ou por roupas caras – vocês sabem que estas minhas mãos trabalharam para pagar minhas próprias despesas e até para as despesas daqueles que estavam comigo". A todo instante Paulo era acusado de fora da lei, de traidor de César e de se opor às leis judaicas (Atos 17:7; Atos 18:13; Atos 21:28; Atos 24:5). De qualquer maneira, como Jesus, ele nunca se calou diante da autoridades, chefes religiosos e governantes (Atos 24:25), embora agisse com cautela (Atos 23:1 em diante). A ação e ensinamentos de Paulo afetaram diretamente interesses ligados ao poder, à religião e à economia, tanto que foi arrastado aos tribunais por causa disso (Atos 19:25 em diante).

Os governadores romanos passaram a acreditar que os Cristãos eram um perigo para a nação. O próprio Rei Herodes atacou os cristãos, esperando destruí-los. Primeiro matou Tiago, o filho de Zebedeu, depois prendeu Pedro. Como todo e qualquer governante, Herodes subiu ao poder usando de astúcia e traição. O texto abaixo ilustra bem essa idéia.

Como Rei possuía poder e riquezas. Nos ensinamentos dessa nova religião ele viu uma ameaça à sua posição. Cerca de quarenta anos antes os magos do oriente tinham vindo ao palácio de seu avô, perguntando: "Onde está o Rei dos Judeus recém-nascido?" (Mateus 2:1,2). A mensagem que os Cristãos anunciavam era igualmente indesejável para Herodes Agripa. Seus ensinamentos do Messias que tinha vindo à terra deviam ser impedidos. Ele prendeu Pedro, porque este falou principalmente acerca do Messias. Mas Herodes não contou com Deus. E os Cristãos sinceros em todas as partes do mundo necessitam hoje esse conforto, pois tem que enfrentar poderes políticos quase sempre inamistosos.

Herodes viu que "agradava aos judeus". E ele faria qualquer coisa para ganhar o favor do povo sobre o qual governava. Por ser edomita, e não de sangue puro judeu, os judeus não aceitaram completamente sua autoridade como governador. Mas ele conseguiu ficar em bons termos com as classes governantes entre seus súditos. O imperador de Roma tinha mandado erigir uma estátua dele mesmo no Templo em Jerusalém. Sabendo que este fato ofenderia aos judeus e causaria derramamento de sangue, Herodes Agripa persuadiu Calígula a desistir da idéia. Desta maneira Herodes obteve o favor dos líderes judaicos, que tornaram-se seus cúmplices em suas atrocidades.

11. Porque todo tipo de governo e de capitalismo é necessariamente contrário aos ensinamentos dos profetas de Israel e de Cristo?

Aqueles que denunciam a injustiça praticadas pelos governantes e capitalistas passam a ser perseguidos. A maioria das Igrejas cristãs apoiam os poderosos e isso não é coisa nova porque a falsidade dos líderes e sacerdotes religiosos vem desde os profetas do Antigo Testamento. Vejam essa ilustração:

Andando pelas ruas da cidade, o pastor de ovelhas Amós viu como os ricos viviam uma vida de luxo e prazeres, enquanto os pobres passavam fome. Viu também as casas dos ricos, cercadas de belos jardins e vinhas, e seus donos alegrando-se com músicas e festas, enquanto os pobres mendigavam o pão. Viu os filhos sendo vendidos como escravos a fim de que as famílias pudessem comprar alimentos. Os ricos não se incomodavam nem um pouco com os sofrimentos dos pobres.

Nos mercados ele viu os negociantes usando medidas falsas e pesos errados, oferecendo o refugo do trigo por um preço que os pobres não podiam pagar. Viu também os que emprestavam dinheiro a juros, obrigando os pobres a pagar-lhes seus últimos centavos. Os negociantes de escravos andavam pelos mercados, para descobrir os famintos e miseráveis que quisessem vender a si mesmos por um pouco de pão.

E quando entrou no Templo Amós viu coisas que o preocupavam ainda mais. Os ricos, vestidos em suas roupas luxuosas, ofereciam seus sacrifícios de animais, frutos ou trigo, e gostavam de ser vistos, tomando parte nos serviços do Templo. Os sacerdotes tratavam-nos com grande respeito, enquanto os pobres eram menosprezados.

Este estado de coisas perturbou Amós profundamente. Ele sabia que Deus não podia estar satisfeito com as ofertas do Templo enquanto os pobres sofriam tão grandes necessidades. Que poderia ele fazer? De repente ele ouviu a voz de Deus (Amós 7:15) "Vá e profetize para o meu povo, Israel". Como poderia um pastor de ovelhas sem instrução, como ele era, falar a este povo da cidade?

Deixando seu trabalho Amós, viajou para o norte, para o Reino de Israel. Entrando nas cidades, as multidões ouviam-no gritar, "Buscai ao Senhor! Buscai ao Senhor. . . Aborrecei o mal e fazei o bem!". Por fim chegou a Betél, onde os ricos se juntavam para fazer suas ofertas a Deus. E aparecia em sua vestimenta de pastor, com os pés descalços. Parando no meio deles gritava.

"Israel caiu! Israel caiu!" O povo assustou-se e ficou pasmo. Amós falou-lhes então do seu egoísmo e maldades. Disse-lhes que Deus aborrecia suas ricas ofertas enquanto permanecessem explorando aos pobres. O que Deus queria ver era retidão e justiça entre eles. Então profetizou que haviam de passar por grandes aflições por causa de suas maldades. Um exército inimigo se levantaria contra eles e os levaria cativos.

O sacerdote Amazias ficou zangado com este pastor que tinha vindo para perturbar o povo desta maneira, fazendo-o lembrar dos seus pecados. E mandou uma mensagem ao rei de Israel, Jeroboão II, dizendo que Amós estava conspirando contra ele (Amós 7:10-11). Mas Amós respondeu, desmentindo as palavras do sacerdote, dizendo: "Eu não sou um profeta mesmo. Nem nasci em uma família de profetas. Sou apenas um boiadeiro e colhedor de frutos. Mas o Senhor me tirou de junto dos rebanhos e me ordenou: Vá e profetize para o meu povo, Israel" (Amós 7:14-15). Por esta razão não temeu o que o rei ou o sacerdote lhe poderiam fazer de mal.

Por fim Amós voltou ao deserto. Ele sabia que os ricos da cidade não se tinham afligido muito com suas palavras, tendo voltado logo aos seus caminhos egoístas. Com o coração triste ele provavelmente procurou alguém que soubesse ler e escrever, para escrever as palavras de Amós, os pecados do povo de Israel (Amós 5:11,12,26) e o castigo que resultaria deles.
Este castigo que Amós profetizou veio por fim. O rei da Assíria invadiu Israel, destruiu as belas cidades e levou consigo o povo para o cativeiro, para nunca mais voltarem à sua terra. Num tempo de grande necessidade Deus achou seu mensageiro entre as montanhas de Judá. Talvez em seu cativeiro os israelitas recordaram o pastor enviado por Deus e sua mensagem "Buscai ao Senhor".

Num dia de festa nacional todos os habitantes de Judá reuniam-se em Jerusalém para adorarem no Templo. O pátio deste estava apinhado de gente. Baruque atravessou a porta e ficou no lugar onde Jeremias tinha estado. Então começou a ler todas as palavras que estavam escritas no rolo e todo o povo o ouvia.

Nada feliz com o que ouviam, alguém foi falar ao Rei, especialmente porque a mensagem era contra a casa do rei. Então Micaías foi ao palácio e entrou na sala onde os escribas se tinham reunido com os príncipes e contou-lhes o que estava acontecendo. Então mandaram chamar Baruque e ordenaram-lhe que lesse as mesmas palavras para eles. Tendo-as ouvido, temeram.
Entraram na casa do Rei e lhe contaram todas as palavras que tinham ouvido. O Rei ficou muito zangado. "Onde está o rolo?" perguntou ele, e mandou buscá-lo. Quando o mensageiro voltou com o rolo o Rei estava sentado perto do fogo, pois era a época do inverno. "Leia-o para mim", ordenou o Rei. Então Jeudi começou a ler, e enquanto lia, o Rei ficava mais e mais zangado, até que por fim gritou, "Basta, não quero ouvir mais nada. Dá o rolo para mim". Tomando-o em suas mãos começou a cortá-lo em pedaços com um canivete, jogando-os no fogo. Alguns dos escribas instaram com ele para que não queimasse os rolos, mas não queria ouvir. Até que por fim tudo estava queimado. Não havia tristeza em seu coração por causa de seus pecados. Ele estava zangado porque Jeremias se atreveu a Ter estas coisas escritas.

No entanto, a ação do Rei não era o fim da mensagem de Jeremias; a voz de Deus não pode ser silenciada por reis ou governadores. Deus falou novamente a Jeremias, e disse-lhe que tomasse outro rolo e que Baruque escrevesse tudo de novo. Devia ainda acrescentar que, quando o rei da Babilônia destruísse Jerusalém a cidade seria deixada como um deserto, onde nem o homem e nem os animais pudessem viver. Todos os filhos de Jeoaquim seriam mortos ou levados presos, de maneira que nenhum membro da sua família fosse deixado para governar sobre Jerusalém.

Então Jeremias tomou um outro rolo e Baruque escreveu novamente todas as palavras que Deus tinha falado pela boca do profeta.

12. Porque os cristãos não são mais perseguidos pelo Estado?
Porque muitos deles se tornaram colaboradores do Estado e escravos do dinheiro preferindo fazer a vontade de homens que a vontade de Deus.

A perseguição à Igreja Cristã por parte dos governantes termina apenas quando a cristandade deixa de lado o estabelecimento do Reino de Deus a partir da terra. Ou seja, o Reino de Deus seria coisa pós morte, na terra tudo deveria permanecer como sempre foi. Ricos e pobres, escravos e senhores, miseráveis e opulentos, não importa a condição social. Não poderia haver mentira mais deslavada de que o Reino de Deus só viria depois que o crente morresse.

O Reino de Deus ensinado tal qual Jesus ensinou não comporta injustiça aqui nem classes sociais agora.

Muitos líderes cristãos, longe de serem críticos corajosos da sociedade em que vivem, tornam-se seus maiores representantes. Muitos desviam-se dos grandes ideais de justiça e amor e tornam-se os carrascos da Inquisição, outros debruçam-se diante dos seus modernos Templos de Baal enquanto abençoam os generais de Hitler. Exibem-se em festas religiosas e assembléias solenes (Amós 5:21) enquanto fundam sociedades homofóbicas. Pisam o povo pobre e roubam sua última migalha com todos seus impostos e multas (Amós 5:11) enquanto estabelecem mais uma religião a serviço do poder e dos poderosos.

Segundo eles, as autoridades civis e militares representariam a vontade divina para prover a "ordem" na sociedade, uma versão amainada da religião em voga naqueles dias em todo o Império Romano, onde César, expressão máxima do Estado, deveria ser cultuado como o próprio deus. Os escravos deveriam se submeter aos seus senhores da mesma forma que os trabalhadores assalariados hoje se submetem aos seus patrões. Enquanto o Reino de Deus não chega, recomendam obediência às exigências do imperador, do Estado, dos senhores.

No passado, Pedro, Paulo e muitos outros, sofreram prisões, tortura e morte desobedecendo determinações de governos e autoridades. Em nossos dias, muitos líderes cristãos modernos além de enganar o povo com migalhas, em nome da "ordem" social, vivem a serviço dos interesses de governos e autoridades piores que aquelas que mataram os cristãos sinceros no passado.

É difícil acreditar que um prisioneiro que precisava de uma escolta de 470 soldados para ser transportado (Atos 23:23), mesmo sob correntes, cujas palavras fizeram tremer a Félix, o ex-escravo que se tornou o cruel, injusto e desonesto governador romano (Atos 24:25), fosse afeito a obedecer autoridades governamentais.

No Reino de Deus aqui na terra não deve haver senhores ou escravos, patrões ou empregados, homens ou mulheres submissos a homem ou mulher. Não cabe aos homens e mulheres impor condições e preferências sexuais a outros homens e mulheres. O governo e a exploração do homem pelo homem contraria a essência dos ensinamentos de Cristo sobre a justiça e a ausência de hierarquia em Sua nova ordem, "entre os não-crentes os reis são tiranos, e cada oficial inferior domina sobre aqueles que estão abaixo dele. Mas entre vocês é bem diferente" (Mateus 20:25).

Isso não quer dizer que entre os crentes os reis não seriam tiranos, simplesmente não haveria reis ou tiranias, nem governadores ou hierarquias. "todos vocês estão no mesmo nível como irmãos" (Mateus 23:8). No Reino de Deus essas coisas seriam não apenas nocivas como totalmente desnecessárias "Quem quiser ser o maior, que seja o menor".

Passagens bíblicas correlatas
Col. 1:16
Apocalipse 11:15
Deut 10:14
Hb 11:13-16
Isaías 3:14
Isaías 9:1-7
Isaías 11:1-9
Rom 8:32,37
Mt 22:36-40
Oséias 13:10
Hb 13:14-16
Cl 3:1-17
Rm 13:1-10
Dn 2:24-44
1 Pe 2:11-14
Jz 17:1-6
Rm 13:1-7
Mt 5:13-16
Mc 12-13-17
Mt 17:24-27
At 5:25-32
At 22:25-29
Tm 2:1-3
Dn 2:20-22
Mt 5:38-48
Jo 2:13-17
Ef 4:26-27
Rm 12:17-21
Rm 13:1-5
1 Pe 2:18-25
Gn 12:1-3
Sl 24:1
Ef 4:17-25a
Os 4:1-4
Mt 27:15-26
Mc 15:6-15
Mt 15:19
Ef 2:12
Lc 22:47-53
Ef 6:10-12
Gen 1:27
1 Sm 8:1-22

Bibliografia
Apologética Cristã, Alan Richardson
Dicionário da Bíblia, John D. Davis
Como nos veio a Bíblia, Edgar J. Goodspeed
Fé bíblica e ética social, E.C. Gardner
A Bíblia Viva. 1981, International Bible Society

terça-feira, 20 de maio de 2008

Tarde

Tarde
Miguel Garcia


Agora não dá mais!

Agora sei de tudo!

Meu ardor se elevou ao improvável e a admiração por você viu suspirar uma pálida esperança... escândalo... meus olhos adoeceram...

Ingressei seu camarim, você estava ausente, vasculhei seu armário, abri gavetas, adivinhei o conteúdo de um pequeno cofre, e, encontrei, sublinhado em um bloco de papel antigo e amarelado - seu script, com os nomes dos legítimos donos das palavras arrebatadoras que você insiste em lançar sobre mim, pra me matar de amor.

Desvendei máscaras gastas e empoeiradas e, os vãos no lugar dos olhos delas queimaram os meus, o intervalo no lugar de suas bocas mordeu e rasgou minhas lembranças. Um único toque em suas texturas álgidas revelou a falsidade das expressões empedernidas que possuíam . E eu perdido num vale profundo, onde corriam rios de memórias vãs...

Agora não dá mais!

Não que seja tarde, é apenas inútil tentar viver assim, ver você nesse palco e eu sem rosto, sepultado na escuridão de um auditório catacúmbico... silenciar meus desejos... aplaudir minha ilusão... suspiros melancólicos... e esse ruído que não cessa nunca,.... é música?

Basta! Permito que esse ciclo doloroso se feche, assim como o Lunar, o Solar, assim como o da noite do nosso amor.

É solitário aqui. É absurdo demais. É vazio. É um mistério aqui. E essa fala, será que é a minha?... o tablado rangendo sob meus pés desfaz minha concentração...Preciso de ar, de luz, de descanso e solidão. Agora não dá mais, é tarde.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Metamorfismo Feliz – Refletindo sobre o Salmo 1:3


Metamorfismo Feliz – Refletindo sobre o Salmo 1:3
Miguel Garcia


São felizes as criaturas arboreáveis cravadas na terra à margem de um riacho com um declive suave até a altura das águas, que contemplam ao longe, um terreno superior recoberto de mirtos – as cercas vivas.

São felizes os que colhem flores na beira dos lagos, todavia, não para compor guirlandas que enfeitem altares das divindades fabulosas dos rios, dos bosques, das matas de um sonho ou desejo qualquer.

Felizes os filhos de Deus que ao fugirem da perseguição cruel de viverem pra si mesmos, vêem-se subitamente transformados em vegetal lenhoso, os que têm pés enraizados no solo, os que não podem mover seus membros nem suas pulsões inferiores, pois o aspecto de madeira incorruptível avança sobre eles gradativamente.

Felizes os que se angustiam durante a alteração de sua forma e, ao tentarem arrancar os próprios cabelos vêem suas mãos repletas de folhas de esperança e consolo, felizes os que endurecem ao ponto de sentirem secar seus fluidos venenosos.

Felizes os que não recebem ajuda que possa impedir o desenvolvimento da madeira empírea, os que não se vêem subitamente abraçados por suicida exaltado que se deixaria envolver pela casca da árvore em formação. Felizes os que não recebem socorro de Andrêmon, Íole, pai, mãe, tampouco as cordas dos arroubos sentimentais deles - afetos de toque que abraçam caules quentes e beijam folhas de melindres patológicos por toda parte.

Felizes os(as) Dríopes, os que assim perdem tudo, nada restando além de seus rostos umedecidos por derradeiras lágrimas fluindo e caindo sobre folhas tenras e, enquanto podem, por conta da transfiguração galopante, sussurram odes de gratidão até quando tudo for silente como na eternidade... quando o único ruído de uma agitação febril qualquer se fizer benfazejo e balsâmico.

Felizes os que vivem ocultos sob o córtex de uma planta sem folhagens secas ou caules feridos. Felizes os arborescentes que ofertam seus ramos e geram sombra fomentando as folganças de meninos.

Felizes os que almejam arborescer, mesmo que num arboreto sob os olhos do Arborista apaixonado por modificar paisagens tristes.

Felizes os que arvorecem protegidos dos machados que golpeiam a sensibilidade e dos rebanhos que mordem e rasgam ramos de delicadeza e afetos brandos.

Felizes os que se vêm em estado avançado da metamorfose sublime, os que já não podem se inclinar a desejos banais ou roçar com os lábios apetites desastrosos, nem tampouco murmurar de sua sina, pois o processo cortical em progresso sobre as gargantas, em breve também sonegará dos olhos de um ardoroso expectador cada fronte penitente.

A madeira por si só fechará cada um dos olhos sem o auxílio de ninguém, então os mesmos cessarão de movimentar-se, e a vida morta se extinguirá até nos ramos que retiverem por mais algum tempo o calor vital que estava morto e bem sabia.

“Feliz a pessoa que é como árvore plantada junto à corrente de águas, que, no devido tempo dá seu fruto, e cuja folhagem não murcha, e tudo quanto ela faz é bem sucedido”. Sl 1:3.

Felizes os que arvoram em metamorfose feliz. Felizes árvores-da-preguiça, de rede, árvores-da-vida, árvores-de-bálsamo, de cuia, as ornamentais – porque Deus é beleza!

Felizes árvores-dos-viajantes – as que hospedam estrangeiros em sua silhueta, árvores-mães – portadoras de sementes... Felizes árvores-frutíferas, sombríferas, floríferas, porque toda árvore que não produz sustento será cortada e lançada no fogo, exceto as que produzem lenha, sombra, folhas, flores e beleza, portanto, que árvore alguma seja colhida e incinerada jamais.

Felizes os vegetais lenhosos-arbústeos – murtas pequenas-notáveis, barreiras-vivas para proteção de todo um pomar, felizes os modificados, os vivos, os transformados, felizes os alvos de um metamorfismo feliz.

sábado, 17 de maio de 2008

Salve Paulo Cruz! Reverências poeta amigo!

Visite o Blog do Paulo Cruz: http://paulopoeta.blogspot.com/

Salve Paulo Cruz! Reverências poeta amigo!

Aí de mim! Estou perdido! porque sou um sonhador de obras impuras e habito no meio de idealistas de impuras obras, e os meus olhos viram teus poemas reinando, desluziram ante a soberania de teus feitos com as palavras!

Que a iniqüidade de ser apenas um ladrão do fogo roubado do ladrão do céu venha a ser um dia extirpada de mim, assim como perdoados sejam os pecados de um mero fazedor de experiências como eu, que, contudo, ainda sabe curvar-se diante da manifestação do verdadeiro e autêntico belo que escorre direto de sua alma delicada para o ciberespaço, pois o belo não pode sofrer queda, flutua, ascende constantemente, alçando vôo como um cometa para depois atingir nossos corações como se fosse a seta do filho de Vênus e nos fertilizar de formosura...

Ai de mim! Ai de nós!

Beijos e abraços ternos de um aprendiz de sua glória e talento,

Miguel Garcia

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Um hino ao amor - por Miguel Garcia

Edite Piaf sou eu, minha mãe, meus irmãos, somos todos nós.



Edite Piaf a famosa cantora francesa que fui conhecer através da homenagem que lhe fizeram na biografia "Piaf - Um Hino ao Amor".

Filme emocionante, de beleza muito delicada, imagens poéticas aprazivelmente perturbadoras, numa história que a meu ver, desnuda o fato de que a beleza de estar vivo se sobrepõe a toda e qualquer tragicidade. O que justifica a existência não é a qualidade do organismo vivo, mesmo que defeituoso, mas o fato de estar vivo. A gratidão deve ser nossa companheira. Ninguém nos deve nada, nem Deus nem o próximo. Concordo com o Apóstolo Paulo: "Alegrem-se sempre. Orem continuamente (Orar é ainda respirar, o ansioso adora a necessidade ao invés de Deus). Dêem graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus". 1Ts 5:16,17,18.
Nós as Edites de todas as épocas e lugares, do pequeno burguês que sabe cuidar do seu minúsculo jardim e dele fazer um paraíso, ao miserável que leva ofegante o seu fardo, que segue seu caminho sem se revoltar, nós Edites que esperamos igualmente ver por um momento a mais a luz do sol, nós Edites que aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo Tt 2: 13, podemos sim encontrar felicidade Nele, por Ele e para Ele, ou seja, em, por e para Cristo.
Daí sim seremos tranquilos, formando nosso universo a partir da Fonte de Vida Plena que é Cristo, daí poderemos ser ditosos por sermos nós mesmos - íntegros, totais. Assim, por mais limitados que sejamos, guardaremos sempre no coração o doce sentimento de que somos amados, aceitos e reconhecidos em Deus.

Fiz questão de tomar nota do conteúdo da entrevista com a "Piaf", entrevista essa que aparece nos instantes finais desse filme de gloriosa exuberância.

Escrevi cada uma das respostas dadas pela “Edite”, interpretada pela brilhante atríz Marion Cotillard.

Logo após ter sofrido toda a beleza da história: atuações, trilhas sonoras, canções francesas... após ter refletido um bocado nas falas do filme, etc, tomei nota da letra da última canção exibida na película - nas palavras da Edite Piaf do La Môme: “Tudo aquilo que gostaria de dizer”.

Eis a Entrevista em primeiro lugar:

Repórter: É estranho ver a senhora longe de Paris...
Piaf: Nunca estou tão longe de Paris.
Repórter: Sua cor favorita?
Piaf: Azul.
Repórter: Gostaria de viver tranquilamente?
Piaf: Isso eu já fiz.
Repórter: Quais são seus amigos mais fiéis?
Piaf: Meus verdadeiros amigos são todos fiéis.
Repórter: E se não pudesse mais cantar?
Piaf: Bem, eu não viveria.
Repórter: Tem medo da morte?
Piaf: Menos do que da solidão.
Repórter: A senhora reza?
Piaf: Ah! sim, porque eu acredito no amor.
Repórter: Qual a melhor lembrança da sua carreira?
Piaf: O levantar da cortina
Repórter: Sua melhor lembrança como mulher?
Piaf: O primeiro beijo.
Repórter: Gosta da noite?
Piaf: Gosto e com muitas luzes.
Repórter: E da madrugada?
Piaf: Com piano e com meus amigos.
Repórter: E do comecinho da noite?
Piaf: Pra nós já é a madrugada...
Repórter: se fosse dar um conselho a uma mulher, qual seria?
Piaf: Ame.
Repórter: A uma jovem?
Piaf: Ame.
Repórter: A uma criança?
Piaf: Ame.
Repórter: Para quem a senhora faz tricô?
Piaf: Bom, para quem quiser usar isso...

Eis a letra da canção cantada por Edite nos instantes finais do filme:

Não, absolutamente nada
Não, eu não lamento nada
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal
Isso tudo é indiferente

Não, absolutamente nada
Não, eu não lamento nada
Está tudo pago, varrido, esquecido
Dane-se o passado

Com minhas lembranças acendi o fogo
Minhas mágoas, meus prazeres
Não preciso mais deles
Varridos os amores
Com todos os seus temores
Varridos para sempre
Vou começar do zero

Não, absolutamente nada
Não, eu não lamento nada
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal
Isso tudo é indiferente

Pois minha vida
Pois minhas alegrias hoje
Tudo isso começa com você






sábado, 10 de maio de 2008

Meu guia


Meu guia é um feixe de luz que emana do Filho de Deus... Miguel Garcia
"Ele é a verdadeira Luz que ilumina a todos os homens" Jo 1:9 Santa Bíblia

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Camila


Camila
Miguel Garcia


Ah Meu encanto... Favorita minha! Meu brilho, alegria no meu rosto...


Heroína audaz... É seu o papel principal no drama de nossas vidas.
Mostre seu valor minha graça, sua coragem... Flutue flor alada, flutue...

Ninfa... Faça morada nos campos e bosques dos sonhos meus, Permita que eu beba dessa alegria... dessa paz, felicidade...

Que o melhor trigo e rês dos rebanhos ocupe sua mesa.

Lembre-se de esquivar-se dos 'Sátiros violadores', 'Gorgonas' traiçoeiras e 'Quimeras' que liberam 'fogo' pelas ventas e palavras ígneas... Seja prudente minha luz, seja prudente.

Livre-se dos falsos deuses. Eles são insaciáveis, após algum tempo como hospedes da alma, reivindicam primazia de tudo, transformam-se em demônios, devoram corações de seus servidores e a si mesmos.

Minha doçura... esteja alerta quanto às desumanas crueldades e perversões contumazes 'Salamandricas', 'Gréicas', 'Górgonais', 'Grifoicas', 'Hecatônquirossênicais', 'Pigméias', 'Centaurais', 'Cíclopeicas', 'Esfingeais', 'Fênixiais', 'Basilisconificadas'.

Sei que embora suas mãos conheçam poucos afazeres domésticos és capaz de suportar todas as labutas da terrível batalha de se viver, e, em velocidade, tua imaginação e inventividade podem bater até o vento. Voe querida minha, voe...

Sei que podes correr sobre 'os milharais' sem colidir com a 'plantação', ou sobre a superfície das águas do mar da existência sem jamais submergir... Deslize amor meu, deslize...

Terríveis discórdias e humilhantes exílios jamais nos impedirão de estarmos juntos. Descanse meu bem, descanse...

Nossos 'perseguidores' nunca terão êxito em dividir-nos. Fugiremos juntos, minha bela.

E quando finalmente em situação semelhante à do povo hebreu na travessia do Mar Vermelho, com inimigos por detrás e 'Amazeno' avolumado pelas águas de chuva à frente, mostrando presas de fera e rugindo, atarei minha Camila à 'lança' que possuo para abater almas e corações, envolvê-la-ei com as vestes de meus poemas, e levantando a arma de arremesso em mão erguida, dirigir-me-ei ao Criador Eterno: “Senhor Deus dos perseguidos, consagro-vos essa donzela, consagro-vos Camila!”

Arremessarei a lança com sua carga preciosa na margem oposta, ela voará por cima das águas furiosas e, quando os que nos perseguem estiverem prestes a alcançar-me, atirar-me-ei ao rio nadando até a margem oposta, onde encontrarei minha lança e minha filha sã e salva.

Daí por diante viveremos entre pessoas simples e comuns, mas que jamais esqueceram a arte de amar. Criarei minha filha em meio aos desafios de uma vida campesina e a ensinarei como utilizar o arco e a flecha das paixões e como atirar dardos de solidariedade, fraternidade e fé.

Com sua funda Camila poderá abater o necessário para que alimente seu corpo e espírito, tudo com moderação. Vestir-se-á com pudor e simplicidade. Muitas mães a quererão como nora: ela, porém, permanecerá fiel ao Deus dos perseguidos e a seu pai super-protetor, "repelirá qualquer ideia de casamento".

Feliz aniversário, Camila minha, joia minha!

Vassum Crisso

segunda-feira, 24 de março de 2008

ACAMPA-CÓPIA-MENTO?

Acampa-cópia-mento?
Miguel Garcia



...“Vê que faças todas as coisas de acordo com o modelo que te foi mostrado no monte”. Heb 8:5

...“tendo a sombra dos bens futuros e não imagem exata das coisas, não pode nunca pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem de “ano em ano”, aperfeiçoar os que se chegam a Deus”. Heb 10:1


A Pastora Fátima Nascimento além do seu reconhecido destemor, nobreza nos sentimentos e amor ao bem, provou mais uma vez sua inconteste habilidade na arte de cativar os ânimos. Foi assim que realizou o primeiro Acampamento de Páscoa com a Comunidade Betesda em Lavras.

A idéia de um retiro espiritual no feriado prolongado deixou a congregação mineira assaz entusiasmada... É Uái!. Bom sinal, Deus seja louvado! Igreja viva é assim mesmo - cola
tal qual carrapicho, prende e envolve feito trepadeira, sua brincadeira predileta é o pega-pega. Igreja viva é que nem carrapato: gruda, suga... mela e adere como clara de ovo, enrosca, enlaça. Feito leite coalhado sobrenada líquidos de incertezas, voga a elevação de superfícies ameaçadoras... prazenteira na comunhão é uma igreja viva. Ainda bem que é assim! Quem precisa de ruas de ouro e Alfhavilles Celestes? Ver a alegria assenhorar-se do espírito da irmandade basta. A consumação de campais dos prazeres urgia!..

Ver crianças, jovens, adultos e idosos, em brasas de excitação, conectados aos galhos do tronco de uma aspiração confortadora feito jaboticabas temporãs – suspensos, aluados feito o Apolo atingido pela seta do filho de Vênus, ou ainda, à semelhança de Dafne, horrorizados com a idéia de amar uma vida aprisionada às obrigações do cotidiano, por mais que se afigure “divinamente dotada”.

Já era sabido que a aglomeração festiva proporcionaria colisão de corpos de afetividade, corpos sonoros... carências transbordantes, olhares caçadores, murmúrios cativantes, confissões serenas, silêncios revigorantes, vivências desnudas, solidões imantadoras, utopias possíveis e regozijos responsáveis...

Solta a imaginação que se fazia minúscula no horizonte daquela sede inadiável de amar, surpreendendo o Sol antes de o Sol raiar no grande dia de partirmos para além do topo das melhores esperanças.., víamos nitidamente barracas espalhadas por um gramado denso e macio criando efeito de uma aldeia de família numerosa. Gargalhadas explodiam como se fossem foguetes, abraços e carícias balsâmicas – efervescência das paixões mais intensas e "luxuriantes"... iluminação precária e improvisada facilitando a diafaneidade de almas e corações, boca seca rogando pela abundância das torrentes de Deus ..., jogos, banhos de Sol, de Lua, chuveirada para o excesso de sisudez e piscina pra arrefecer cabeças quentes, descantes, danças, preces flutuando como folhas agitadas pela aragem – como uma branda inquietação da água corrente, fogos de artifício em cada olhar, saborosa e urgente aventura de navegar rumo aos amigos/tesouro/escondido, proeza de ser quem se é nessa vida, de abrir-se, mostrar-se por dentro, caminhar na direção do diverso sem reservas ou disfarces ridículos, pra encontrar-se com Deus, como o novo, o outro e consigo mesmo.

Diante dos felizes prognósticos que se avolumavam a cada instante – figuras mentais das coisas ausentes, conjeturávamos sobre onde, quando e como se daria esse regresso ao Paraíso – redenção do labutar cotidiano.

Resolvidas as questões preliminares e passados alguns dias, como que elevados e impulsionados pelo pó mágico das fadas: Fátis, Cátis, pelas divindades rurais: Pã-Heber, Fauno-Cláudio e pelas ninfas das florestas mineiras (anônimas notáveis), voejamos todos por planícies e cerrados, roçando nuvens, fazendo amor com a dispersão do azul-celeste, extasiados pela colisão dos traços de luz emanando do Rei do dia, até que lá estávamos, acolhidos por uma vegetação abundante e diversificada que cirandava tudo.

A paisagem silenciosamente ruidosa ocultava incessante desfile de insetos Percursionistas. Ancoramos e logo amparados pela melodia de pardais e bem-te-vis, pelo balé dos tucanos - pela dança de suas cores estonteantes incidindo e embriagando o olhar, suspiramos de satisfação.

Ao fundo, montanhas soberbas de aspecto aveludado. Seus contornos bem definidos, sensuais como corpos de negras lavrenses adormecidas de bruços, como que escondendo segredos inconfessáveis e prazeres proibidos por detrás, induzindo olhares ardorosos a empreenderem uma escalada, não como faz o corpo, mas num sentimento... o lugar despertava agradavelmente nossos sentidos.

Por todos os lados "via-se" a deliciosa agitação e encantamento de meninos e meninas de todas as idades explorando cada pedacinho do lugar, degustando sabores com os olhos, com a ponta dos dedos, com a planta de pés desprevenidos, sorvendo a localidade com a sede de quem sob Sol escaldante, laboreia na (panha) de café, escutando a beleza dos tons de verde-azulado, água-marinha, verde-mar, lima, limão, esmeralda, musgo, oliva, verde-floresta, turquesa, menta, lunar... Respirando a delicadeza do feitio, da feição de tudo, lambendo os lábios carnudos dos sonhos satisfeitos e desejos realizados... eis que tudo era bom! Tudo se fez absolutamente novo de baixo do Astro Luminoso. Nosso Acampa-cópia-mento acontecia de fato... e nós... protagonistas da boa notícia sombreada, sorvíamos o prazer.

Foi aí que me vi brincando de pensar com cabeça de grego. Lembrei-me de Platão, sua teoria sobre sombras... cópias... Imaginei se o que de início antecipávamos na instância do desejo e depois concretizávamos no tempo e espaço seria como um rascunho do real - de uma matéria mais densa.

Acampar seria atividade emblemática de um mundo simulado? Pálida imagem, ligeira aparência, silhueta, sombra - espaço que se tornou menos claro pela interposição de um corpo opaco entre ele e o objeto luminoso? Seriam essas delícias naturais representações de possibilidades que o espírito também pode e deve usufruir?

Platão falava sobre arquétipos existentes no "mundo superior" segundo o que as cópias terrenas foram amoldadas.

Li em algum lugar que é certo que o escritor da Carta aos hebreus podia pensar com essas categorias: a terra – mundo físico, natureza, o temporal, como sombras simbólicas, e, aquilo que é imaterial, espiritual e eterno como Arquétipo ideal ou terreno da realidade.

Lendo Hebreus 10:2, possuído por um tipo de substância incorpórea que invadiu minha mente e coração, representei em meu espírito que, além de nos somarmos aos fenômenos migratórios nas estradas e rodovias, por ocasião do que chamamos de férias e oportunidade para o descanso e relaxamento - o que muitas vezes faz com que nos ocupemos mais do que em dias normais de trabalho, precisamos compreender que nosso espírito também tem necessidades de uma ordem de coisas bem parecidas com essas que tanto nos atraem para os acampamentos em feriados prolongados, ele também carece de beleza - festejar de alegria. O que é verdade para o corpo também o seria para o espírito humano. Assim como o nosso corpo, nosso espírito também conhece a exaustão, a solidão, a fome e sede do belo, também suspira de prazer...

Os sacrifícios no temporal tem um enorme potencial de errar o alvo... Existe uma realidade mais espessa, compacta, cerrada... Seria tão bom que aprendêssemos a não privar nossa alma das delícias e descanso nos jardins de Deus... em lugares de eternidade!... E então, vamos acampar?

sábado, 22 de março de 2008

CD Ondas Eternas de Miguel Garcia


Por Carlinhos Veiga






Ondas Eternas, Miguel Garcia Ondas Eternas é o registro das experiências profundas vividas por Miguel Garcia em sua comunidade – Igreja Betesda de São Paulo. Dele jorra uma profusão de sentimentos captados pela sensibilidade do artista. Miguel é poeta mesmo: muito elogiado por “profetas” que têm o dom de brincar com as palavras, como Ricardo Gondim e Rubem Amorese.


O trabalho foge do formato comercial. Possui uma vertente jazzística muito forte. As influências vêm de Frank Gambale, George Benson, Scott Handerson e outros feras da guitarra. Miguel é instrumentista pra valer e joga com as harmonias e solos juntamente com uma banda muito competente. Algumas das canções são quase peças. Liberto do “formato-tempo” imposto pelas gravadoras, deixa o som e as emoções escaparem, fluidos. É CD para ouvir e ouvir... e a cada vez, novas descobertas. Destaque para as canções “Momentos”, “Soli Deo Gloria” e “Ser igual”. Para adquirir o Ondas Eternas, ligue para 11 9203-9101 ou escreva para miguelgarciapoeta@gmail.com


Ouça os temas do novo CD de Miguel Garcia http://www.myspace.com/miguelgarciacomposer



Lavras pra além do cartão postal e das trivialidades confortadoras

Lavras pra além do cartão postal e das trivialidades confortadoras
Miguel Garcia


Lavras do incômodo, do mal estar social, do existo logo desfruto, Lavras do desamparo, do desespero.

Lavras sem gravidade, sem referências, “sem” Deus... Lavras dos falsos profetas, falsos mestres e pastores, Lavras dos lobos devoradores, Lavras do realista verdadeiro, do pessimista e do desencantado.

Lavras dos perdidos no labirinto do progresso mecânico, dos iludidos que sonham alcançar o Ilimitado pela inteligência e não pela fé pura, por diretrizes ditadas pela “igreja” e não pela Graça, pela razão e não pela relação com Deus. Lavras dos “TEMPLOS” refúgios para os tímidos e complacentes, Lavras de uma fé não militante, Lavras dos falsos adoradores e verdadeiros aduladores – da placidez e posições influentes na cidade ao invés de salvação pelo sofrimento.

Lavras que dilui os ensinamentos de Jesus, degradando Sua mensagem. Lavras de “cristãos” que não crêem no Cristo histórico, tampouco em si mesmos.

Lavras refém das companhias exploradoras e dos monopólios: REX (Supermercados), CEMIG (Companhia energética), COPASA (Companhia de saneamento de Minas), Cartel dos Postos de Combustível, Transporte Coletivo, Mercado imobiliário, Educação Privada e Saúde.
Lavras do monopólio religioso organizado, que trata de administrar o que pertence ao domínio privado da alma individual: a religião. Lavras do Clero opressor, das Missas católicas e evangélicas, do povo caução/espectador... Lavras do retorno ao cajado, do fascismo voluntário, do chefe, do patrão do Fuller - autoridade que “alivie a angústia coletiva”...

Lavras das malditas “quebras de maldições”, conferências sobre “batalha espiritual” e pseudos intercâmbios entre igrejas que no fundo visam acoplar as estruturas mais frágeis e débeis. Lavras do Deus eternamente endividado. Lavras dos poucos ricos, bonitos, mandantes, Lavras Senhorial... da menina-moça e do garanhão privilegiados...

Lavras da família patriarcal que relutantemente se vê obrigada a aceitar a negralhada em ambientes, cargos e posições mais “elevadas”, contanto que sejam os de feições mais doces e mais finas, de estampa mais agradável e que nada se altere quanto aos conservadores salários de fome e carga horária abusiva.

Lavras da Maçonaria, que pra além do discurso hipócrita é uma filosofia que cultiva injustiça social, classicismo, desumanidade e que opera com princípios de trabalho escravo, fundamentalismo, desigualdade e exclusão, um câncer que já se alastrou por todo o corpo do tecido social, político e religioso sem encontrar a menor resistência. Lavras que assim como a maioria das prefeituras do resto do país, também está de joelhos ante a Maçonaria, confira essa história infame na matéria extraída do jornal Tribuna de Lavras de 01/03/2008:


“Representantes da Loja Maçônica 20 de Julho, de Lavras, estiveram reunidos nesta terça-feira, dia 26, com a prefeita Jussara Menicucci de Oliveira, para receberem a doação de um terreno para a construção do templo da instituição. A área de 1000 metros quadrados fica localizada na Rua Geraldo Bertolucci, no bairro Monte Líbano.A reunião de entrega contou com a participação do presidente da Câmara Municipal de lavras, vereador Evandro Castanheira Lacerda (Chapisco), e do venerável da Loja Maçônica Deus e Caridade 7ª de Lavras, Dr. Erley Ribeiro de Carvalho. Aldair Ferreira (venerável), Luiz Henrique de Almeida, Luiz Gonzaga, major Diovany, Natalino Pereira Dias e Antonio Moura, representantes da Loja Maçônica 20 de Julho, também participaram do ato”.

Quando um incorfomado amigo nosso, cujo nome prefiro não citar, questionou sobre a possível ilegalidade das “do-ações-de-misericórdia” efetuadas pela Prefeita Jussara Menicucci de Oliveira e seus subordinados, recebeu como resposta as seguintes notas:

“Por incrível que pareça, em Lavras não há Lei que trate dos critérios para doações de imóveis pelo Município. Já questionei certa vez a uma pessoa da Assessoria jurídica da Prefeitura porque um projeto de lei chega apenas com a justificativa do Chefe do Executivo, um laudo de avaliação do imóvel, cnpj do beneficiário e é posto para a apreciação da Câmara. Sempre vejo doações para empresas que não têm ao menos um ano de funcionamento ou até mesmo que ainda não se estabeleceram. Tanto na esfera Estadual como na Federal há legislação específica e critérios rigorosos para a doação, mas aqui o que encontramos é apenas o que está disposto no Regimento Interno da Câmara e na Lei Orgânica, sobre a tramitação de projetos”.

Sem pa-Lavras...

Ao que tudo indica, parece que a maçonaria está conseguindo extrair o melhor proveito dos pastos e rebanhos humanos lavrenses, assistimos a esse vexame enquanto uma burocracia intencional do sistema da barbárie instaurada aqui, nega aos sem teto o direito a moradia, dificultando-lhes a inscrição para compra da “casa própria” (Barraco minúsculo de alvenaria, avaliado em R$25.000 reais), só para ter com o que barganhar votos na próxima eleição, ou simplesmente para superfaturar e revender as tais “moradias populares” posteriormente.

Essa situação é insuportável! Lavra inchada, inchando cada vez mais, Lavras gananciosa, faminta, insaciável.

Lavras dos moradores flutuantes (estudantes universitários) que desejam gozar a qualquer preço, dia e noite, em noites infindas... Lavras desses vampiros sugadores da energia vital daqueles que possuem uma natureza mais profunda - os amantes do silêncio, os de natureza contemplativa e calma. Lavras que dilacera o tecido do respeito e polui os lugares espaciais. Lavras ruidosa... Por que será que faz assim?...

Lavras quietamente pervertida, Lavras de olhares e gestos que falseiam. Lavras sádica e masoquisticamente tranqüila... Lavras escultural e frígida... Se as paredes das velhas construções falassem, Lavras coraria as faces de uma vergonha da cor do urucum...
Lavras bem temperada, gordurenta, salgadinha ou meladinha no Bar do Roberto, nas padarias, docerias, nos lanches, no Tropeiro, Churrascarias... Lavras do Pingo da Coopesal... Pingo/Feiticeiro no corte das carnes, massa de kibe e coisas da culinária.

Lavras da Rosa... nossa querida Rosa... Lavras do Recanto da Goiaba a caminho de Ijaci... Lavras deliciosa pra quem puder pagar... Lavras casinha do REX (Rede de Super-Mercados) - Cão Raivoso e infernal à solta na cidade, espalhando "raiva" e estômagos vazios.

Lavras do turismo sexu-ALL? De certo que não para qualquer um! Lavras dos poucos Hotéis, Motéis, Lavras dos travestis, das prostitutas, Lavras dos freqüentadores de mulheres, crianças e sub-humanos... Lavras da não cultura, não biblioteca pública ideal, não teatro, cinema, não saber, não pensar, não transcender, não ser humano.

Lavras roubada à luz do dia e das noites pela CEMIG (Companhia Energética de Minas Gerais)! Lavras da exploração tarifária – Lavras refém de abutres-oportunistas. Lavras Play Ground da CEMIG, empresa sem compromisso social, ao contrário disso, atua de modo a favorecer seus investidores internacionais e só. Duvida? Então leia um artigo escrito por um Frei de Belo Horizonte que vem atuando em todo o sul de Minas como um verdadeiro porta voz dos pensamentos e sentimentos divinos, como um defensor dos pobres, oprimidos, desvalidos em todos os sentidos, o Frei Gilvander:

“Uma pesquisa realizada nas contas da CEMIG verificou que enquanto as famílias pagam até R$600,00 o mega watt (1000 Kw) de energia, as empresas pagam menos de R$ 126,00 (ou seja, as famílias pagam seis vezes mais que as empresas); enquanto o ICMs pago pelas famílias em MG é de 30% (o mais caro do Brasil), o das empresas consumidoras é de 18%; Além do ICMs as famílias pagam também PASEP, COFINS e taxa de iluminação pública, o que resulta em 42,5% de imposto sobre o preço da energia. Enquanto as famílias consomem apenas 16,9% da energia vendida pela CEMIG em MG, as empresas consomem até 58%; enquanto o total pago pelas famílias chega a 36%, o total pago pelas empresas somam à receita da CEMIG 32,87%; enquanto a inflação de 1997 a 2005 foi de 82,08%, a tarifa de energia subiu 246,61%”.

Lavras do funesto PA (“Pronto Atendimento”, “Pronto Socorro Público”), Lavras da vergonha, do abandono absoluto, do desumano em sua face mais cruel e demoníaca. PA´s das filas de espera torturantes, dos funcionários conformados, dos bancos de concreto frios e duros como o coração das autoridades públicas Lavrenses. Lavras da medicina que se põe a serviço do funcionamento social dos pacientes, estes, coisificados.

PA´s de corredores cemitéricos/catacúmbicos, becos de SPAWNS, apropriados para os assim considerados: (seres do inferno). Lavras dos raros e mau preparados médicos - “doutores” maquinais que se revezam no truque sem graça de aparecer e desaparecer o tempo todo, sem dar a mínima para ninguém... Nestes lugares falta de tudo: instalações dignas, equipamentos adequados e disponíveis, funcionários bem treinados, médicos sensíveis e competentes, humanidade e vergonha.

O descaso com a saúde pública é tão grande que obriga o mais comum dos mortais lavrenses a viver o papel de Prometeu acorrentado ao rochedo de sua mísera condição econômica e a fazer de si mesmo um símbolo da resistência magnânima ao sofrimento imerecido, e da força de vontade que resiste à opressão, enquanto uns poucos deuses os punem por pecados que não cometeram, enviando abutres que devoram o fígado da esperança todos os dias, “órgão vital” que só se regenera porque o Deus Conosco irrompe e pervade toda essa estrutura caótica trazendo alento, apoio e sustent-ação.

Lavras massa, Lavras da não família, da antifamília, Lavras da mãe pobre, parideira, Lavras Casa Grande e Senzala, Lavras do negro massa, negro multidão. Lavras da fala gorda, descansada, amaciada, de sílabas moles e duras.

Lavras das mucamas quase alforriadas, das negras de ganho, Lavras do negro de eito, dos moleques de pancadas do nonhô e nhanhãs brancas pós-modernos. Lavras dos feitores, capatazes e capitães do mato – polícia de Lavras...

Lavras dos moleques de brinquedo, das negras Mucamas/mesa/e/banho, das amas de peito...Lavras das beldades serviçais... Lavras das taras... Lavras dos estupros do corpo e da alma... Lavras do banzo que ainda dá cabo de muitos.

A saudade outrora da Mãe - África, agora diz respeito a um lugar fora do espaço e do tempo... uma cena imóvel e suspensa na memória, um vazio, nostalgia do Éden perdido... No passado houve os que se suicidaram comendo terra, enforcando-se, envenenando-se com ervas e potages dos mandingueiros, houve os que de tão banzeiros ficaram lesos, idiotas. Não morreram, mas ficaram penando. E sem achar gosto na vida normal - entregaram-se a excessos, abusando da aguardente, da maconha, masturbando-se... E como o passado nunca está morto, como ele nem mesmo é passado e como a história está aí ao nosso redor, sabemos de novos banzos, idiotices, suicídios, ervas e até mandingueiros.Um banzeiro de hoje pode até ser feliz por ser católico, evangélico, maçom, espírita, agnóstico, ou simplesmente um dos tantos alcoolistas que penam pelos morros daqui feito fantasmas torturados. Outros vão direto à maconha, crack, e pronto!...

Lavras dos negros, brancos, dos brancos negros e dos negros morenos. Lavras do sangue bom, da “gente humilde...que vontade de chorar”, dos suicidas, lesos, zumbis, narcotizados. E se é verdade que drogar-se é experimentar um tipo de morte, um tipo de mumificação para escapar de alguma realidade indesejável, os novos banzeiros daqui estão no caminho certo.

Lavras da competição predatória, dos comandos autoritários, da obediência irrestrita.
Lavras dos sujeitados, obedientes a determinações vindas de fora... Lavras de subjetividade industrial, fabricada, moldada pelo capitalismo neoliberal. Lavras que mantém seu mercado do poder. Lavras que transforma artificialmente em sujeitado um sujeito natural. Lavras do condicionamento de massa. Lavras do Darwinismo soci-ALL e eclesi-All. Aqui se devora tudo e todos... aqui, dentro ou fora da “igreja” a proposta teórica põe ênfase nas dimensões: espécie, aptidão e seleção natural. Lavras da violência por tudo e por nada. Salve-se quem puder!

Aqui é na base do fundamentalismo radical e a transcendência se presta a justificar a exclusão social e outros fenômenos, como a escravidão e a dependência político-econômica. O lavrense dá tudo de si, dá a própria vida para manter-se vivo – preservar sua espécie, mas a recíproca nem sempre é verdadeira. De acordo com a “seleção natural” daqui, sobrevivem os mais “aptos”, os que não o fazem em nada contribuem para a história da espécie, a competição leva à evolução e isso vale também para os seres humanos, em suma, o indivíduo deve deixar que os fenômenos “naturais” se desenrolem, permanecendo passivo - tudo pelo bem comum.

Lavras tolerante com uma gama muito variada de estimulantes e substâncias que alteram o comportamento em tentativa desesperada de lidar com sentimentos de frustração, tristeza, raiva e solidão.

Lavras que não quer ser ela mesma e por conta disso busca formas inventivas e ao mesmo tempo trágicas para fugir de sua realidade. É mais fácil fazer uso de algum tipo de substância modificadora de comportamento em vez de colocar a vida em ordem de modo a sentir-se naturalmente calmo, energizado, relaxado ou desperto.

No afã de se pegar o caminho oposto, vale até uma dose do já famoso “ópio do povo” – reteté, louvorzão, mensagens de auto-ajuda, cruzadas “evangelísticas.

Lavras pensa que milagre é água...
Milagre não é água não!
Milagre “só de vez em quando”...
Água vem da COPASA e é super-faturada!

Lavras dos estímulos poderosos, da frustração e depressão. Lavras dos atores, dos palhaços karamazóvicos, dos modificados, Lavras do circo a céu aberto e da tenda azul...

Lavras das “possessões”, não consegue pensar com lucidez. Lavras do vizinho barulhento, do excesso auditivo...

Lavras insatisfeita, espera encontrar felicidade no fundo de uma garrafa ou latinha de cerveja. Sem que tenha de esperar muito tempo, encontra a náusea que a obriga a vomitar toda a lembrança de divertimento e relaxamento. Será que Lavras faz isso de propósito? Será que as pessoas se entregam às drogas e ao vício para se punirem porque se recusam a aceitar o perdão e o amor curativo de Deus? Estariam relutantes em entregar a vida nas mãos do Outro?

Lavras entrevada no leito da tradição ou petrificada por tédio e medo debruçada em alguma janela... Lavras que abraça o seu desespero para quem sabe poder usá-lo como um álibi ou prova, num futuro não tão distante...

Lavras que des-confia e que depois, continua e desdenha de vez, esquece. Lavras que diz o que você quer ouvir. Lavras que não recebe dignamente pelo trabalho de suas mãos, Lavras dos es-cravos e dos cravos nas mãos, nos pés, nos olhos, na mente e na alma, Lavras dos cristos.

Lavras “universitária” – o prazer bem à frente do saber.
Lavras que obriga a legislação a correr atrás das mais recentes maneiras de gozar. Lavras da acumulação do saber e da falta de sabedoria. Lavras... Lavras... Cemitério de quilombos imemori-ais... Quantos ais ainda ecoam por aqui!Cidade do Apartheid, de vidas separadas... Laboratório do Império, reduto de espiões e ladrões de patentes.Lavras das meninas e moleques de brinquedo dos nossos dias, Lavras das camas, redes, bancos de automóveis e de caminhões rangendo indignados pó sentirem o pesar dos estupros constantes.

Lavras dos puteiros, travestis, Lavras dos matinhos, dos banheiros dos postos de estrada, do CARNA-LAVRAS, das parideiras de novembro...Lavras dos celulares hipnóticos, dos prazeres orificiais fabricados artificialmente, Lavras das novidades, dos brinquedinhos orgásmicos... Lavras dos automóveis equipados com som pesado...

Lavras da inveja, inveja que é motor de Lavras... inveja que trabalha muito, trabalha sem descanso, descanso é para os que não são invejosos... Lavras dos olhos doentes... Lavras da admiração sem esperança. Lavras que também faria Jesus chorar. Lavras, Lavras, quantas vezes... Lavras dos Reis do gado, curral de eleitores complacentes e dóceis feito vacas hindus.... “Eh oh oh vida de gado povo marcado eh povo infeliz ....”

Lavras que tem de se virar sozinha: quem quiser que plante uma farmácia no quintal de sua casa (se tiver casa e quintal), que construa um fogão à lenha, que banhe-se com a água aquecida pelo mesmo fogão... Lavras da irmã Aparecida, santa mulher corajosa, inventiva, batalhadora e sobre-vivente! Lavras pobre coitada...

Lavras rica, abastada e indiferente... Lavras degradada e apática... Lavras das manias, da herança escravocrata e senhorial, Lavras do mandonismo, do Sinhozinho maconheiro e motorizado, Lavras das hordas da barbárie, da falta de compromisso, do desamor à flor da pele, Lavras dos cantões, dos casarões fantasmagóricos, do antiquado, do chicote dependurado no batente da porta, do sinal... do alerta, do castigo...

Lavras dos presídios hiperlotados, Lavras das Pandoras, Prometeus, Icaros, Dédalos, Lavras de todos os deuses de pele escura e castigada pelo Sol. Lavras das faculdades sem Lavrenses, Lavras da falência na educação pública – sem pa-Lavras pra d-escrever o tamanho do caos no ensino público e privado por aqui...

Lavras de bárbaros doutores, das fornadas de diplomas...Lavras sem lei, sem justiça, Lavras crackeada, das quadrilhas de políticos, religiosos, maçons, policiais e as outras, Lavras do medo... Lavras da ambição coronelista que pune desafetos nos troncos e chicotes pós-modernos, Lavras dos “donos da terra”, da riqueza e dos meios de produção...

Lavras opressora... Lavras que mata os poetas-profetas... Lavras do PHARMAKON, da poção mágica, das liberdades ameaçadoras, dos seres mutantes, ninho de X-mans, Lavras dos homens fabricados, Lavras do céu de chumbo, Lavras vazia, filha de uma “tradição acadêmica” que vem expulsando Deus desde o mundo antigo...

Lavras gadarena: seus porcos, vão muito bem obrigado! Lavras do ideal de ideólogos mil, Lavras do sonho trampolim... Lavras ponte pra o Paraíso... Ante-sala de um Oásis - Edens das Terras da realidade (“Alguma coisa acontece no meu coração”...), Lavras rota de fuga de um mundo de sombras simbólicas... Lavras o caminho, o sacrifício, Lavras a punição...
Lavras, Lavras, “Se me cantas tu me Lavras”, alardeou um bem humorado e desesperado “homem de Deus"...

Ouvi certa feita de um clérigo ideólogo das coisas missionárias, bravateando sobre suas supostas e mais recentes manobras políticas, o seguinte:

“Se Jesus não operar, dou um jeito e faço eu mesmo”!
Fala de um herói decadente? Brado messiânico equivocado?

Lavras da Tenda-Azul, da igreja do Alemão... icabode! Foi-se a glória de um deus, e agora?

Nada mais da contemplação num relance, dos reinos da terra, nada de “favores voluntários”, do-ações generosas e const-antes..., nem tampouco aqueles fáceis acoplamentos estruturais, nada mais de Darwinismos eclesiais... Icabode!

E agora? Quem sabe a SUPER Fátima venha nos restituir a glória, mudando como “deusa” o curso da história, por causa das pessoas daqui... Como proteger a aliança, se eu deixo fora dela coisas que penso serem minhas?

Como permanecer igreja e criança,
Com fendas na armadura do tamanho de injustiças?
Como cruzar espadas com demônios
Se agasalho atitudes e projetos tão errôneos?
Icabode – Miguel Garcia

Ai, ai, ai, ai...

Lavras que não cabe nas pa-Lavras, Lavras da fé contra a esperança...Lavras pra além do cartão postal e das trivialidades confortadoras.

quinta-feira, 20 de março de 2008

FATOR HIERARQUIA

FATOR HIERARQUIA
Por Al Vimar

Embora a quase totalidade dos pensadores anarquistas repudiem aquilo que entendem por Religião, Deus, etc. nenhum deles poderia negar a presença desses valores e crenças no seio do povo.

O FATOR HIERARQUIA

Embora a quase totalidade dos pensadores anarquistas repudiem aquilo que entendem por Religião, Deus, etc, nenhum deles poderia negar a presença desses valores e crenças no seio do povo e a sua constante manifestação em todas as civilizações desde tempos imemoriais. Buscar extirpar o sentimento religioso das multidões é como tentar podar algo inerente ao espírito humano.

Embora o conhecimento que um homem tem de Deus tenha que ser necessariamente expresso em termos humanos, infelizmente, tais termos nunca são suficientes para essa tarefa, todavia, isso não significa que a Religião se traduza, ou mesmo se esgote, em atitudes estereotipadas e fingidas de pessoas travestidas de religiosas – autômatos, insossos, sem graça, sem vida, que nos causa tanto asco nas igrejas, ruas, trens, emissoras de rádio, praças e TV. Por mais repugnante que seja o uso que certas pessoas fazem da Religião, isso não justifica o combate da Religião em si.

Ao contrário do que muitos pensam, o sentimento religioso não pode ser considerado nocivo ou algo que necessariamente se opõe à anarquia. O argumento mais forte para o descarte da Religião, apresentado pela maioria dos anarquistas, diz respeito ao uso que os poderosos fazem desse sentimento religioso presente no povo: matéria prima a serviço da dominação.

O estado, o capital e a propriedade dos meios de produção, podem e devem ser abolidos, e a Religião pode perfeitamente contribuir para isso na medida em que assume seu caráter original de responsabilidade em prol da instituição da justiça, da liberdade e da solidariedade humana.
Em vez disso, as igrejas ensinam quase sempre que a relação de Deus para com a humanidade é a de um Soberano que lá de seu trono força a obediência pelo exercício de um poder irresistível – o arquétipo do Poder do Estado. E quase nunca que trata-se de um Pai que constrange pelo poder de um amor que busca e cuida.

Por muito tempo se tentou inutilmente substituir o calor da espiritualidade humana, pela frieza do cientifismo. Desse ponto de vista, nós anarquistas fariamos melhor se em lugar do ateísmo ou do anti-teísmo pregassemos a anarquia na Religião tanto quanto pregamos a anarquia na política e na economia. O chefe religioso e o Clero que a ele se subordina “pastoreando” o povo são tão nocivos para as pessoas e para a Religião quanto o proprietário e a pirâmide de administradores são nocivos para os trabalhadores de uma empresa e para a economia. A Religião sem o chefe religioso e o sem clero que a controla e domina pode e deve funcionar como instrumento de liberdade, justiça e solidariedade humana, nunca como instrumento para a conquista e para a subserviência como vemos por toda parte. O que deve ser combatido é a utilização e o cultivo do sentimento religioso popular enquanto tapume que cega os olhos do povo à realidade de exploração e miséria em que ele vive, deixando-o à mercê das classes dominantes. Dessa forma, a Religião se torna uma máquina de controle da mente do povo, e um atalho para a obtenção de fama, poder e dinheiro para seus dirigentes.

Quanto à ciência, por mais positiva que possa ser, ela jamais substituirá o sentimento religioso e jamais explicará todas as coisas e fenômenos, principalmente as principais perguntas que martelam sobre nossa vida. De qualquer forma, não podemos impedir outras pessoas de exercitar seus corações e mentes na procura de suas próprias respostas sobre a fonte da vida e a razão de suas existências.

Não é anti-anarquista reconhecer uma relação Deus x homem, como uma relação Pai/Mãe que constrange pelo poder de um amor que busca e salva suas crianças. Uma criança de quatro anos que brinca à beira do rio, repentinamente rola barranco abaixo e cai nas águas profundas, o pai que passava por ali salta do barco e salva-a da morte. Eis aí a substancia da relação Deus x homem que não pode ser considerada jamais uma relação autoritária.

Kropotkin, o mais famoso escritor anarquista, surgido do Iluminismo e da Revolução Científica, assumia que a ciência substituiria a Religião, que tanto a Igreja como o Estado seriam abolidos, ao mesmo tempo que ponderava sobre um sistema secular de ética que substituiria a teologia sobrenatural pela biologia natural. Ora, esse “sistema secular de ética” e essa “biologia natural” de Kropotkin estava muito mais próxima da Religião do que a teologia sobrenatural dos clérigos de todos os tempos. Infelizmente, outras teorias que não as de Kropotkin, acabaram prevalecendo e ensinadas nas escolas, tornando-se, em parte, vigas mestras na justificação da competição capitalista.

Enquanto os anarquistas não levarem suas mensagens para dentro das igrejas, como o fizeram os Profetas de Israel dos séculos VIII a IV AC — muitos deles anarquistas — a religião permanecerá como um terreno onde a erva daninha capitalista não para de crescer, não porque esse terreno seja estéril ao anarquismo, mas porque ninguém se preocupa em lançar ali a semente anarquista.

O problema mais grave da religião é que a maioria daqueles que se travestem de religiosos, trazem de tudo, menos a religião dentro de si, e muitos daqueles que trazem a religião dentro de si, acreditam em muitas coisas, menos em Deus e Religião, pela forma que essas coisas são apresentadas para ele, pelos estereótipos religiosos, pela falsidade e pelos formalismos religiosos.
Para muitos, a maior dificuldade em aceitar a idéia de Deus vem de associá-lo a um ser hierarquicamente superior. Isso, contudo, pode ser superado pela idéia mencionada acima, de uma mãe ou um pai que ama e cuida de sua criança. Quem teve um pai/mãe digno desse nome sabe que essa relação não implica necessariamente numa relação de poder.

O problema não está na Religião em si mas no que se faz com ela, um instrumento de escravidão, ignorância e opressão, ou uma fonte de liberdade, sabedoria e justiça. Algo que lança o povo nas trevas do preconceito e da ignorância, ou algo que realça a luz do espírito humano.
A verdadeira atitude anarquista para com a Religião é precisamente não atacar nem a fé, nem a Igreja, nem a obediência a Deus (expressão de justiça e liberdade), mas combater o conformismo, eliminar a hierarquia dentro da Igreja, e extirpar a obediência aos homens. Se sempre há pessoas com fé necessitando de Igreja, isso não significa que elas precisam obedecer a homens, da mesma forma que a atitude anarquista mais eficaz no combate ao Estado e à obediência aos homens é convencer as pessoas a não se submeterem ao Estado e a não obedecerem aos homens. A esperança anarquista no que diz respeito à política e à Religião é a abolição da hierarquia, que trará consigo a abolição do Estado e da Igreja. A questão é que Igreja sobrevive sem hierarquia, o Estado não. O Estado um dia irá finalmente desaparecer, talvez até mesmo a Igreja, mas nunca a fé. Deus para quem quiser, senhor para ninguém!

Al Vimar
Projeto Periferia
http://www.geocities.com/projetoperiferia/9a.htm

Banzo e Lamento Negro


BANZO
Eduardo de Oliveira
Paulista. Nascido em 1926. Professor, conferencista,
político. Autor de Banzo, 1965; Gestas Líricas da
Negritude, 1967; Evangelho da Solidão, 1970.


(Ao meu irmão Patrice Lumumba)

Eu sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.

Trago em meu corpo a marca das chibatas
como rubros degraus feitos de carne
pelos quais as carretas do progresso
iam buscar as brenhas do futuro.

Eu sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.

Eu vi nascer mil civilizações
erguidas pelos meus potentes braços;
mil chicotes abriram na minh'alma
um deserto de dor e de descrença
anunciando as tragédias de Lumumba.

Eu sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.

Do fundo das senzalas de outros tempos
se levanta o clamor dos meus avós
que tiveram seus sonhos esmagados
sob o peso de cangas e libambos
amando, ao longe, o sol das liberdades.

Eu sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.

Eu sinto a mesma angústia, o mesmo banzo
que encheram, tristes, os mares de outros séculos,
por isto é que ainda escuto o som do jongo
que fazia dançar os mil mocambos...
e que ainda hoje percutem nestas plagas.

Eu sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.


LAMENTO NEGRO
(fragmento)

Eu sinto em minhas veias
o grito dos cafezais.

Enxergo em minhas mãos a sombra
dos meus irmãos vergastados pelo chicote
dos senhores da terra.

Aqueles que carregam o Brasil nas costas
não têm túmulos nem legendas;

seu sono não é velado,
seu nome ninguém conhece.

Hoje eles seguem a sina
de uma sorte inglória...
de um destino obscuro.

Como as grandes noites
que se debruçam no parapeito
do tempo, para espiar o mundo,
a minha raça vem contemplando
e trabalhando para a ventura alheia,
debruçada na grande noite
do desespero.

Hoje, se o progresso despeja-se
pelos jardins do meu tempo,
a Pátria que agora é minha
chora prantos de café.

A pátria de hoje
É um pedaço de tristeza
e de soluço dos meus avós,
atirada pelas tumbas sem legendas.

Os meus ancestrais
foram vassalos dela...
escravos dela
e se esqueceram de viver.

A grandeza da minha terra
tem seus pés fincados
na alma da minha gente,
na fome da minha gente,
oculta nos presídios,
nos mocambos, nas favelas,
na hemoptise que escreve com sangue
a sorte da minha raça.

Não mais farei versos bonzinhos
para o agrado dos meus novos senhores.
Escuta, "Capitão do Mato":

Daqui por diante
só cantarei o destino da gente
que estua em meu sangue de negro.
Meu poema terá o gosto amargo
do desespero do meu povo.

(...)

Se a turbulência das praças
arrastarem as multidões
amotinadas pela fome
lá estará o meu grito de rebeldia.
Ser negro é sentir a pujança telúrica
das raças infelizes.
Senzalas, ritos, cafezais
são símbolos de ontem
que relembram escravidão.
Favelas, salários, sindicatos,
são emblemas de agora, chicoteando
o rosto de meus irmãos. (...)

[De Banzo, 2a. ed. São Paulo: Obelisco, 1965.]

UMA OUTRA PERSPECTIVA DO SALVADOR: JESUS, O REVOLUCIONÁRIO


Uma Outra perspectiva do Salvador: Jesus, o revolucionário
Frank Viola http://www.geocities.com/projetoperiferia/9a.htm


“Se o cristianismo rejuvenescesse, este rejuvenescimento teria que ser de alguma maneira diferente do que ocorre agora. Se a Igreja na segunda metade deste século [XX] pretende recuperar-se das feridas que sofreu durante a primeira metade, então precisara de um novo tipo de pregador. O conveniente chefe de sinagoga nunca vai funcionar. Nem o tipo sacerdotal que desempenha suas funções e recebe sua paga sem outras preocupações, nem o tipo pastoral com sua ‘língua de ouro’ que sabe como fazer para que o evangelho seja saboroso e aceitável a todos. Todos estes tipos foram reprovados e nada resolveram. Outro tipo de líder religioso precisa surgir entre nós. Ele precisa ser do tipo do antigo profeta, um homem que tem visões de Deus, um homem que escuta a voz vinda do trono. Quando ele vir, (e eu oro, oh! Deus! Que não haja apenas um, mas muitos), ele questionará tudo aquilo que nossa civilização considera precioso. Ele colocará em dúvida, denunciará e protestará em nome de Deus e será alvo do ódio e da oposição de grande parcela da Cristandade”.-A.W. Tozer



Jesus Cristo não é apenas o Salvador, o Messias, o Profeta, o Sacerdote, e o Rei. Ele é também o Revolucionário. Tanto que alguns cristãos o conhecem como tal. Sem dúvida, alguns de meus leitores têm lutado contra este pensamento enquanto lêem este livro: “Por quê você é tão negativo a respeito da igreja moderna, Frank!? Jesus não é um caçador de defeitos, uma personalidade crítica. Nosso Senhor não fala das coisas ruins da igreja. Enfoquemos o lado positivo e ignoremos o negativo!”

Tais sentimentos em alto e bom tom expressam um completo desconhecimento de Cristo enquanto mestre revolucionário — profeta radical — orador provocativo — polêmico — iconoclasta — e oponente implacável das autoridades (públicas e privadas) religiosas estabelecidas.

Claro, nosso Senhor não é intrinsecamente crítico ou severo. Ele é pleno de misericórdia e de bondade, e ele ama Seu povo apaixonadamente. Todavia, é precisamente por isso que Ele é zeloso para com sua Noiva. E é por isso que Ele não se comprometerá com as tradições inquebrantáveis que amarraram seu povo. Ele tampouco ignorará nossa fanática devoção a elas.

Considere a conduta de Nosso Senhor enquanto esteve na terra.

Jesus nunca foi nem agitador nem rebelde grandiloqüente. Embora constantemente desafiasse as tradições dos escribas e fariseus. Ele não fazia isso de forma casual, mas deliberadamente. Os fariseus foram os que, pela “verdade” que enxergavam, intentaram extinguir a verdade que eles não conseguiam ver. Isto explica porque sempre houve uma tormentosa controvérsia entre a “tradição dos anciãos” e os atos de Jesus.

Alguém disse certa vez que “um rebelde tenta mudar o passado; um revolucionário tenta mudar o futuro”. Jesus Cristo trouxe uma drástica mudança ao mundo. Mudou à visão de homem sobre Deus. Mudou à visão de Deus sobre o homem. Mudou à visão dos homens sobre as mulheres. Nosso Senhor veio trazer uma mudança radical ao modo antigo das coisas, substituindo-o por uma nova ordem. Ele veio para trazer um novo pacto — um novo reino — um novo nascimento — uma nova raça — uma nova espécie — uma nova cultura — e uma nova civilização.


Leia do princípio ao fim os Evangelhos, e veja seu Senhor, o Revolucionário. Veja como espalha pânico entre os fariseus ridicularizando intencionalmente suas convenções. Numerosas vezes Jesus curou no Sábado, frontalmente rompendo sua querida tradição. Se o Senhor pretendesse aplacar a ira de seus inimigos, Ele bem que poderia esperar chegar o domingo ou a segunda-feira para curar algumas daquelas pessoas. Mas não, Ele deliberadamente curou no sábado sabendo perfeitamente que seus oponentes ficariam furiosos.
Este modo de agir tem um sentido profundo. Certa vez Jesus curou um cego misturando barro com saliva e colocando-os nos olhos do homem. Tal fato foi um desafio direto à ordenança judaica que proibia curar aos sábados misturando barro com saliva! Todavia seu Senhor, intencionalmente, rompeu publicamente esta tradição e com a mais absoluta resolução. Veja como ele come sem lavar as mãos sob o olhar crítico dos fariseus, nova e propositadamente desafiando sua tradição fossilizada.
Em Jesus temos um Homem que recusava render-se diante das pressões da conformidade religiosa. Um Homem que pregava uma revolução. Um Homem que não tolerava a hipocrisia. Um Homem que não tinha medo de provocar aqueles que suprimiram o evangelho libertador que Ele trouxera para libertar os homens. Um Homem que não se importava em despertar a cólera de seus inimigos, levando-os a preparar-se para a luta.

Onde pretendo chegar? Nisso. Jesus veio não apenas como Messias, Ungido de Deus, para libertar seu Povo das ataduras da queda.

Ele veio não apenas como Salvador, pagando uma dívida que não era dEle para quitar os pecados da humanidade.

Ele veio não apenas como Profeta, consolando aflitos e afligindo acomodados.

Ele veio não apenas como Sacerdote, representando o homem perante Deus e representando Deus perante o homem.

Ele veio não apenas como Rei triunfante sobre toda autoridade, principado e poder.

Ele também veio como Revolucionário, rompendo o velho odre com o intuito de introduzir o novo.

Veja seu Senhor, o Revolucionário!

Para a maioria dos cristãos esta é uma nova visão de Jesus. Assim, expor o que vai mal na moderna igreja para que o Corpo de Cristo possa cumprir a intenção última de Deus é uma simples expressão da natureza revolucionária de nosso Senhor. A meta dominante dessa natureza é colocar você e eu no centro do coração palpitante de Deus. Colocar você e eu no centro de seu propósito eterno — um propósito pelo qual tudo foi criado.

O que se necessita, portanto, é uma revolução dentro da fé cristã. Movimentos de renovação não farão isso. Revivamentos não atingirão isso. Ambos foram plenos nos últimos 50 anos. (Eu poderia acrescentar que eles tomam uma nova forma a cada cinco anos). Movimentos de renovação e revivamentos nunca foram suficientemente potentes para quebrar a imensa inércia da tradição religiosa.

Movimentos de renovação e novas formas para a igreja são como mudar as roupas de um manequim. Por mais que troquemos essa roupa nunca daremos vida a ele, não importa quão de vanguarda ela seja. Não! É necessário meter fogo na raiz do problema e acender uma revolução!

O que se necessita é uma completa reviravolta nas práticas correntes cristãs. Todas as tradições que não encontram base nas escrituras necessitam ser abandonadas para sempre.

Necessitamos começar tudo de novo... Desde o princípio. Menos do que isso sai com defeito.

Se você é um discípulo do Revolucionário de Nazaré, do Messias Radical que mete fogo na raiz... Você eventualmente formulará uma pergunta específica. A mesma pergunta que os discípulos fizeram a Jesus quando Ele caminhava sobre a terra. Essa pergunta é: “Por que os seus discípulos desobedecem às antigas tradições judaicas?”. Pegando esta declaração como gancho, o próximo capítulo é o mais importante de todos.

"Um radical de verdade tem que ser um homem de raízes. Em termos que sempre utilizo, "O revolucionário é um 'forasteiro' diante da estrutura que vê colapsando: 



Certamente ele tem que se ver fora dela. Mas o radical vai até as raízes de sua própria tradição. Tem que amá-la: Tem que chorar sobre Jerusalém, mesmo pronunciando sua sentença...”-John A.T. Robinson